Capítulo 5

Eu sei, você achou isso muito abrupto, não foi? Eu sei que foi. Pra mim também foi. A frase simplesmente saltou de dentro de mim, sem passar pela cabeça, sem filtro. Eu nunca fui santa, mas também nunca tinha dito algo assim em voz alta. Estava tudo ali, guardado, reprimido, esperando o momento certo pra sair de uma vez.

Desde nova eu ouvia que quase tudo que uma mulher fazia era pecaminoso. Que a nossa existência já era um mal, uma tentação que colocava o homem em pecado. Por isso eu tinha que andar bem coberta, não podia falar palavrão, não podia me sentar de pernas abertas ou rir alto demais. Minha mãe repetia isso o tempo todo, como se eu carregasse uma arma perigosa entre as pernas. E, ao mesmo tempo, eu ficava levemente fascinada com esse poder que supostamente eu tinha. Só que eu sempre me achei tão sem graça, tão comum, magra demais, sem nada que chamasse atenção. Como eu poderia ter poder sobre alguém se nem eu mesma me desejava no espelho?

Todo esse pensamento rodava na minha cabeça enquanto o Fabiano falava, tentando puxar assunto sobre qualquer coisa: a oficina, o calor, os amigos dele. E em nenhum momento eu senti medo de ele me rejeitar, rir na minha cara e ir contar pros outros. Não ia mudar nada na minha vida, que já não era boa mesmo. Eu estava cansada de esconder, cansada de fingir que não sentia aquela fome o tempo todo de alguma coisa.

Então eu soltei. Seca. Direto.

— Você me comeria?

Fiquei olhando pra ele, sem piscar muito, o coração batendo tão forte que eu achava que ele ouvia. A brisa da tarde parecia parecia ter ido embora toda de uma vez. Os amigos dele lá atrás tinham parado de rir, como se sentissem que algo tinha mudado.

Fabiano parou de falar no meio da frase. O sorriso branco sumiu devagar, os olhos dele desceram rápido pelo meu corpo — short jeans largo, camiseta velha, chinelo surrado — e voltaram pro meu rosto. Ele não riu. Não virou as costas. Só ficou me olhando, como se estivesse tentando entender se eu tinha dito mesmo aquilo ou se ele tinha ouvido errado. Ou estava avaliando se valeria a pena me comer.

A resposta demorou. Demorou tanto que eu senti o calor entre as pernas pulsar mais forte, molhado, urgente. Ele passou a língua nos lábios, deu um passo mais perto, voz baixa agora, só pra mim.

— Agora? Assim? Do nada?

— É, quer ou não?

Eu não esperei mais resposta. Dei as costas e comecei a andar pro elevador, sem olhar pra trás. Sentia ele atrás, passos quietos me seguindo, presença muda como uma sombra. O que eu pensava ali? Nada. Absolutamente nada. Era só paz, uma paz quente e profunda que eu só conhecia das horas sozinha no quarto. Como se o corpo inteiro estivesse sob uma droga forte, um disparo de adrenalina que arrepiava tudo, dos pés à cabeça, mas sem medo, sem ansiedade. Só calmaria.

Eu não pensei no perigo de estar levando um estranho para dentro de casa. Nem que meu irmão poderia ouvir tudo que fosse acontecer no meu quarto. Nada disso passou pela cabeça. E tinha um detalhe maior: sexo ainda era só teoria pra mim. Eu sabia o básico dos vídeos escondidos, das conversas na escola, o suficiente pra entender o que acontecia e jurar que nunca faria. Mas agora o desejo tinha crescido tanto, virado vício que não parava mais, uma fome que apertava o dia inteiro e só aliviava com toque. Eu precisava, de qualquer jeito.

As portas do elevador abriram. Entrei, ele veio atrás. O espaço pequeno, espelho nas paredes mostrando nós dois: eu; ele alto, tatuado, cheiroso.

As portas fecharam.

O prédio estava quieto, luzes fracas no corredor da tarde. Ele não esperou muito, afobado, ignorou as câmeras e me encostou na parede do elevador, mão firme no quadril, boca no meu pescoço, lambendo, mordendo de leve. Eu não sabia o que fazer com a boca dele ali, não tentei beijar, não sabia beijar mesmo. Só virei o rosto pro lado, deixei que ele fizesse. Não abracei, não toquei nele, não tirei roupa. As mãos dele subiram por baixo da camiseta, apertaram a pele da barriga, os dedos roçando os bicos que endureceram sem eu querer.

Eu respirei fundo, olhos meio fechados, olhando pro espelho sem focar direito. Não sabia o que fazer com as mãos, com nada, então não fiz. Fiquei parada, quieta, só deixando acontecer. E quanto mais ele fazia tudo sozinho, mais uma sensação boa crescia dentro de mim, devagar, quente, espalhando da barriga pras coxas. Era como se cada aperto, cada lambida dele aliviasse algo que doía o dia todo sem eu perceber, aquela fome quieta que não parava nunca. O calor subia morno, acalmando o peito apertado, me deixando mole, leve, como se o vazio que eu carregava sumisse um pouco. Era bom. Muito bom. Melhor que sozinha, porque não era eu quem precisava mexer, buscar, fazer esforço. Era só receber, deixar que ele tomasse o que quisesse, e o prazer vinha puro, preenchendo tudo sem eu precisar de nada mais. Meu corpo respondia sozinho, ficando molhado, pulsando baixinho, e eu só sentia aquela paz crescer, me envolvendo inteira, como se ali, parada, eu finalmente estivesse no lugar certo.

— Vem cá! Tá tudo? — ele olhou em volta como se estivesse prestes a fazer algo muito errado. — Você não é autista não, né?

Eu olhei pra ele e deixei um riso leve aparecer no rosto, daqueles que saem sem graça, sem som quase. Ele devia me achar realmente esquisita mesmo. Eu tinha deixado ele me dar uns apertos no elevador sem reagir muito, sem empurrar, sem puxar, só parada ali deixando acontecer. Eu estava nervosa, o coração batendo quieto, sem saber direito o que eu tinha que fazer com as mãos ou com o corpo. Achei que quando chegasse no quarto ia ficar mais relaxada, mais no meu lugar. Fora isso, não pensava muito. Só sentia aquela quentura que não parava de crescer.

Abri a porta de casa devagar. Meu irmão estava no sofá, controle na mão, olhos grudados na TV jogando videogame. Quando nos viu, a surpresa estampou na cara dele como uma exclamação enorme. Boca meio aberta, sobrancelha levantada. Ele não falou nada, só olhou de mim pro Fabiano e de volta pra mim.

— A gente vai pro quarto, tá? Qualquer coisa bate na porta.

Falei tentando parecer que era normal, voz baixa, como se aquilo acontecesse todo dia. Meu irmão nunca tinha me ouvido falar de homem nenhum, quanto mais entrar em casa com um de mãos dadas.

Fabiano tentou puxar conversa com ele, educado, perguntando o que estava jogando, mas eu não queria esperar mais. A impaciência subia quente pela barriga, aquela fome que apertava tudo. Puxei ele pelo braço pro corredor, entrei no quarto primeiro, ele atrás. Virei a chave na porta com um clique baixo.

Me virei pra ele, encostei as costas na porta, olhei direto com a expressão mais suja que eu conseguia fazer — olhos pesados, boca meio aberta, como se dissesse “E aí, qual vai ser?”. Eu não falei nada. Só esperei, quieta, o corpo já quente, já pronto, querendo que ele fizesse tudo logo, sem eu precisar pedir mais, sem eu precisar mexer quase nada. Só receber.

Ele antes de tudo olhou em volta pro meu quarto, como se estivesse catalogando tudo rápido. O lugar era novo pra mim também; eu tinha vindo pra casa do pai depois do divórcio, então os móveis eram aqueles básicos do apartamento, cama grande, guarda-roupa branco, mesa de estudo simples, paredes brancas sem pôster, sem foto, sem nada meu de verdade. Faltavam coisas, era tudo vazio, sem vida, como eu me sentia na maior parte do tempo.

Mas tinha uma boa cama, larga, lençóis limpos.

Ele deu um passo na minha direção, me puxou pela cintura com as duas mãos e me deu um beijo. Eu só acompanhei, boca aberta, deixando que ele fizesse. A língua dele veio afobada, rápida, entrando fundo na minha boca sem esperar, lambendo tudo, girando desajeitada, como se quisesse devorar logo. Saliva misturando, respiração pesada dele no meu rosto, cheiro de perfume. Eu não sabia direito o que fazer com a minha língua, então deixei parada no começo, só sentindo ele invadir, chupar, morder de leve o lábio inferior.

Aí algo mudou dentro de mim. Apertei a bunda dele com as duas mãos, firme, puxando o corpo dele contra o meu, forçando a cintura na dele, quase envolvendo a perna em volta da coxa dele pra colar mais. O calor entre as pernas pulsou forte, molhado já, e eu só queria que ele continuasse fazendo tudo, que não parasse, que usasse logo. Eu não falava, não gemia alto, só apertava mais, deixando que ele sentisse que eu queria, mas sem me mexer muito além disso.

Eu me soltei do beijo dele — gostoso, mas demorado demais. Eu queria o próximo estágio logo. Grudei os olhos nos dele, sem piscar, e devagar tirei tudo: camiseta por cima da cabeça, short jeans e calcinha baixando juntos, deixando cair no chão. Fiquei pelada ali, corpo magro, seios pequenos, pele clara, sem me cobrir, só parada, quieta e peluda, esperando que ele fizesse o resto.