Capítulo 8

É impressionante como o sexo melhorou minha vida nesse período. Eu, que naturalmente não sentia vontade de me levantar da cama, que passava dias inteiros encolhida no quarto com o peso no peito, quando me masturbava ou transava conseguia voltar a ser funcional por um tempo. Quando fazia sozinha, era como se a dose fosse fraca — aliviava na hora, mas o vazio voltava rápido, em horas. Quando transava de verdade, com alguém usando meu corpo daquele jeito, o bom humor perdurava por dias inteiros. Eu acordava com energia, conseguia estudar um pouco, comer direito, até sorrir sem motivo. Uma pena que isso foi diminuindo com o tempo, o corpo se acostumando, precisando de mais pra sentir o mesmo.

Depois da siririca no quarto, aquela gozada quieta que me deixou mole e calma na cama, eu tomei um banho frio pra acordar de vez. Coloquei as roupas de antes, prendi o cabelo no rabo de cavalo frouxo de sempre, e me arrisquei a ir pra sala. Meu irmão ainda estava lá, jogando videogame no sofá, controle na mão, concentrado na tela. Sentei do lado dele, peguei o segundo controle sem pedir, e começamos a jogar juntos, algo que a gente não fazia há meses.

Foi estranho no começo, mas bom. Conversamos sobre nossas vidas, coisas que a gente nunca falava direito. Ele reclamava da escola, dos amigos que sumiam quando o pai viajava, da mãe ligando toda hora pra cobrar nota e rezar no telefone. Eu ouvia, respondia pouco, mas pela primeira vez sentia que ele sofria de certa forma as mesmas coisas que eu: o apartamento vazio, o divórcio que bagunçou tudo, a sensação de não pertencer direito a lugar nenhum. Fizemos planos bobos pro futuro — nos formar, juntar dinheiro, ir morar juntos num apartamento pequeno, só nós dois, um cuidando do outro, longe das brigas dos pais.

Saímos pra comprar picolé na vendinha do condomínio, depois demos uma volta na praia, que ficava tão perto — a gente via o mar da janela do apartamento há meses —, mas eu nunca tinha ido a pé, sem ser levada de carro pelo pai. O sol da tarde no finalzinho do dia batendo quente, areia nos pés, vento bagunçando o cabelo. Eu me sentia leve, quase normal.

Como o sexo era coisa nova na minha cabeça, ocupando tudo, eu perguntei entrelinhas sobre o assunto pra ele. Não francamente, claro — só jogava perguntas indiretas, pescando nas respostas. Ele disse que ficava com uma menina da escola e só, beijinho aqui, mão ali, nada mais. Eu ouvia atenta, curiosa, mas acabei tendo que falar do Fabiano. Foi difícil explicar como levei um cara pra cama sem conversar nem dez minutos com ele, sem conhecer nada além do nome. Essa parte eu omiti, falei só que tinha conhecido no pátio, que a gente tinha ficado, ponto.

O legal foi ele me dizendo que não contaria pra ninguém, principalmente pra mamãe, que se eu quisesse ir ver o Fabiano de novo pra falar com ele, ele me cobriria se algo desse errado — inventaria uma desculpa pro pai, diria que eu tava na casa de uma amiga. Em contrapartida, eu disse que ajudaria ele com as namoradas, que daria conselhos se precisasse. Como se eu tivesse alguma experiência em flerte, em ser desejada de verdade. Mas falei mesmo assim, e a gente riu, comendo o picolé derretendo na mão, olhando o mar. Por um momento, parecia que a gente era só irmãos normais, com segredos um do outro, cuidando um do outro. E isso me deixou com uma paz quieta, quase tão boa quanto o sexo.

Quase.

Quando o sol foi embora, o vento começou a bater frio vindo do mar, aquele ar úmido que entrava pela camiseta fina e arrepiava a pele toda. O contraste com o calor do asfalto ainda quente me deixou arrepiada inteira, braços cruzados no peito enquanto a gente caminhava de volta pro condomínio, areia grudada nos chinelos. Meu irmão não parava de falar da menina, animado, tramando comigo uma forma de trazer ela pra casa. Isso envolvia eu ligar pra mãe dela me passando por minha mãe, inventando alguma desculpa pra deixar ela vir. A mãe dela provavelmente não deixava filha ir pra casa de menino, essas coisas de proteção.

Eu olhava pra ele sem dizer nada, só ouvindo, braços apertados no corpo pra espantar o frio. Claro que eu já não concordava muito com a ideia — mentira no começo sempre dá errado, mãe sente no ar —, mas não queria que ele soubesse. Fiquei quieta, olhando pro chão, o vento bagunçando o rabo de cavalo.

Até que uma hora ele ficou pensativo, passos mais lentos, olhando pro vazio do caminho de volta.

— Eu vou falar uma coisa, você promete que não ri de mim?

— Prometo.

— Eu tenho medo de morrer virgem.

O tom era de confissão, baixinho, patético mas com um fundo mórbido, como se ele realmente achasse que o tempo estava acabando. Eu parei de andar um segundo, olhando pra ele de lado.

— Você acha que vai morrer amanhã por acaso, garoto?

Ele riu sem graça, mas a gente sabia o que aquela frase significava de verdade. Não era só desejo de fazer sexo, de perder a virgindade logo. Era uma declaração de solidão, daquela sensação de que nada nunca ia acontecer, de que a gente ia ficar pra sempre assim, invisíveis pros outros, sem ninguém querendo chegar perto de verdade.

— Xuxu, eu te ajudo com a menina, mas começar as coisas assim com mentira é complicado. A mãe dela vai descobrir, mãe sempre sabe das coisas. Então, isso não é uma boa ideia.

Meu irmão não era burro, ele entendia. Mas eu sabia que ele tinha um pouco de mim nele. Eu era retraída, quieta, ficava na minha o tempo todo. Ele era solto, extrovertido, cheio de amigo na escola. Mas no final, os dois tinham problemas pra se relacionar com pessoas, cada um do seu jeito. Ele forçando demais, inventando plano pra trazer menina pra casa. Eu… bom, eu já tinha resolvido do meu jeito, rápido, sem conversa, sem mentira nenhuma além do silêncio. Mas isso eu não contava pra ele. A gente caminhou o resto do caminho quietos, o vento frio batendo, mas com uma coisa nova no ar: como se a gente se entendesse um pouco mais, sem precisar falar tudo

Fui quem rompeu o silêncio da caminhada.

— A vantagem do papai ter achado você na lata do lixo é que a gente não se parece muito. Faz o seguinte: diz pra todo mundo que você é meu namorado!

Eu agarrei a mão dele na rua, balançando o braço como se exibisse um namoradinho de verdade, rindo baixo enquanto a gente andava de volta pro condomínio. O vento frio ainda batia, mas agora não arrepiava tanto. Eu me sentia leve, quase boba, como se aquilo fosse normal.

Ele riu, aquela gargalhada alta dele, e como sempre, pra não ficar por baixo:

— É, fechou! E eu vou dizer que eu tô te comendo também, posso?

— Jonathan! Corre se não você vai morrer, garoto!

Eu soltei a mão dele na hora, fingindo raiva, mas rindo por dentro. O namoro falso mal tinha começado e já virou uma caça: eu correndo atrás dele pela calçada, braços levantados pra dar bofetadas nas costas dele, ele desviando e rindo mais alto, zigzagueando pra não levar. A gente parecia duas crianças idiotas, ofegantes, rosto vermelho do esforço e do frio, mas era bom. Pela primeira vez em muito tempo, eu ria de verdade, sem forçar, sem pensar no vazio que sempre voltava depois.

Ele parou de repente perto do portão do condomínio, mãos pra cima em rendição.

— Tá, tá, eu paro! Namorados não brigam assim no primeiro dia.

Dentro de casa, papai já tinha chegado do trabalho, mais cedo que o habitual, e isso era um problema pra mim. Com ele ali, seria estranho eu sair pra encontrar o Fabiano, muito menos levar ele pro meu quarto de novo sem ninguém notar. Ele nos olhou com uma cara de dúvida, um leve espanto ao ver nós dois de bom humor, rindo de bobagem na cozinha. Pareceu feliz com aquilo, porque resolveu não ser chato aquela noite, até pediu comida delivery, pizza ou algo assim, pra gente comer junto.

Sentados na mesa de jantar, meu irmão soltou de repente:

— Pai, eu posso namorar a minha irmã?

Papai se assustou com a pergunta repentina, garfo parado no ar, e me olhou como se avaliasse se aquilo era verdade ou não, e o quanto eu estava gostando daquela brincadeira idiota. Eu fiquei quieta, olhando pro prato, sentindo o rosto esquentar um pouco, mas sem graça.

— Pode, mas quem dos dois vai convencer sua mãe que incesto é algo legal?

A gente riu, os três, um riso que encheu a mesa de jantar por um segundo. Mamãe tacaria fogo na casa com a gente trancado dentro se ouvisse sequer essa brincadeira, com toda aquela religião dela, o medo do pecado mortal.

O jantar terminou rápido, pratos na pia, e meu irmão falou:

— Nicole, vamos lá? O pessoal tá esperando a gente!

— Vocês, saindo de casa?

Papai perguntou, sobrancelha levantada, mas com um tom que parecia feliz, como se visse a gente normal pela primeira vez em meses.

— Sim, pai, voltamos só pra comer alguma coisa mesmo…

Ele assentiu, sem perguntar mais.

Eu tentei entender a mentira do meu irmão, mas o danado já tinha um plano.

Arrumei e a mesa da janta, e fomos os dois porta a fora para a noite.