Capítulo 21
A voz seca, imperativa, sem rodeios, como se estivesse escolhendo frutas no mercado. A atendente assentia rápido, olhos baixos, pegando tudo que ele indicava: blusas de seda, calças de alfaiataria, saias lápis, casacos leves que pareciam custar mais caro que o meu aluguel inteiro. Na minha cabeça eu ia olhando os preços — escondidos nas etiquetas minúsculas, mas eu sabia ler o código de luxo: cada peça era uma pequena fortuna. "Meu Deus… só essa peça é mais que o meu semestre inteiro na faculdade. Ele tá comprando tudo isso pra mim? Por quê? Pra me vestir como boneca dele? Pra me humilhar depois, tirando tudo? Se for assim, ele pode me humilhar o quanto quiser!", o pensamento girava, misturado a um calor subindo pelo peito, um misto de gratidão doentia e espanto.
Eu ficava parada ali, mãos suadas, olhando ele selecionar como se fosse dono do mundo. A loja parecia menor com ele dentro, o ar mais pesado, e eu, de jeans e camiseta básica, me sentia pequena, exposta, mas estranhamente… desejada.
Difícil seria carregar as bolsas depois, mas a loja enviou uma pessoa para colocar tudo no carro, confesso que eu queria andar com algumas pelo shopping e que as pessoas olhassem e dissessem: "Ei, olha mulher malvestida, tá com dinheiro hein!".
Ele não deixou eu experimentar nada — disse apenas que depois, se eu não gostasse, Roberto viria devolver. Na hora pensei: "Esse cara nunca precisou trocar uma roupa em uma Renner da vida, mal sabe ele que devolver não é a coisa mais fácil do mundo. Que atendente vai aceitar um monte de sacolas de volta sem franzir a testa?". Mas eu fiquei quieta.
Entramos na praça de alimentação e, para minha surpresa, ele foi direto para a fila de uma rede de fast food comum — hambúrgueres baratos, batata frita gordurosa, cheiro de óleo quente e ketchup doce no ar. Ele olhava o painel de cardápio com a mesma cara de dúvida que todo mundo faz: sobrancelha franzida, dedo no queixo, indeciso entre o clássico e o especial do dia. Parecia até uma pessoa normal ali, entretido, quase… humano. Estranho era a cara de felicidade que ele fazia, como se não tivesse dinheiro para comer ali quando quisesse. "Meu Deus… ele tá curtindo isso de verdade? Ou é só mais um teatro pra me confundir?", o pensamento veio como um frio na barriga, misturado a um riso interno que eu engoli.
— E você, Luana, vai escolher qual?
Ele perguntou sem olhar para mim, mas dessa vez não por arrogância — por estar entretido na própria escolha, como se aquilo fosse o momento mais importante do dia. O pedido chegou rápido, bandejas de papelão, copos de refrigerante gelado suando. Sentamos numa mesa no meio da multidão barulhenta. Eu morria de medo de falar alguma coisa. Cada gole que eu dava no refrigerante parecia alto demais, cada mordida no hambúrguer ecoava na minha cabeça. Ele tentava puxar assunto — tempo, o shopping, uma piada boba sobre a fila —, mas o medo de estragar tudo me travava. Afinal, aquilo era definitivamente esquisito.
Até que ele olhou em volta, se inclinou para frente sobre a mesa, os cotovelos apoiados, e com um sorriso soltou:
— Eu sei que você tá com medo de eu sacar um chicotinho escondido, mas vamos lá. Eu deixo você fazer uma pergunta.
Na hora meu instinto falou alto, antes que eu pudesse pensar:
— Uma? Mas eu tenho muitas… preciso pelo menos umas cinco pra começar!
Na verdade eu tinha tantas perguntas que elas se embolavam na garganta — quem era ele de verdade, por que eu, o que aconteceria quando ele enjoasse, o que significava "total obediência" no final das contas —, mas eu não sabia formular nenhuma que fosse mais importante que as outras. Elas eram um nó confuso, um emaranhado de curiosidade, medo e algo que eu não queria nomear.
— Uma. Se for interessante, eu deixo você fazer outras.
Ele não foi grosseiro na resposta, mas o jeito que se ajeitou na cadeira, o corpo inclinado um pouco mais para frente, o olhar fixo no meu, não deixava um centímetro para negociações. Ele era bom nisso — bom em dar migalhas que pareciam banquetes.
— Quantas mais existem além de mim?
Ele riu. Um riso baixo, genuíno, que fez os olhos dele brilharem por um segundo. Pareceu organizar os pensamentos antes de responder:
— Vocês mulheres… tanta coisa pra saber, e o que vocês querem saber é se estão sendo traídas?
— Me responde! — falei brava, quase me esquecendo quem ele era, a voz saindo mais alta do que eu queria.
— Só você!
Eu ri da resposta. Sabia que era mentira e não imaginei nem por um segundo que ele fosse falar a verdade. "Meu Deus… ele acha que eu acredito nisso? Ou será que é verdade e eu sou a única idiota que ele escolheu pra corromper devagar?", o pensamento veio misturado a um alívio absurdo e uma pontada de ciúme que eu não queria sentir.
— Vocês sempre dizem isso! — a gente riu da piada, umas mordidas a mais no hambúrguer, um gole do refrigerante que já estava morno.
— Sabe o que me passou pela cabeça? — perguntei, a voz mais baixa agora, quase sussurrada.
Ele me olhou, me analisando, e um micro gesto com a cabeça foi sinal para eu continuar.
— Eu tenho tantas dúvidas… mas na verdade eu não sei se eu quero saber.
O silêncio caiu entre nós, pesado, só quebrado pelo barulho distante da praça de alimentação. Meu coração batia forte no peito, as mãos frias ao redor do copo, e eu sentia o nó na garganta apertar mais. "E se eu soubesse tudo? E se ele respondesse de verdade? Será que eu aguentaria? Ou será que o não saber é o que me mantém aqui, presa nessa corda bamba entre medo e desejo?", o pensamento rodava, lento, doloroso, enquanto eu esperava que ele dissesse algo — qualquer coisa — que me desse uma direção. Mas ele só continuou me olhando, o sorriso sutil nos lábios, como se soubesse exatamente o quanto aquilo me corroía por dentro.
— Você só está confusa. É simples.
— Então eu vou fazer outra pergunta!
— Eu não disse que você poderia fazer outra!
— Mas eu vou fazer mesmo assim. Responde se quiser — cruzei os braços, birrenta, o queixo erguido num desafio que eu mesma não acreditava estar fazendo. Soltei: — Isso tudo é tipo um concurso?
— Concurso? — perguntou ele, a sobrancelha arqueada em genuína dúvida, como se eu tivesse falado em outro idioma.
— É tipo… quem aguenta mais chicotada, quem fica mais tempo naquela posição de joelhos, quem obedece melhor… o prêmio, qual o prêmio?
Ele deu um riso quase descontrolado, daqueles que começam baixos e explodem. Levou o guardanapo à boca rápido para não cuspir o refrigerante, tossiu, os ombros tremendo, precisou de um tempo inteiro para se recompor. O rosto dele ficou vermelho, os olhos brilhando de diversão pura, e eu me senti ao mesmo tempo idiota e estranhamente vitoriosa por ter arrancado aquilo dele.
— Essa foi a pergunta mais idiota que me fizeram na vida, Luana! — disse ele, ainda rindo baixo, se ajeitando na cadeira que rangeu sob o peso. Olhou em volta, como se tivesse medo de alguém ouvir, mas o barulho da praça de alimentação engolia tudo. — Eu achei que você iria perguntar o motivo de eu fazer essas coisas, ou um por quê logo você?
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