Capítulo 27
Aquela garota, eu ainda não sabia, mas ela ia mudar a minha história completamente. Ia mudar o meu mundo e ampliar os meus horizontes de um jeito que eu nem imaginava que precisava. Eu nunca tinha me interessado por garotas, nem pensado sobre isso. Nunca nem passou pela cabeça. Mas ela se tornou uma grande amiga minha no futuro. E essa amizade começou assim, de uma forma esquisita, quase errada, com ela me espiando no banheiro.
Sabe quando duas pessoas querem ser amigas, mas nenhuma das duas leva jeito pra coisa? Quando as duas ficam ali, olhando uma pra outra, querendo falar, mas o silêncio pesa mais que qualquer palavra? Era isso. Eu, que mal conseguia olhar nos olhos das pessoas por mais de dois segundos, e ela, parecia ser igualzinha nesse aspecto.
Quando perguntei o nome dela, ela se olhou no espelho, como se estivesse fazendo um charme, mas eu via que era só nervoso. O mesmo nervoso que eu sentia.
— Valquíria, mas me chama só de Val, eu odeio meu nome.
— Val… Tá bom, mas Valquíria é um nome lindo. Eu queria me chamar Joana, como a Joana D’Arc!
— Meu Deus, que cafona, garota! — ela se virou pra mim, rindo de leve, mas com os olhos ainda meio assustados. — E o seu, qual é?
— Nicole… — respondi sem graça, olhando pro chão, sentindo as bochechas queimarem.
— Que nome fofo!
E ficamos ali o tempo de aula inteiro, tendo uma conversa difícil, tentando fugir do assunto da siririca, uma medindo a outra sem saber até onde podia falar sem ser constrangedor. Parecia que as duas não tinham muitas habilidades sociais, que as duas carregavam o mesmo peso de não saber como se conectar sem parecer errado. Mas ela pediu pra trocar telefones e disse que me mandaria mensagens. E eu, que nunca trocava número com ninguém, dei o meu. Porque, no fundo, eu queria que ela a amizade dela, eu queria receber mensagens de amigas.
E ela mandou.
O dia inteiro as mensagens chegavam e eu respondia, e a coisa virou sexual muito rapidamente. Ela contou que dava pra um cara desde os quatorze e nunca tinha sentado em outro menino, mas esse cara agora não queria saber mais dela. Disse que não era viciada em siririca, mas que ultimamente não sabia o que tinha dado nela, que estava assistindo pornô demais e se masturbando fora de controle, e que sentia muito tesão em fazer em locais fora do comum como ônibus, banheiro de escolas e… casas dos outros.
Aquilo me deu tesão de um jeito estranho, quase doloroso. Eu nunca tinha feito nada parecido. Se masturbar pra mim ainda era remédio. Era a única forma que eu conhecia de não sentir o vazio inteiro me engolir. Eu contava as coisas pra ela por cima, nunca indo fundo. Não falei que tinha dado pra três, não falei do Jonathan, nem do vazio que ficava depois de cada orgasmo, nem da culpa que batia como um soco. Menti que só me masturbava duas vezes por semana, que estava fazendo aquilo porque estava no meu período fértil. Mentira pura, pra não parecer tão quebrada quanto eu me sentia.
A conversa por mensagem com ela foi interrompida por Lucas, o menino que sentava ao meu lado. Eu sem perceber passei o resto do período inteiro com o celular na mão trocando mensagens com ela durante aula.
— Nicole?
A voz do Lucas me puxou de volta pra sala de aula como um tapa. Eu pisquei, o celular ainda quente na mão, as mensagens da Val piscando na tela sem ler. Meu rosto queimou na hora — não de vergonha por estar com telefone em sala de aula, mas porque eu tinha passado os últimos minutos trocando texto com ela sobre tesão em lugar público, enquanto ele falava do lado e eu nem escutava.
— Garota, o trabalho hoje, vamos fazer onde?
— Que trabalho?
— O professor acabou de passar um trabalho em dupla. O que houve com você? Tu chegou tarde, matou aula e agora não sai do celular.
Eu fiquei surpresa de saber que tinha alguém que prestava atenção em mim. Ninguém nunca notava nada. E aí veio a curiosidade: ele estava com ciúmes? O tom dele tinha um pouquinho de cobrança, de quem não gostou de me ver distraída com outra pessoa. Ou era só impressão minha. Meu coração deu uma batidinha diferente, mas eu disfarcei com um riso sem graça.
— Nada não, eu fiz uma amiga nova e a gente tá fofocando — falei, guardando o celular no bolso da calça, sentindo o tecido roçar na pele sensível da barriga. — Sobre o trabalho… a gente pode fazer depois da aula, na biblioteca ou sei lá, em qualquer lugar.
— Tem como ser na sua casa? — ele perguntou, já se inclinando um pouco pra frente. — Os computadores do colégio são uma droga e eu só tenho celular… você tem computador, né?
— Tenho sim — respondi, pensando rápido. Meu pai tava viajando de novo, a casa vazia. Jonathan ia pro treino depois da aula. Perfeito. — Vamos direto. A gente come na rua e faz o trabalho na minha casa.
Ele sorriu, daqueles sorrisos tímidos que ele dava quando ganhava alguma coisa.
— Beleza. Te encontro na saída então?
— Pode.
Ele saiu, mochila no ombro, e eu fiquei ali sentada mais um segundo. O clitóris ainda latejava baixo da siririca interrompida no banheiro, a calcinha úmida grudando na pele, o corpo inteiro inquieto. A ideia de levar o Lucas pra casa — alguém que não era da família, alguém normal — me deu um frio na barriga misturado com calor. Não era só o trabalho, era a possibilidade de algo acontecer.
Guardei o caderno na mochila devagar, sentindo o vazio que sempre vinha depois de uma conversa interrompida. Abri o celular de novo. Val tinha mandado mais uma mensagem:
“Então? Vamos combinar um dia de fazer alguma coisa?”
Eu sorri sozinha, mordendo o lábio. Respondi rápido:
“Sim, claro, Só hoje que eu não posso, tô indo pra casa com um menino fazer trabalho. Depois te conto.”
Enviei. E guardei o celular.
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