Capítulo 13

Ela mergulhou no corredor quando apontei o banheiro. Eu segui com os olhos, curiosa, medindo aquele corpo novo e bonito sem saber o que procurar. Nada em mim acendeu. Eu nunca tive atração por mulheres, nem bêbada. Beijo em mulher, quando rolou, foi estalinho de Instagram, pose e fim. Eu via a beleza da Natália, claro, mas não batia em lugar nenhum do meu corpo. Era uma mulher pelada na minha casa e continuava sendo só isso: outra mulher pelada.

Sentei na sala e fiquei pensando no que aquela presença queria dizer. Tinha algo torto ali. Ela tinha dinheiro para qualquer cinco estrelas da cidade e escolheu justo o meu endereço, que mal sabia apontar no mapa. Por quê aqui? Por quê comigo?

Olhei o celular e tive o impulso de ligar para ele, perguntar se foi ele quem mandou a Natália. Se fosse teste, eu devia receber por isso. O dedo quase apertou o verde, mas o peito apertou primeiro. Doeu. Pensei nela e me veio pena, o que me irritou. Imaginei a vida virada do avesso que ela devia ter. Quem são as amigas dela? Ela tem amigas de verdade? Gente mais ou menos normal, como eu? Fiquei com o telefone na mão, parada entre a vontade de chamar e o silêncio que dizia para esperar.

O chamado veio mais alto que o som da água. Não foi grito, foi um “vem cá” que me puxou pelo corredor. A porta do banheiro estava escancarada, o vapor saía grosso, e ela ficava debaixo da ducha no máximo, como se quisesse ferver. Pensei na conta de luz que vivia atrasada. “Quem paga isso sou eu, né?” O calor me bateu no rosto.

— Oi, tudo bem aí? — fiquei no corredor, tentando não invadir. — Não tem toalha, né?

A porta do box, alumínio cansado e acrílico rachado, rangeu nos trilhos. A água correu mais forte por um segundo e ela falou:

— Ué, cadê você?

Apareci no batente. Só a cabeça. Ela olhou pra mim com o cabelo colado no rosto e riu largo, sorriso de criança. Eu tive que rir de volta.

— Ah! Agora sim. Fica aqui comigo — a porta do box fechou de novo, a voz veio abafada — mas eu vou querer uma toalha sim.

Fui buscar. No caminho, o piso frio mordeu meus pés. Peguei a mais macia do armário, meio desbotada, cheirando a amaciante barato. Quando voltei, o chuveiro já estava fechado, o box aberto, e ela torcia os fios, a água pingando do queixo para o chão. As gotas faziam um caminho torto até o ralo. Estendeu a mão sem cerimônia; eu entreguei a toalha. O tecido sumiu no corpo dela numa passada só.

Fiquei ali, sem saber o que dizer. Ela era do meu trabalho, e meu trabalho era estranho demais pra conversa jogada fora. Eu tinha tido um minuto de pena, outro de curiosidade, e passou. “Queria que você fosse embora.” Esse pensamento veio seco, sem culpa. Eu só assenti com a cabeça, encostei no batente, e esperei o vapor baixar.

O jeito que ela falou saiu quase contemplativo, esfregando a toalha nos seios como quem pensa alto.

— Já sei… Ah, Luana, desculpa. Eu sei que não devia aparecer aqui assim, invadindo do nada.

A voz bateu em mim limpa, verdadeira, e doeu um pouco porque acertou o ponto. Ela tinha percebido que eu não estava sendo exatamente hospitaleira. “Mas essas não eram condições normais.” Eu respirei fundo, contando até três, como se isso pudesse transformar aquilo em tarefa e me deixar no automático.

— Não, olha… não é isso. É que eu estranhei. Não esperava que você viesse…

Ela cortou minha frase no meio, sem agressividade.

— Estar lá é estressante. E eu, aqui, traria aquele estresse pra sua casa. Não é isso que você sente?

Era exatamente isso que eu não tinha montado na cabeça. Só assenti. A toalha roçava a pele dela fazendo um som seco, e o vapor ainda dava voltas no lustre barato do banheiro.

— Eu tive essa fase. Hoje, pra mim, o mais difícil é ficar sozinha, sabe? — ela terminou de secar, enrolou a toalha no corpo, firme, nó meio torto no peito. — Você me empresta o secador? Pra eu não ter que tirar o meu do fundo da mala?

Balancei a cabeça, um sim curto. Me abaixei no armário da pia e puxei um secador que já tinha visto dias melhores, fio torto, corpo arranhado.

Ela pegou da minha mão, escolheu uma das escovas que estavam na porta do armário e se serviu. Enfiou o plug na tomada, ligou, testou a velocidade. Pareceu satisfeita.

— Sabe, tem coisas que você não pode me perguntar lá. Aqui você pode. O que eu puder responder, eu respondo.

Encostei o ombro na porta úmida, o vapor grudando no cabelo da nuca. Pensei na proposta.

— Mas você não tem um contrato de confidencialidade?

O secador engoliu metade da voz dela e ela aumentou o volume.

— Tenho, o mesmo que o seu. Mas quem segue isso à risca? — desligou por um segundo, apontou a escova pra mim como quem marca território. — Então para de ser boba e pergunta, porque na minha vez eu queria muito ter uma amiga pra perguntar as coisas e não tinha.

“Amiga.” Aquilo bateu forte. Eu não confiava nela, mas podia tentar. “E se for teste? E se ela só quer cavar informação?” Senti a cabeça rodar.

— O que acontece depois com as meninas que ele descarta?

Ela continuou secando, silêncio comprido, cara de quem escolhe palavras. Quando respondeu, virou o corpo e desligou o secador.

— Eu conheci duas antes de você. Quase não tive contato. Eu servia a ele, mas era emprestada pela Madame.

— Duas?

Ela assentiu, voltou pro espelho, ergueu o queixo e recomeçou a secar.

— Com essas duas eu nunca falei. É proibido a gente ser amiga, você sabe. — os olhos me acharam pelo espelho. — E teve a Amanda. Essa ficou três meses e saiu.

— E o que essa tinha de especial?

— Eu tenho muita certeza. Muita mesmo. Acho que ele se apaixonou por ela.

Aquilo me prendeu. Pelo menos mostrava que ele sentia alguma coisa. Apoiei as mãos na pia ao lado dela.

— E por onde ela anda?

— Eles fizeram um acordo. Ela recebeu um dinheiro e sumiu.

— Sumiu?

— Sim. Mas não morreu, calma.

— Como você tem certeza disso?

— Porque eu falo com ela às vezes. Ela tem Instagram. Eu te mostro.

Fiquei quieta, mastigando a informação. Lembrei dos quadros. “Qual deles era a Amanda?”

— E todas essas três pareciam comigo, certo?

— Muito. Mas isso não é novidade. Ele sempre busca o mesmo tipo de mulher. — a escova apontou na minha direção, firme, como se me medisse dos pés à cabeça.

Eu tinha tentado rastrear o paradeiro delas e nunca cheguei a lugar nenhum. Meu faro de detetive barato sussurrava que nem todas tinham virado quadro. Os retratos eram a óleo, camadas sobre camadas, tinta densa que levava meses pra secar. “Ele penduraria um rosto de alguém que já se foi?” Talvez eu estivesse viajando. Pensando nisso, um medo antigo subiu pela garganta. Resolvi comer pelas beiradas.

— Mais uma dúvida… Que tipo de coisa ele pode mandar eu fazer? Ou querer fazer comigo?

Ela desligou o secador, tirou os fios presos na escova e jogou no lixo. Mais meus do que dela. Pensou um segundo e respondeu como quem fala do clima.

— Vocês transaram já?

— Não. — falei. — Só fiquei pelada.

— Ele pode querer te comer, mandar você chupar, ou mandar alguém te comer.

Depende de como ele achar que vai gostar menos.

A frase me cortou mais do que um tapa. Senti o estômago fechar. “Não mostra medo. Não entrega nada.” Minha cabeça avisou que qualquer tremor ali podia virar fofoca no ouvido certo.

— Como assim alguém? Qualquer um? Mendigo da rua? — minha voz saiu alta, um susto feio.

— Não. Amigos, por exemplo. — ela deu uma pausa, encarou o espelho. — Ou…

— Ou o quê? Fala logo.

— Mandar você transar com uma mulher.

Ela fez uma cara de certeza apavorante.

O azulejo do banheiro gelou ainda mais. “É isso que te assusta, Luana, ou é descobrir até onde você vai dizer sim?” A lâmpada chiou, a toalha dela rangeu no nó, e eu fiquei olhando meus próprios pés, tentando achar um chão que parasse de mexer.

— Entende uma coisa. É um jogo. Ele empurra você cada vez mais longe. Se ele botar um mendigo pra você mamar, você corre. Ele não quer que você vá. Ele quer ver você definhando aos poucos.

— Gente, que loucura. Ainda bem que eu tô lá só pra juntar o máximo de dinheiro e ir embora.

— Eu vou falar uma coisa, mas isso não sai daqui. Eu sei o próximo passo, porque a Madame Lulu quem sugeriu e eu ouvi.

Meu estômago virou. O corpo ficou leve, quase vertigem. Não sei se eu perguntei em voz alta ou se meu rosto perguntou por mim, porque ela continuou.

— Ele vai botar você com mulher.