Capítulo 26
Um barulho no reservado ao lado.
Meu coração bateu forte na hora, uma descarga de adrenalina me colocou em alerta máximo. Congelei como se fosse uma presa prestes a ser descoberta pelo predador. O medo de ser pega ali bateu pesado, gelado. Imagina se saem falando que me viram me tocando siririca no banheiro? Acaba minha vida no colégio. Vou ter que mudar de escola, e pior: se chamam a minha mãe? Ela ia me olhar com aquela cara de decepção misturada com nojo, ia rezar por mim na igreja, ia me chamar de tudo que já chamava nas brigas pelo telefone. Meu corpo inteiro travou, a mão ainda parada entre as pernas, dedos úmidos grudados na calcinha.
Mas aí uma coisa estranha no meu campo de visão me chamou atenção. Olhei pra cima — e tinha uma porra de uma garota me olhando sobre as divisórias do banheiro. Meu Deus. A filha da puta estava vendo eu tocar siririca. O rosto dela aparecia por cima da divisória, olhos arregalados, boca meio aberta, como se tivesse encontrado algo que não esperava. Meu cérebro fritou. Queria xingar ela, gritar, mandar embora. Mas o que saiu foi um tom baixo, quase educado, como se eu não estivesse fazendo nada demais:
— Ei, dá licença?
A menina tirou o rosto da divisória sem falar nada. Sumiu. O silêncio voltou, pesado, só com o barulho distante da torneira e das meninas mais novas conversando no espelho.
Na hora eu fiquei confabulando nervosa, o coração disparado, pensando em como ia me livrar daquela merda toda. Se ela falasse algo, eu ia dizer que estava trocando um absorvente ou limpando uma mancha na calça, e faria ela parecer a louca por inventar besteira. Mas nunca mais poderia usar aquele banheiro pra isso. Nunca mais. Eu estava muito fodida quando abrisse aquela porta.
Fiquei enrolando um tempo, como se estivesse terminando o que eu estava fazendo — ajustando a calcinha, subindo o jeans devagar, lavando as mãos na pia minúscula da cabine. Respirei fundo, alisei o moletom, prendi melhor o rabo de cavalo. Abri a porta pra encarar o mundo.
E ela estava ali. Enrolando, fingindo lavar as mãos na pia do lado de fora, olhando pro chão, o rosto vermelho. As meninas menores já tinham saído — o banheiro ficou vazio, só nós duas. Eu olhei pra ela de cara feia, como se ela fosse a culpada por tudo, como se eu fosse a vítima. Mas antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela abriu a boca primeiro, voz baixa, quase sussurrando:
— Desculpa… eu não quis ver nada. E não vou falar nada pra ninguém.
Eu abri a torneira pra lavar as mãos, sem graça, evitando o olhar dela, mas a garota não parava de me olhar. Eu queria ter coragem pra gritar, brigar, mandar ela embora, mas eu era frouxa demais pra isso. Só fiquei ali, esfregando as mãos sob a água fria, sentindo o rosto queimar de vergonha.
— Você não vai falar nada? — repetiu ela, de olho nas meninas que entravam e saíam do banheiro, voz baixa, quase sussurrando.
— Falar o quê, garota? Sobre você estar espiando os sanitários? Esquisito isso, né? — No máximo que consegui foi ser irônica, mas minha voz saiu fraca, tremendo um pouco.
Ela se encostou na pia ao lado da minha, riu baixo e soltou:
— Amor, dava pra ouvir o som de você tocando pandeiro e, pelo jeito, deu até pra entender a melodia. E pior: dava pra ouvir do corredor.
Meu Deus, que vergonha. Na hora pensei nas meninas que estavam ali. Será que elas ouviram também? Será que todo mundo sabia? Meu estômago gelou. Mas quando ela falou aquilo, ela me desmontou na piada, e eu não consegui me segurar — ri. Ri de nervoso, de alívio, de vergonha misturada. E nessa risada eu me entreguei.
— Sério?
— Uhum — confirmou ela, me olhando pelo espelho, um sorrisinho torto no canto da boca.
Eu olhei direito pra ela pela primeira vez. Era bem parecida comigo: jeito largado, pele clara, cabelo castanho preso de qualquer jeito. Mas ela pelo menos passava um lápis preto no olho, cuidava melhor do cabelo. Os peitos eram maiores, tinha mais corpo, mais volume nos quadris. Parecia comigo, mas… mais confiante. Mais viva.
— Relaxa, eu venho pra esse banheiro também — disse ela, ainda rindo. — Vou confessar que eu tô viciada nessa porra. — Ela riu de novo, pensou em algo que preferiu não dizer e balançou a cabeça. — Preciso me tratar urgente.
Eu olhei pra ela e pensei: era estranho aquilo. Primeiro ela estava me espiando. Gente, quem frequenta banheiro público sabe: quando alguém faz barulho estranho na cabine — seja lá o que for — a gente só bate, grita uma zueira e sai correndo. Se é pra subir na divisória e ver o que a pessoa tá fazendo, é pra ter certeza e zoar mais ainda. Mas ela ficou só me olhando em silêncio. Não gritou, não riu alto, não chamou ninguém. E agora ela estava me confessando, sem eu perguntar, que era viciada em siririca?
Ela me deixou curiosa. Será que ela era quebrada que nem eu? Será que sentia a mesma coisa — aquele vazio que só o orgasmo preenchia por uns segundos, a culpa que vinha depois, o desejo que não parava nunca? Eu não sabia o que falar. Só fiquei olhando pra ela no espelho, as mãos ainda molhadas, o coração batendo forte, mas não de medo mais. De outra coisa. De possibilidade.
— Você… vem aqui todo dia? — perguntei, voz baixa, quase sem querer.
Ela deu de ombros, ainda olhando pro espelho, como se estivesse decidindo quanto contar.
— Quase todo dia. Aqui é mais tranquilo. Ninguém do nosso andar vem. E… — Ela parou, riu de leve. — Dá pra fazer sem ninguém incomodar. Pelo menos até hoje.
Eu engoli seco. O banheiro estava vazio agora, só nós duas. O barulho da torneira pingando, o eco distante de alguém no corredor. O sinal anunciava a próxima aula.
Eu queria dizer alguma coisa, mas eu não sabia. Mesmo agora, ali parada na minha frente, eu encontrava uma pessoa que tinha algo em comum comigo, mas eu era uma bosta em fazer amizades e o melhor que consegui foi:
— Qual o seu nome?
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