Capítulo 31
Eu nunca fui uma pessoa de brigas. Por isso acho que nunca havia ofendido alguém de verdade. Quando o Lucas saiu pela porta, eu fiquei mal. Muito mal. No instante em que o clique da porta ecoou no quarto, o arrependimento caiu pesado no peito, como se alguém tivesse apertado um botão e desligado o tesão de repente. Eu fiquei ali deitada, nua, olhando pro teto, sentindo o molhado escorrendo devagar pelas coxas, o corpo ainda quente do orgasmo, mas a cabeça fria, pesada, cheia de culpa. Eu tinha sido cruel. Desnecessariamente cruel. E o pior: eu sabia que tinha feito de propósito. A sensação de poder — de mandar, de humilhar, de ser a que decide — subiu tanto que eu perdi o controle. E agora ele tinha ido embora com aquela cara de quem levou um soco no estômago e ainda sorriu pra disfarçar.
Tive medo dele querer se vingar. De sair falando na escola, de contar pros amigos — se é que ele tinha, e eu virar piada coletiva. Mas a verdade é que ele não teria com quem falar. Ele era chato demais. As pessoas não gostavam muito dele. Falava alto demais da namorada que ninguém nunca via. Eu não queria contar agora, pra não dar spoiler, mas dias depois eu descobriria pela fofoca que corria pelos corredores: a tal namorada nem existia. Era tudo invenção. Um escudo pra esconder o complexo enorme que ele tinha com o pau pequeno.
E eu só ajudei a piorar. Eu enfiei o dedo na ferida e girei.
Quando ele saiu, eu me levantei e fui ao banheiro tomar um banho. A água quente caiu forte, escorrendo pela pele, lavando o suor. Tentei me masturbar com o dedinho atrás — só pra ver como era, só pra sentir de novo aquela pressão nova que tinha me feito gozar tão forte, mas não consegui. Não tinha posição boa no box, o dedo escorregava, estava meio ardido, a pele sensível demais depois do dedo dele. A ideia não saía da cabeça — o cu apertando, o pau pequeno roçando sem chegar fundo, o prazer vindo de dois lugares ao mesmo tempo. Mas sozinha não funcionava. Eu precisava dele, ou de alguém, ou de algo. Terminei o banho, arrumei o quarto rápido — lençol trocado, roupas no chão dobradas —, e mandei mensagem pra Val.
Eu queria um teste de amiga. Contar tudo pra ela com alguns detalhes, claro que contei o quanto eu me comportei como uma vadia, basicamente eu falei só que dei pra ele, disse as posições que fizemos, como era o beijo, quantas vezes eu gozei e o tamanho do pau.
Ela ouviu tudo. Pediu pra repetir partes. “Fala de novo como você pediu o dedo no cu”, “como foi o gosto dele na sua boca”. Ela ria no final, uma risada baixa, maliciosa, sem julgamento. “Caralho, Nicole, você é foda. Cruel, mas foda.” Eu fiz ela jurar de pés juntos que não contaria pra ninguém. Ela jurou. Rindo. Coisa que ela acabaria fazendo. Mas isso eu só saberia depois.
Eu tinha que ir pra casa da mãe. Fazia tempo que não a via. Peguei a mochila, chamei o ônibus. Quando cheguei, Jonathan me recebeu na porta, sorriso de sempre.
— E o trabalho, como foi?
— Não foi muito bom não…
Minha mãe apareceu logo depois. Pedi a bênção — coisa comum, automática —, e ela colocou meu irmão e eu pra esvaziar o nosso antigo armário de roupas enquanto me dava um sermão por alguma coisa que eu nem ouvia mais. Na casa dela — que era a nossa antiga casa —, meu irmão e eu dormíamos no mesmo quarto. Aquilo nunca foi problema pra gente. E foi no meio da arrumação, entre camisetas velhas e calças que não serviam mais, que eu falei com o Jonathan. Baixo, quase sussurrando, enquanto a mãe gritava da cozinha sobre alguma coisa que ninguém ouvia.
— Irmão…
Eu falei sem pensar se devia confidencializar isso pra ele. Por mais que a gente tivesse meio que transado, ele não era um confidente. Eu não sabia se ele ia ficar com ciúmes ou algo assim, se ia achar que eu tava pedindo demais, ou se ia simplesmente rir e dizer que era loucura. Mas saiu. Baixo, quase sussurrando, enquanto dobrava uma camiseta velha do armário.
Ele parou o que estava fazendo, olhou pra mim de lado. Percebeu na hora que era algo que a mãe não poderia ouvir. A voz dele saiu baixa também, mas com aquele tom de quem já sabe que vai ser pesado:
— Você manja de sexo anal?
Ele arregalou os olhos na hora, assustado. Riu baixo, nervoso, e eu vi na cara dele que pensou um milhão de piadas na mesma hora. Eu tenho certeza. Ele segurou o riso, balançou a cabeça, como se não acreditasse no que tinha ouvido.
— Caralho, garota… luxúria, incesto e agora sodomia? Tá querendo deixar o capeta feliz mesmo!
— Nossa, falou igual mamãe — respondi, quase rindo, mas sentindo o rosto queimar.
A gente teve que calar a boca porque a mãe entrou no quarto bem nessa hora, falando alto sobre algo do hospital, dando indiretas pra saber se o papai estava com outra. Ela ficou ali uns minutos, mexendo nas roupas que a gente tinha tirado do armário, reclamando que “isso aqui tá uma bagunça” e “vocês dois precisam aprender a cuidar das coisas”. Quando ela saiu, batendo algo na cozinha, o silêncio voltou.
Jonathan se aproximou um pouco mais, olhou de volta pra porta pra checar se ela não entrava de surpresa, e respondeu baixo:
— Nicole, eu nunca transei, né… o máximo que eu tive é… você sabe. — Ele fez uma pausa, olhou de novo pra porta. — A única coisa que eu sei é que dói e precisa de lubrificante.
Eu sabia daquilo. Sabia que doía, porque só com o dedo do Lucas já tinha ardido, apertado, queimado um pouco antes de virar prazer. Mas nunca que eu ia entrar numa farmácia pra comprar lubrificante. Eu morreria de vergonha. O atendente ia olhar pra cara de uma menina novinha comprando aquilo, ia imaginar o que eu ia fazer, e eu não aguentava nem pensar no olhar dele. Então fiquei quieta, só assentindo, sentindo o calor subir de novo só de falar sobre isso com ele.
— Você tentou com o Fabiano?
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