Capítulo 14
“Me colocar com mulher.” A frase ficou batendo na minha cabeça. Eu sabia que era sexo, mas não via o quadro inteiro. Grande demais, pesado demais. Tentei imaginar e meu corpo travou. “Se eu mostrar nojo, ele vai beber disso. Vai querer mais.”
— Eu acho que, se ele pedir pra eu transar com mulher, dependendo do que for, eu não consigo — sussurrei, em tom de confissão.
Ela saiu do banheiro com as roupas no braço e foi se vestir na sala. Fez bem. Meu banheiro era apertado demais pra isso.
— Então diz adeus ao serviço. Deve ser por esses dias.
— Esses dias? Mas você sabe com quem?
Ela me olhou enquanto vestia a calcinha. O corte não era daqui. Tecido bom, caimento caro, coisa de gente rica.
— Não sei. Quando é assim, ele costuma contratar uma puta de luxo.
Ela falou com desdém, como se marcasse horário de manicure. Cada palavra me empurrou mais perto do pânico. Deu vontade de chorar ali mesmo, e eu nem tinha chegado no lugar. Eu odiei o instante em que autorizei essa garota a subir.
Eu me vi pelada naquele palco redondo ridículo, um monte de mulheres passando a mão em mim, e me deu calafrios.
— Eu vou dizer pra ele que não quero isso. Amanhã mesmo, pronto.
Ela me olhou e riu.
— Amor, se você mostrar a ferida assim, é nela que ele vai tocar.
— Mas você falou que, se ele souber que eu vou embora, ele não me empurra tão longe. Eu entendi errado?
— Luana, ele sabe, eu sei e você sabe que chupar uma xoxota não vai te matar. — ela parou na minha frente, mão na cintura. — Quanto você cobraria pra chupar uma?
A ideia me irritou. Ela também. Eu sabia que ela tinha razão, e isso doeu. Eu quis soltar a raiva e fiz birra besta.
— Por quê? Você vai pagar?
Ela riu.
Eu ri também. Tinha verdade ali. Que emprego desgraçado eu fui arrumar. Minha cabeça esvaziou. Os conceitos mexeram de lugar. Meus valores ficaram tortos.
Tudo estranho.
— Natália, e o que você sugere que eu faça se ele me colocar pra transar com mulher? — a cara de nojo veio sozinha — eu nem sei fazer isso, pra começo de conversa.
— Finge que gosta. Que fica mega excitada. Essas coisas.
Olhei pra ela com calma. A mulher era bonita de doer. Estava sentada no braço do sofá, pernas abertas, um cotovelo no joelho, inclinada sem perder o eixo. Camisa de dormir velha, cenário simples. Se um fotógrafo pegasse aquele recorte, virava capa de revista. Eu engoli seco a minha inveja.
— Cara, não dá pra fingir que eu gosto. Eu não gosto. Não adianta.
A agonia subiu. Lembrei das chances que já tive. Um beijo mais demorado com uma amiga. Três selinhos e eu fugi. Esquisito demais. Pensei num plano tosco: “Se eu der um beijo quente de uma vez, talvez ele desinteresse rápido e desista. Ou vai gostar mais ainda, porque homem adora ver duas mulheres juntas e se pegando.”
— Quanto a isso eu não posso fazer muito por você — ela escorregou do braço pro assento, se espalhando no sofá. — Quer me beijar pra ver qual é?
— E claro que você ia ficar toda feliz em me ajudar, né, meu bem? — falei debochada, tentando desarmar.
Ela não corou. Não vacilou. Veio firme.
— Meu anjo, acho que você não tá entendendo. Você é puta, meu bem. Eu sou puta. O nosso segmento dentro da prostituição muda, mas no fim, somos duas putas.
Cada vez que aquela palavra, puta, saiu de sua boca foi um prego na minha dignidade. E ela bateu mais um.
— Enquanto você não entender que seu corpo e sua vontade não te pertencem mais, você só vai sofrer.
Doeu. A cabeça ficou oca. O coração bateu torto. Eu já tinha perdido de mim a razão há muito tempo. Eu respirei fundo e comecei a aceitar somente.
— E você acha que se eu e você dermos uns beijos, eu vou ter mais facilidade?
Ela se levantou e parou na minha frente, braços cruzados, pose de super-heroína. Mais nova que eu, cabelo ainda úmido, brincos pequenos, correntinhas finas, pulseiras leves, quase infantis. Olhar cheio de certeza. Se inclinou e disse:
— Não.
— Não como assim? Você que sugeriu…
— Seu problema não é beijar, meu bem. Seu problema é gostar. Se eu te chupar, você consegue até fingir que gosta. Eu, um homem ou um cachorro… se você não souber quem tá chupando, o corpo vai gostar do mesmo jeito.
— Porra, você chupa mal, hein. — soltei a piada, mas entendi o ponto.
Ela pareceu não ter entendido ou focou em ignorar, e eu voltei ao assunto.
— Você tá dizendo que eu tenho que gostar? É isso?
— Exato, meu bem. E lembra: esse pode ser só o primeiro cliente. Tem muita mulher que busca a mesma coisa que ele, tá?
— Isso é sério? Você atende elas?
— Atendo. Mas é mais sexo e tal, sabe?
— Sei… — claro que eu ia perguntar. — E paga bem?
Ela deu um sorrisinho, apontou pro próprio quadril, o elástico perfeito no lugar.
— Você viu minhas calcinhas, xuxu!
A ideia dela era simples. Eu entendi. Não gostei, mas entendi. Eu era puta, e uma hora ou outra ia ter que encarar mulher. Mesmo odiando. A primeira vez poderia ser ser empurrada ali no palco, no susto, ou podia provar agora, na sala da minha casa com alguém de confiança.
Passou rapidamente pela minha cabeça chamar uma amiga. Por um segundo só. A imagem veio inteira: convite torto, vinho barato, um beijo que eu não saberia sustentar. Se eu travasse, ia magoar. Se eu falasse a verdade, virava fofoca de grupo no dia seguinte, aquela história perfeita que as minhas amigas sapatônicas iam contar rindo no bar. Deixei a ideia para lá. Não mesmo.
Com ela aqui era diferente. Não tinha romance, não tinha dívida, não tinha futuro. Era treino. Corpo contra corpo e pronto. Se eu fosse parar pra testar alguma coisa, melhor com quem entende o mecanismo e não confunde com carinho. A sala estava quieta. O meu coração batia num ponto só, forte parecia que ele era a raiva.
Portanto não era uma pedida ruim tentar com ela. Se fosse pra falhar, eu falhava aqui. Se fosse pra aprender, eu aprendia agora. Sem plateia. Sem avaliação. Só eu e ela.
— Vamos praticar do jeito que você já sabe. Eu serei sua senhora e vou abusar de você até cansar — ela se levantou, firme, à minha frente. — Vá para a sua posição.
Eu olhei aquela fedelha querendo bancar a madame comigo. Franzi os olhos, deixei a indignação subir, e ela nem piscou. Ou fingiu não ver.
— E você vai se aproveitar, né, espertinha? — cruzei os braços, frouxa demais pra quem queria bater de frente. — Eu deveria te cobrar. Eu sei que produto como eu vale muito no mercado.
Ouvir minha própria voz dizendo “produto” me deu um choque. Estranho me aceitar assim, posta à venda.
— E eu deveria cobrar por te ensinar. As pessoas me pagam por sexo, meu bem, e você nem imagina o que eu sei fazer.
Sentei, olhando pra ela com um sorriso nervoso que eu não consegui apagar. Eu sabia que quando eu me levantasse teria uma mulher me tocando. Isso me deu asco. No mínimo.
— Vamos! — ela levantou num estalo, apontou pro quarto. — Do jeito que você aprendeu. Vai pro quarto e me espera na posição. Sem brincadeira.
E eu fui.

