Capítulo 4

Semanas inteiras se passaram depois daquela noite com o vidro de perfume. Ele virou meu companheiro mais fiel, perfeito no tamanho, na textura, na forma como preenchia tudo sem doer tanto depois das primeiras vezes. Eu usava quase todo dia, escondido no fundo da gaveta, limpinho depois de cada sessão. Mas um dia, de uma hora pra outra, o encanto pareceu ir embora. Não era mais suficiente. O prazer vinha, mas mais fraco, mais rápido, e depois ficava um vazio maior que antes.

As sessões foram ficando mais recorrentes, virando rotina. Uma rápida logo quando acordava, ainda deitada, só pra começar o dia com aquele calor bom. Outra quando voltava da escola, trancada no quarto antes mesmo de tirar a mochila. Quando me sentia triste à tarde, o que acontecia quase sempre, eu ia pro banheiro ou pro quarto e me tocava devagar, até a tristeza derreter. E à noite, sempre uma mais longa, antes de dormir, às vezes com o vidro, às vezes só com os dedos, até o corpo cansar e eu apagar.

Nesse período, eu consegui abstrair de tudo. Os telefonemas da minha mãe, reclamando do meu pai, dizendo que ele ia pro inferno por ter abandonado a esposa que jurou diante de Deus no altar que morreria ao lado dela, não me afetavam tanto mais. Eu ouvia, respondia o mínimo, e logo depois ia pro quarto aliviar a tensão que ainda sobrava. Era como se o prazer tivesse virado um escudo. Nada me afetava mais.

Na escola, até as pessoas pareciam notar algo diferente. Algumas meninas que nunca falavam comigo vinham dizer: “Você cortou o cabelo? Tá menos esquisita ultimamente.” Ou “Você tá mais bonita, o que aconteceu?” Eu só sorria de leve, sem graça, e ficava em silêncio. Não respondia nada. Não queria explicar, não queria dividir. Era meu segredo, e eu gostava dele ser só meu.

Quem percebeu de verdade foi meu irmão. Um dia ele bateu na porta do quarto, entrou sem esperar, e sentou na beirada da cama. Eu tava deitada, fingindo ler um livro da escola. Ele me olhou sério e perguntou: “Ei, Nicole, como tá indo essa sua depressão? Você sumiu mesmo esses dias. Se quiser falar, eu tô aqui, tá? Posso te ajudar no que for.”

Eu congelei por dentro. Ele tinha notado a mudança, mas do jeito errado. Achava que eu estava melhorando da tristeza, quando na verdade eu só tinha encontrado um jeito de esconder ela melhor. Olhei pra ele, o coração batendo quieto, e só balancei a cabeça. “Tô bem”, falei baixinho. Mas no fundo, eu pensei: se ele soubesse o que eu faço pra me sentir bem… será que ia continuar oferecendo ajuda?

Foi numa dessas tardes tristes, que a sessão foi mais longa ainda. Como se eu precisasse provar pra mim mesma o que ninguém entendia, que aquele prazer era só meu, e que eu não precisava de mais nada. Mas aí, no meio de tudo, a solidão do ato falou mais alto. Um silêncio ensurdecedor no quarto, uma escuridão que parecia cegar, um vazio que voltava mais forte depois que o calor passava. Eu me sentia estranha, alheia ao meu próprio corpo, como se ele fosse uma coisa separada de mim.

“Eu acho que eu preciso de um namorado…”, pensei, com a mão ainda entre as pernas, frustrada porque não conseguia chegar onde queria daquela vez. O prazer vinha devagar, mas não completava, deixava tudo no meio do caminho.

Minha cabeça varria todos os rostos que eu conhecia, prováveis e improváveis, imaginando quem poderia ser um pretendente. Um devaneio bobo, porque no fundo eu sabia que nenhum deles ia querer algo comigo de verdade. Eu era comum demais, invisível. E se algum tentasse se aproximar, minha mãe ia infernizar a vida dele. Ligava pra todo mundo, fazia escândalo, até o menino desistir e sumir.

Na escola, era sempre assim. Nenhum garoto se aproximava de verdade. O que sentava do meu lado, o Lucas, era educado, mas falava pouco comigo. Quando abria a boca, era pra contar da namorada dele, das coisas que faziam juntos. Eu ouvia atenta, fingindo que era só curiosidade normal, mas por dentro sentia um aperto. Ele era bonitinho, cabelo bagunçado, voz baixa. Eu achava atraente, imaginava como seria se ele me olhasse diferente. Mas sempre tinha algo que me fazia ficar longe de todos os garotos. Medo, vergonha, a voz da minha mãe na cabeça.

Enquanto esses pensamentos rodavam, eu olhei pela janela. O pátio do condomínio lá embaixo parecia convidativo. Tinha um grupo da minha idade ali, uns seis ou sete, rindo, sentados na mureta, alguns fumando escondido. Meninos e meninas juntos, vivendo uma vida que parecia tão normal. Eu nunca tinha falado com nenhum deles. Só observava de cima, como sempre.

De repente, bateu uma vontade forte de descer, de ir lá fora, de pelo menos estar perto. Não sei de onde veio aquilo. Talvez o vazio depois da sessão,a necessidade de estar com gente.

Calcei um chinelo velho, prendi o cabelo num rabo de cavalo simples, olhei rápido no espelho. Não tinha muito o que melhorar: short jeans largo, camiseta básica, rosto limpo. Falei pro meu irmão, que estava no sofá com o videogame: “Vou dar uma volta lá embaixo.” Ele só murmurou um “tá bom” sem olhar.

Sai de casa, com o coração batendo um pouco mais rápido. Quando a porta abriu no térreo, o ar da tarde entrou fresco. As risadas ficavam mais altas agora. Eu parei na saída do bloco, meio na sombra, só olhando. Um dos meninos, mais alto, sem camisa por causa do calor, jogava uma bola imaginária pro outro. Uma menina ria encostada nele, o braço no ombro dele.

Eu não sabia se dava um passo à frente ou se voltava correndo. Mas um deles, o mais alto, virou o rosto na minha direção. Nossos olhares se cruzaram por um segundo. Ele sorriu de leve, como se me reconhecesse do prédio, e acenou com a cabeça. “Ei, vem cá?”, disse, voz alta o suficiente pra eu ouvir.

Meu corpo inteiro aqueceu na hora. Foi rápido demais, um calor que subiu do peito pras orelhas, pro ventre, pras pernas. Eu não sabia o que fazer. Fiquei parada ali na sombra, fingindo que o aceno não era pra mim, olhando pro chão como se o chinelo tivesse algo interessante.

Aí ouvi um deles falando alto o suficiente pra chegar até mim.

— Mano, para com isso, a mina é autista, cara! Vai ficar zoando doido agora, que vacilo.

Houve uma conversa rápida entre eles, vozes baixas, uma risada abafada. O rapaz alto, o que estava com a menina pendurada no seu braço, se soltou dela e veio na minha direção. Eu olhei pra trás, traçando a rota de fuga pro elevador, mas estranhamente não corri. Algo me segurava ali, uma confiança esquisita misturada com o calor que não parava de crescer.

Ele era mais velho que eu, uns dezenove, talvez vinte. Cabelos compridos mal cortados de propósito, caindo no rosto. Tatuagens pelo braço inteiro, linhas pretas que eu não conseguia decifrar de longe. E um sorriso incrivelmente branco quando chegou perto.

— E aí, tudo bem?

Eu não respondi. Pessoas eram más comigo às vezes. Eu guardava isso bem guardado. Um bando de amigos idiotas e, do nada, ele vem falar comigo? Era só entender a piada. Eu fiquei quieta, olhando pro lado.

— Prazer, Fabiano.

Ele estendeu a mão, se aproximou sem pedir licença e me deu dois beijos no rosto. Rápido, mas o suficiente pra eu sentir o cheiro dele: um cheiro de homem suado e delicioso.

— Nicole.

— A galera tava curiosa sobre você. Tu mora aqui há um tempão e ninguém nunca trocou uma ideia contigo.

Eu ri sem graça, um som baixo que saiu sozinho. Não sabia o que dizer. Olhei pros pés dele, pro chão, pra piscina ao fundo.

— Você não é de falar muito, né?

Ele riu também, tentando puxar assunto. Falou do tempo, do calor, perguntou de que bloco eu era, se eu estudava por ali, se eu gostava da piscina à noite. Contou que morava no bloco C, que trabalhava numa oficina de motos, que a tatuagem nova no braço ainda doía.

Eu respondia com monossílabos, “sim”, “não”, “aham”, olhando pra ele de canto, mas cada vez mais direto.

E aí, do nada, olhando pra cara dele, pro sorriso, pro jeito que o braço tatuado balançava enquanto falava, veio uma coisa absurda. Uma vontade que desceu como um raio, forte, insana, que me deixou tonta. O corpo inteiro pulsou, o meio das pernas ficou molhado num segundo, o coração disparou tanto que eu achei que ele ia ouvir. Era diferente de tudo que eu sentia sozinha no quarto. Era urgente, animal, assustador. Mais forte.

Fabiano continuou falando, desesperado pra manter a conversa viva como se fosse uma chama que se apagasse, condenaria o mundo a uma escuridão eterna.

— …e aí, quer sentar com a gente? A gente tá só na resenha mesmo, nada demais. Você fuma?

Eu interrompi, a voz saiu baixa, mas firme, sem tremor.

— Você me comeria?

De onde veio isso? Você vai ficar sabendo logo.