Capítulo 15

A primeira cena desse episódio retrata bem quem era o meu pai. Eu cruzei a porta de casa em uma condição lastimável, um cara tinha acabado de foder minha garganta e rios de líquidos brotaram da minha cara, borrando meu rímel e molhando e manchando a minha blusa. Quem me visse acharia que eu tinha acabado de passar por um trauma ou chorado como se tivesse perdido a mãe, e falando dela, eu jamais faria isso se fosse ela naquela sala. Minha mãe tinha um faro terrível, ela iria me cheirar, descobrir o que eu tinha feito e me bater até dizer chega.

Eu entrei em casa e meu pai, que não me via há dois dias, estava sentado no sofá com um prato de comida nas mãos, atento ao jornal da noite. Meu irmão levantou a cabeça na hora, notou algo errado e não fez alarde nenhum.

— Boa noite, pai — falei já me virando para pegar o corredor, antes que ele notasse algo e me fizesse perguntas.

— Boa noite, filha, tudo bem? — ele falou sem sequer mover os olhos na minha direção.

Ótimo, eu estava segura. Meu pai era assim: distante, absorto no mundo dele, como se eu fosse só mais um móvel na sala que ele mal notava. Ele não via as marcas no meu pescoço, o cabelo bagunçado, o cheiro de homem grudado na pele. Nada. E aquilo, de um jeito torto, me dava liberdade. Liberdade pra ser quem eu estava virando aos poucos, sem alarde, sem perguntas. Porque se ele não via, ninguém via. E se ninguém via, eu podia continuar testando, descobrindo, sentindo mais daquela coisa que me fazia vibrar por dentro, como se cada encontro fosse um degrau pra algo maior, algo que eu ainda não via o fim, mas que me chamava devagar, prometendo mais alívio, mais preenchimento, mais eu.

Entrei no meu quarto e me olhei no espelho novamente, acabada e feliz. Nossa, como eu estava feliz. Meu corpo elétrico e satisfeito, como se eu pudesse ficar fazendo aquilo a noite inteira, repetindo o ciclo de desejo e alívio sem cansar nunca. A vontade que me dava era testar se aquilo funcionaria com qualquer um, se era só uma questão de querer e deixar acontecer, de abrir a porta pra mais um e mais um, aos poucos, sem pressa, construindo algo que talvez virasse rotina, que talvez preenchesse os dias vazios de um jeito que eu nem imaginava ainda. Eu estava doida pra contar aquilo pra alguém, a cena martelando na minha cabeça — o pau na boca, o sêmen escorrendo, o controle nas minhas mãos — e eu sem ter ninguém pra compartilhar, só o espelho me olhando de volta, e esse estava dizendo que eu estava um lixo.

Comecei a me preparar para o banho. Tirei a blusa devagar, ficando só de sutiã. Prendi o cabelo num coque frouxo, olhando pro espelho enquanto pensava se lavava mesmo de noite ou se deixava o cheiro dele grudado na pele até amanhã. Na cama já tinha separado uma calcinha limpa, a camiseta velha de dormir e um absorvente, porque depois de tanto uso eu sabia que algo ia ficar escorrendo depois.

Quando juntei tudo nos braços pra ir pro banheiro, meu irmão bateu na porta e já entrou sem ser convidado, num tom alarmante.

— Nicole, o que houve com você? — A voz dele tinha uma ponta de raiva misturada com preocupação.

— Eu tô bem, não aconteceu nada. Do que você tá falando?

— Olha pra sua cara. Parece que você chorou. O Fabiano fez isso com você?

Ele esperava qualquer resposta: choro, negação nervosa, medo. Menos o sorriso safado que escapou sem eu conseguir segurar, eu mordendo os lábios devagar contendo um sorriso, olhos pesados e oblíquos.

— Nicole! Tá rindo do quê?

— Você não vai querer saber. Então não pergunta — falei dissimulada, olhando de lado.

Ele sentou na minha cama, parecia pensar. Cara de dúvida, tentando entender o que estava acontecendo.

— Vai, me conta!

Ele insistiu, voz baixa mas firme, sentado ali na beirada da cama, olhos fixos nos meus. Eu ainda estava em pé, segurando a pilha de roupas contra o peito, sutiã simples marcando os bicos que já estavam duros de novo só de lembrar o que tinha rolado na escada. Meu corpo inteiro elétrico, latejando baixo entre as pernas, o sêmen do Gustavo secando devagar nas coxas. Eu queria contar. Queria despejar tudo: a escada escura, o pau na boca, o gozo quente enchendo a garganta, o jeito que eu mandei ele meter dentro de mim sem nem tirar o jeans todo. Queria ver a cara dele mudar, ver se ele ficava chocado, puto, excitado, qualquer coisa. Porque a ideia de contar mexia comigo de um jeito que eu não esperava — era como se dividir o segredo fizesse o tesão voltar mais forte, como se o olhar dele me tornasse real de novo.

Mas quando eu abri a boca pra começar, reparei. Mesmo preocupado, mesmo com aquela cara de quem quer proteger, o olhar dele estava preso no lugar errado. Nos meus peitos. Não era disfarçado. Era fixo, pesado, seguindo cada movimento meu enquanto eu andava de um lado pro outro no quarto, falando baixo, tentando decidir o quanto contar. Eu não parei de caminhar nem um minuto, e os olhinhos dele me seguiam, vigiando o volume pequeno mas firme sob o sutiã. O raciocínio dele começou a ficar mais lento, as respostas mais curtas, a respiração um pouco mais funda. Homens. Até meu irmão.

— Depois a gente conversa. Eu preciso tomar um banho.

Falei isso pra ganhar tempo, mas já estava tirando o jeans. Desci o zíper devagar, empurrei o tecido largo pelas coxas, deixando cair no chão. Fiquei só de calcinha — algodão comum, velha, com aquele volume enorme na frente por causa dos pelos. Eu era peluda mesmo. Nunca liguei pra depilar. Minha mãe vigiava isso de perto: depilação era só pra higiene, ela dizia, e ensinava a aparar com tesoura, nada além. Na frente tinha um tufo preto-acastanhado grosso, fios que se embolavam um pouco, escuros e densos. Não era feio. Eu gostava, na verdade. Fazia um volume que marcava forte na calcinha, um monte que ninguém mais via porque eu nunca me mostrava. Fabiano nunca reclamou — parecia gostar, até apertava com a mão aberta como se quisesse sentir tudo. Gustavo nem viu direito: saiu metendo a rola em mim por trás.

Meu irmão ficou mudo quando viu. Olhos descendo devagar, da barriga pro volume na frente da calcinha, depois subindo de novo pro meu rosto, como se não acreditasse no que estava vendo.

— Você tá peluda, Nicole…

Foi a única coisa que ele disse. Voz rouca, baixa, quase um sussurro. Não era nojo. Era outra coisa. Surpresa misturada com algo que eu conhecia bem: desejo cru, sem filtro.

Eu coloquei os dedos nas laterais da calcinha e ameacei puxar pra baixo, devagar, só um pouquinho, o elástico esticando contra a pele.

— Você vai querer mesmo me ver pelada? Se não quiser, xispa daqui.

Ele piscou, rosto vermelho, mas não desviou o olhar. Engoliu em seco, coxas apertando uma contra a outra no colchão.

— Eu cansei de ver você pelada, sua idiota.

Mentira. Meu irmão nunca tinha me visto pelada. Não que eu lembrasse. Desde que a puberdade veio, eu me trocava trancada no banheiro, dormia de camiseta comprida, evitava qualquer situação que mostrasse pele demais. Só minha mãe tinha visto, e poucas colegas de escola no vestiário. Elas olhavam de canto, comentavam baixo, mas nunca chegavam perto.

Mas agora ele estava olhando. E eu estava deixando. O tesão subiu devagar, quente, do ventre pros peitos. Não era só por ele ser homem. Era porque era ele. Meu irmão. O único que ainda me via de verdade, mesmo quando eu tentava sumir. E ver ele assim, mudo, olhos escuros, respiração pesada, mexia comigo de um jeito que eu não esperava. Surpresa misturada com culpa, com vontade, com aquela paz quente que só vinha quando alguém me desejava.

E eu fiquei completamente nua na frente dele.

E a reação dele?

Nenhuma.

Nenhum músculo do seu corpo se mexeu.