Capitulo 52

Sobre meu irmão e eu, ainda não existiam muitas regras. Nunca tínhamos conversado direito sobre quem poderia ficar com quem, ou quem poderia saber. Por medo, a gente só repetia a mesma frase como um mantra: “ninguém jamais pode saber de nós dois”.

A piadinha que Val fez no ônibus sobre mim e ele me deixou encucada. Ela não tinha informação suficiente pra afirmar nada, mas a carapuça serviu perfeitamente. Meu medo era que ela começasse a reparar em pequenos detalhes e juntasse as peças. Eu não podia deixar isso acontecer.

Antes que Jonathan resolvesse invadir o quarto, mandei uma mensagem rápida:

“Estamos no banheiro ainda nos arrumando. Espera na sala com seu amigo, por favor.”

Ele respondeu quase na hora, ansioso pra ver a “amiga nova”. Foi difícil segurar ele longe, mas consegui.

Separei umas roupas minhas pra Val — um short jeans justo que ficava ótimo nela e uma camiseta preta básica. Quando ela vestiu, ficou bem melhor do que em mim. Nós duas nos olhamos no espelho, rindo com cara de piranha, cabelo ainda úmido, bochechas rosadas.

Quando estávamos prontas, Val deu um gritinho de guerra abafado, levantando o braço:

— Vamos beijar muuuuitooooooo!!

Eu ri da piada dela, mas por dentro não estava nem um pouco interessada em beijo. Por mim nem precisava. Eu queria era foder. Queria pau. Queria ser comida forte, sentir dor, ser usada até não aguentar mais. Beijo era o que menos importava agora.

Abri a porta do quarto e fomos pra sala.

Jonathan e o amigo dele já estavam lá, sentados no sofá, jogando videogame como se nada estivesse acontecendo.

Val ainda do corredor ao ver os dois, deu um sorrisinho nervoso ao meu lado, olhou pra eles, depois me puxou de volta pro corredor sem a menor cerimônia, deixando os dois sem entender nada na sala.

— Caralho, Nicole… abriram as portas do jardim de infância? Não rola, amiga. Eles são muito novinhos.

— Eu te falei a idade deles, cacete. Vai dar pra trás agora?

Eu não entendi porra nenhuma. Será que ela não tinha prestado atenção quando eu disse que meu irmão era mais novo que eu? Mas eu entendo… na adolescência, idade nem sempre é a melhor referência. E Jonathan ainda tinha cara de moleque.

Val ficou me olhando nervosa, balançando o corpo de um lado pro outro, com aquela cara de quem ia dar pra trás a qualquer momento.

— Porra, Nicole…

Antes que ela continuasse, eu interrompi:

— Val, meu irmão já transou mais que você e sabe fazer as coisas direitinho, tá?

Ela me olhou com cara de curiosidade.

— E como você sabe disso?

— Ele me contou, ué — menti, torcendo pra soar convincente.

— Vocês conversam essas coisas?

— Mais ou menos… ele me pergunta umas coisas.

Val olhou de novo pro corredor, em direção à sala, depois virou pra mim.

— Olha… ninguém pode saber dessa porra, ouviu?

— Tá — respondi, rindo por fora enquanto fazia uma nota mental de já dar uns apertos no Jonathan pra me certificar que ele não abriria a boca.

Respirei fundo e voltamos para a sala.

O apartamento estava com as luzes baixas, só o abajur do canto aceso e a televisão ligada no menu do videogame, jogando uma luz azulada nas paredes. O cheiro de casa misturado com o desodorante exagerado dos meninos pairava no ar. Os dois estavam sentados no sofá grande, mas se levantaram assim que nos viram.

Jonathan, malandro como sempre, abriu um sorriso largo e puxou o amigo pelo ombro.

— Essa é a Val. E essa é minha irmã, Nicole — disse ele, apontando pra mim primeiro.

Felipinho era um pouco mais alto que Jonathan, corpo mais desenvolvido, mas ainda com cara de menino. Sem um fio de barba, cabelo penteado naquele estilo K-pop, todo arrumadinho com uma camiseta justa preta e calça jeans clara. Ele tentou fazer cara de interessado, inclinando a cabeça de lado com um sorrisinho ensaiado.

— E aí, Nicole… tudo bem? — falou, já usando aquela voz de “conquistador”, fazendo caras e bocas.

Eu achei extremamente idiota, mas fiquei quieta, só dei um sorrisinho tímido e assenti.

Jonathan, esperto, não perdeu tempo. Puxou Val pelo braço com naturalidade e sentou com ela no sofá menor, do outro lado da sala. Em menos de dez segundos os dois já estavam conversando sem parar, rindo alto, como se se conhecessem há anos.

Eu fiquei no sofá grande com Felipinho. O clima ficou pesado na hora. Ele tentou puxar assunto, mas era visível o esforço:

— Qual foi o momento mais feliz do seu dia hoje? — perguntou, com aquele tom de frase decorada de tutorial de conquista na internet.

Eu respondi com monossílabos, como sempre. Sou péssima nisso. Quanto mais ele tentava, mais eu fechava. Ele falava, eu sorria sem graça, olhava pro chão, brincava com a barra da camiseta. O silêncio entre as frases dele ia ficando cada vez mais constrangedor.

De vez em quando eu olhava pro outro sofá: Jonathan e Val rindo alto, ele contando alguma história gesticulando, ela inclinada pra frente prestando atenção. Pareciam se dar bem pra caralho.

Enquanto isso, Felipinho continuava tentando:

— Você gosta de viajar? Qual foi o lugar mais louco que você já foi?

Eu só queria que ele calasse a boca. Mas naquele ritmo ia demorar horrores, e eu não estava ajudando muito então eu decidi agir. Me levantei do sofá e falei com ele

— Vem comigo! — falei esticando a mão puxando ele pro meu quarto.

O garoto ficou me olhando com aquele olhar ridículo, meio de olhos semicerrados, tentando fazer cara de misterioso. Ele era ridículo, eu não me canso de dizer. Fazia caras e bocas como se fosse um idol de K-pop. Bonitinho, sim. Lindinho até. Tinha um corpo legal, rosto bonito, mas aquela falta de naturalidade me irritava pra caralho. Se eu pudesse escolher, ficaria com o meu irmão dez vezes. Gosto de homem mais bruto, mais rústico, daqueles que andam sem camisa pela casa, suados, sem frescura. Mas foi ele que sobrou pra mim.

Felipinho se levantou sorrindo pro meu irmão, tipo “olha aí, me dei bem, meu charme é foda né?”. Ele me seguiu como um cachorrinho quando eu puxei ele pela mão. No meio do corredor curto ele ainda tentou puxar papo: