Capítulo 19
Aquele homem me colocava um medo absurdo, um frio que subia pela espinha toda vez que o nome dele surgia na tela, como se meu corpo já soubesse antes da mente que algo estava prestes a acontecer. O telefone tocou e eu voei para atender, o coração disparado, como se atrasar um segundo pudesse custar caro demais. Do outro lado, a voz dele saiu calma, quase preguiçosa, sem urgência, sem emoção.
— Luana, coloque um jeans. Quero sair para comer e quero você comigo.
— Um jeans, senhor?
A pergunta escapou antes que eu pudesse engolir a dúvida. Ele era rico pra caralho, daqueles que frequentam restaurantes onde o cardápio nem tem preço, e eu, com meu jeans básico de shopping popular, ia parecer uma mendiga infiltrada. "Meu Deus… e se ele me levar para um lugar chique e eu parecer ridícula? Ou pior: e se ele quiser me humilhar justamente por isso?", pensei, o estômago se contraindo.
— Você tem vinte minutos.
E desligou seco e sem despedida, sem mais uma palavra. O silêncio que ficou no ar parecia mais pesado que qualquer ordem.
Olhei para Natália. Ela ainda estava na cama, nua, os lençóis embolados ao redor das coxas, as mãos tapando a boca como se tivesse visto um fantasma. Nós duas sabíamos: ela não poderia estar ali. O contrato era cristalino — total obediência, exclusividade, nada de companhia sem permissão. Se ele descobrisse… "Meu Deus, Luana, você acabou de deixar uma mulher gozar na sua boca e agora vai sair com ele fedendo a sexo? Que vadia você virou?", o pensamento veio como um soco, misturado a um calor traiçoeiro entre as pernas.
— Ele quer me levar para jantar e pediu que eu colocasse um jeans — falei, a voz saindo mais alta do que eu queria, tentando disfarçar o pânico.
— Ué, vai ver que ele só quer sair para jantar algo que não seja você — ela respondeu, tentando soar leve, mas parou, pensou, e criou coragem para perguntar algo que não me fez sentido na hora: — Ele já te comeu?
— Não… nem encostou a mão em mim.
Eu olhei em volta, sentindo o cheiro forte grudado na pele, no cabelo, nas coxas. Fedia a buceta — a dela, a minha, misturadas num perfume sujo e doce que nenhum sabonete ia apagar em vinte minutos. Meu rosto queimou de vergonha. "Luana, caralho… você tá fedendo a mulher e vai jantar com um homem que paga suas contas."
— Caramba, eu vou tomar banho correndo. Você se vira aí.
Não deu tempo de pensar em nada. Entrei no banheiro como uma louca, abri o chuveiro gelado para acordar o corpo, esfreguei sabonete com força, como se pudesse raspar a culpa junto com a sujeira. Lavar o cabelo? Nem pensar. Secar ia demorar uma eternidade e eu tinha menos de vinte minutos. Passei um finalizador com cheiro de baunilha, torci os fios num coque frouxo e rezei para que ele não chegasse perto o suficiente para sentir o resto.
Saí pingando, peguei o jeans mais decente que tinha — aquele que ainda não estava desbotado nas coxas —, uma camiseta básica preta, tênis limpo e a lingerie que Natália insistiu em escolher.
— Nunca se sabe, então é sempre bom estar pronta! — ela disse, rindo, enquanto me entregava a calcinha de renda preta e o sutiã combinando. Como se eu fosse precisar.
Faltavam menos de dois minutos quando peguei a bolsa e o celular. Corri para o corredor, o coração na garganta.
— Mulher, tu se vira aí. Eu vou lá. Na volta eu te conto.
Tão logo cheguei na portaria, um homem de terno preto já me aguardava — um dos seguranças dele, alto, impassível, o tipo que não sorri nem por educação. Olhei o relógio: ainda tinha um minuto. Respirei aliviada, o peito subindo e descendo rápido, como se atrasar um segundo pudesse me custar caro demais. "Meu Deus, Luana, você correu como uma louca pra não decepcionar o homem que te comprou. Que vadia obediente você virou", pensei, o estômago se contraindo de vergonha misturada a um alívio doentio.
Saí do prédio e ele me guiou até o Mercedes preto, brilhante sob as luzes da rua. Para minha surpresa, não era Roberto no banco do motorista. Era ele mesmo. Ele dirigia como se de fato fosse algo comum para alguém como ele. Meu coração deu um pulo. Entrei em silêncio, sem olhar diretamente para ele — hábito que já tinha virado instinto —, ajustei o cinto com mãos trêmulas e sinalizei com um aceno sutil que estava pronta, olhos baixos, como se ainda estivesse nua na sala dele.
— Luana, pode ficar à vontade. Hoje eu quero apenas sua companhia.
A voz saiu baixa, quase gentil, sem o tom imperativo de costume. Levantei os olhos devagar, desconfiada, procurando armadilha.
— Então… eu posso falar com o senhor? Te olhar e tudo?
— Sim — respondeu ele, com um sorriso que curvou os lábios de um jeito que me fez o estômago revirar. Girou o volante suave, tomando a rua, enquanto pelo retrovisor vi o carro dos seguranças nos seguir a distância, como uma sombra discreta.
— E… para onde a gente vai?
Ele riu por um segundo — um riso curto, genuíno, que iluminou o rosto dele de um jeito que ninguém imaginaria possível. Que sorriso bonito ele tinha, caralho. "Como pode um homem assim ser tão perigoso e tão… lindo ao mesmo tempo? E eu aqui, fedendo a sexo com outra mulher, vestida como uma qualquer", o pensamento veio como um tapa.
— Achei que a gente tinha passado da fase do medo. — Eu não consegui entender o sentimento que vinha com aquela frase.
— Não, que isso… só quis saber. Eu não gosto de andar mal vestida. O senhor é rico e frequenta lugares de gente rica.
Ele assentiu com a cabeça, me devolveu um sorriso estranho, mas reconfortante — daqueles que parecem prometer algo sem dizer o quê. Continuou sem falar nada. O carro era tomado pelo perfume dele, amadeirado, caro, feito sob medida, invadindo tudo, me sufocando de um jeito que não era só cheiro. Ele parecia um príncipe dirigindo aquilo — tranquilo, bonito, o queixo quadrado, barba malfeita na medida certa, mãos firmes no volante. Ninguém nunca imaginaria que ele era um doido pervertido e eu sua puta particular. Vestia apenas uma calça jeans mais formal, tênis que não dava para saber se era social ou esporte, e uma camisa polo simples. Aquela foi a primeira vez que eu o via fora do terno impecável. Sem gravata, sem postura de dono do mundo. Quase humano.
E eu, ali ao lado dele, jeans básico, camiseta preta, tênis velho, coque frouxo ainda úmido, fedendo a baunilha barata misturada com o cheiro de buceta que nenhum banho rápido apagou. "Luana… ", o pensamento queimava, mas eu não conseguia desviar o olhar dele. O carro deslizava pela cidade, e eu não sabia se queria chegar logo ou se queria que a viagem durasse para sempre.
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