Capítulo 20

— Eu queria dar uma volta no shopping… — disse ele, a voz baixa, casual, como se estivesse comentando o tempo.

"Dar uma volta no shopping?" O pensamento veio como um choque, um soco no estômago que me fez piscar rápido. Que diabos ele queria dar volta em shopping? Não era uma coisa que combinava com ele — o homem que tinha mansões, quartos cheios de chicotes e cordas caras, que me fazia obedecer com uma palavra só. Shopping era coisa de gente comum, de adolescente com mesada, de família no final de semana. Ele, não. Ele era outro nível. "Meu Deus… será que é pra me humilhar? Me fazer andar entre as pessoas como se eu fosse uma namoradinha qualquer, vestida de jeans básico enquanto ele exibe o poder?", a pergunta queimou na minha cabeça, mas eu não disse nada.

Decidi ficar quieta. Na verdade, eu ficava estranha na frente dele. Gostava — caralho, como eu gostava —, mas me sentia desconfortável, exposta, como se cada olhar dele pudesse ler tudo que eu tentava esconder. As coisas que ele já tinha feito comigo eram esquisitas pra cacete: me deixar nua, olhos baixos, obedecendo comandos secos, o corpo tremendo de vergonha e de um tesão que eu odiava admitir. Mas no fundo… no fundo eu tinha gostado uma pontinha. Aquela pontinha que me fazia voltar, que me fazia correr para atender o telefone, que me fazia vestir jeans e entrar no carro dele fedendo a outra mulher.

A viagem inteira foi em silêncio. Eu tinha um milhão de perguntas na cabeça — quem era ele de verdade, por que eu, por que isso tudo, o que ele queria de mim naquela noite —, mas nenhuma saía da minha boca. Não tinha coragem. Tentei lembrar do contrato: tarefas estipuladas, obediência total, mas isso de hoje não estava previsto. Não tinha cláusula de "dar uma volta no shopping". O carro deslizava pelas ruas,e eu mantinha os olhos na janela, vendo as luzes da cidade passarem borradas, o coração batendo forte no peito.

A coisa ficou mais surpreendente quando percebi que estávamos deixando a área nobre, os prédios altos e as ruas arborizadas dando lugar ao subúrbio — lugar que eu jamais pensei que ele soubesse apontar no mapa. "Para onde ele está me levando?", o pensamento veio misturado a um frio na barriga e uma curiosidade mórbida.

— Eu vou te levar no Shopping Mall, conhece? — perguntou ele, quebrando o silêncio de repente, parecendo que lia a minha mente.

Eu conhecia. Era um dos maiores da cidade, o único com vida noturna de bares, enorme, lotado, muito povão! Gente rica de verdade não ia lá — no máximo, iam os classe médias só pra comprar em promoção nas lojas caras que tinham ali. Era onde emergente ia pra se vestir como rico quando tinha oferta, onde eu mesma já tinha andado olhando vitrine sem poder comprar nada.

O carro estacionou suave no estacionamento VIP — claro que tinha VIP —, e descemos. O ar da noite bateu na minha pele, fresco, carregado de cheiro de comida de praça e perfume barato das pessoas ao redor. Eu consegui fazer a primeira pergunta nervosa, a voz saindo baixa, quase sussurrada:

— Por que exatamente esse shopping? Tem algo de especial que o senhor quer aqui?

Ele parou por um segundo, olhando para o prédio imenso iluminado à nossa frente.

— Sim. Ele é meu.

Na hora meu queixo caiu. Aquilo era uma construção bilionária, luzes neon piscando, filas de carro na entrada, e eu sabia que não era só aquele — era uma rede. Uma rede inteira.

— O senhor é o dono da rede?

— Sim. Toda ela.

O cara era muito, mas muito mais rico do que eu imaginava. Meu estômago deu um nó. "Meu Deus, Luana… você tá aqui, de jeans e tênis, fedendo a baunilha e sexo, ao lado do dono de uma rede de shoppings bilionária. Eu fui seguindo ao seu lado, pernas tremendo um pouco, o contraste queimando dentro de mim: a menina comum, endividada, contra o homem que comprava mundos inteiros e, por algum motivo doentio, ainda me queria ao lado dele.

Entramos, e o lugar estava movimentado — gente circulando com sacolas, adolescentes rindo alto, famílias arrastando crianças, o cheiro de pipoca doce e perfume barato misturado no ar condicionado gelado. Os seguranças seguiam atrás, discretos mas impossíveis de ignorar: dois homens altos, ternos pretos, olhos que varriam tudo como se o shopping inteiro fosse território dele. E todos nos olhavam. Não era só curiosidade; era reconhecimento, inveja, julgamento. Eu gostei daquilo. Gostei pra caralho. Ser reconhecida como a namorada do cara rico — ou melhor, como a puta dele, mas ninguém ali sabia disso. Meu peito inchou um pouco, as costas se endireitaram sozinhas, o queixo erguido sem querer.

Até que eu vi a loja.

Aquela loja que eu amava desde sempre, vitrines cheias de tecidos fluidos, cortes perfeitos, cores que pareciam gritar luxo. A única coisa que eu conseguia comprar ali era meia — e olhe lá, quando tinha promoção de fim de coleção. A loja era uma fortuna, chique e linda, com iluminação difusa que fazia cada peça parecer uma obra de arte. Sem perceber, parei na vitrine. Fiquei olhando as roupas como uma criança em loja de brinquedos: olhos arregalados, boca entreaberta, dedos quase tocando o vidro frio, o coração acelerando de um jeito bobo, inocente. "Olha esse vestido… imagina eu vestindo isso, entrando numa sala de aula, ou num jantar chique… mas quem eu tô enganando? Eu nem tenho dinheiro pra uma blusa daqui", pensei, o riso sem graça escapando dos lábios, misturado a um suspiro.

— Você gosta? — perguntou ele, parando ao meu lado, a voz baixa, sem emoção aparente.

— Sim… mas eu não tenho tanto dinheiro pra isso — respondi, rindo sem graça, o rosto queimando, olhando para baixo como se confessasse um crime.

Ele não disse nada. Deu as costas para mim e entrou na loja. Eu fiquei parada um segundo, surpresa, o choque vindo como um soco no estômago. "Que porra é essa agora? Ele vai entrar lá? Comigo?", mas segui atrás, pernas automáticas, coração batendo na garganta.

O homem não falou com a atendente. Apenas sinalizou a roupa da vitrine — o vestido que eu tinha olhado mais tempo — e apontou para mim. Depois, caminhando devagar entre as araras, apontava para peças e dizia apenas:

— Essa… essa também… aquela.