Capítulo 22

Eu não precisei pensar. A coisa começava a fluir, as palavras saindo antes que eu pudesse travar.

— Claro que eu tenho dúvida… mas eu acho que eu preciso de tempo para descobrir, processar, sabe? Mesmo se você me contar tudo agora, eu não vou entender mesmo. Vai ficar girando na minha cabeça como uma porra de enigma que eu não sei resolver.

O clima mudou num piscar de olhos. Era meio que uma discussão de relacionamento — daquelas que casais normais têm em mesas de jantar, sobre sentimentos, sobre futuro —, e eu senti que ele ficou levemente empertigado com aquilo. Os ombros tensos, o sorriso sumindo devagar, o olhar fixo no meu como se estivesse pesando cada palavra. "Meu Deus… eu tô falando com ele como se fosse um namorado? Como se isso fosse normal? Como se eu não fosse a puta que ele comprou pra obedecer?", o pensamento veio como um frio na espinha, mas eu não recuei. O peito apertado, a respiração curta, o refrigerante morno na mão suada.

Ele ficou em silêncio por um segundo que pareceu eterno, só me olhando. Depois, com a voz mais baixa, quase suave:

— Cineminha?

A pergunta caiu como um balde de água fria. Simples, casual, como se a gente fosse um casal qualquer decidindo o que fazer no sábado à noite. Meu estômago deu um nó. "Cineminha? Ele quer me levar pro cinema? Depois de tudo isso? Depois de me fazer obedecer nua, de me comprar roupas que eu nunca poderia pagar, de me deixar confusa pra caralho? Ou é só mais um jeito de me controlar, de me manter perto até eu quebrar de vez?", o coração batia forte no peito, as mãos tremendo ao redor do copo vazio. O pensamento sempre voltava nisso, como uma paranóia.

Eu ri — um riso nervoso, curto, que saiu rouco.

— Cineminha… sério?

Ele assentiu, o sorriso voltando devagar, mas agora com algo mais escuro por trás.

— Sim. Cineminha. E você escolhe o filme.

Eu engoli em seco. O barulho ao redor — crianças gritando, fritadeiras chiando, conversas altas — parecia distante, como se o mundo tivesse encolhido para aquela mesa entre nós dois.

— Tá bom… cineminha então — murmurei, a voz saindo mais baixa do que eu queria.

Ele se levantou e estendeu a mão livre para mim — não como ordem, mas como convite. Eu hesitei um segundo, depois coloquei a mão na dele. A pele dele era quente, firme, e o toque mandou um arrepio que subiu pela minha espinha inteira.

"Que porra eu tô fazendo? Que porra é essa que eu tô sentindo?"

Chegamos no cinema lotado — era sábado à noite, o shopping fervendo, filas serpenteando pelas bilheterias. Ele foi direto para o guichê VIP, mas até lá tinha gente. Ele parou na fila comum, sem reclamar, sem chamar ninguém. Ficou ali, paciente, olhando o painel de horários como qualquer um. "O dono do shopping inteiro na fila de cinema? Ele que podia fechar o lugar inteiro se quisesse? Que diabos tá acontecendo aqui?", pensei, mordendo o lábio para não rir.

— Tem ingresso pro filme das 21h? — perguntou ele ao atendente.

— Só dublado, senhor. O legendado lotou.

Ele olhou para mim, um meio sorriso.

— Dublado tá bom?

Eu assenti, sem graça. O filme era ruim — daqueles que ninguém vê por escolha, mas era o único com horário disponível. Entramos na sala escura, os assentos quase vazios na fileira do fundo. Ele escolheu o canto, me deixando do lado da parede. O ar-condicionado estava gelado, o tipo que congela a pele em minutos. Sentei, cruzei os braços sobre o peito, tentando me aquecer.

O filme começou — diálogos lentos, cenas pretensiosas, legendas brancas que mal dava pra ler na penumbra. Mas eu mal prestava atenção. Ele estava ali, ao meu lado, o braço apoiado no encosto, o corpo relaxado como se fosse um encontro qualquer. De vez em quando eu virava o rosto e o pegava me olhando — não com desejo cru, não com ordem, mas com uma atenção quieta, quase… carinhosa. Os olhos dele encontravam os meus no escuro, e eu sentia um calor subir pelo pescoço, o coração batendo descompassado. "Meu Deus… ele tá me olhando como se eu fosse alguém importante. Como se isso fosse real", o pensamento veio misturado a um arrepio que não era só do frio.

O ar gelado apertou mais. Sem pensar, me inclinei devagar, encostando o ombro no dele, a cabeça quase no braço dele. Ele não se mexeu, não recuou. Pelo contrário: ajustou o corpo um pouco, me dando espaço para me acomodar melhor. Fiquei ali, encostada nele como namorados de filme ruim, o calor do corpo dele se espalhando pela minha pele arrepiada. O perfume amadeirado dele me envolvia, misturado ao cheiro limpo da camisa polo, e eu fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. "Isso não tá acontecendo… eu tô encostada nele como se fosse minha namorada. Como se ele não tivesse me feito ficar de joelhos nua, me deixado deitada mijada, obedecendo comandos secos. Como se eu não fosse a puta dele", o contraste queimava dentro de mim, mas o corpo não queria se afastar. Pelo contrário: queria mais.

O filme seguia, mas eu mal via a tela. Só sentia ele — a respiração ritmada, o braço firme ao meu lado, o calor que emanava dele como uma promessa silenciosa. De repente, veio o pensamento traiçoeiro, daqueles que surgem sem aviso e não vão embora: "E se ele quisesse me beijar agora? Aqui, no escuro, com o filme ruim rolando? Eu deixaria. Eu daria a boca inteira pra ele, a língua, o corpo todo. Eu daria a noite inteira pra esse homem, caralho. Eu me entregaria de novo, nua, de joelhos, ou deitada nessa poltrona mesmo, se ele pedisse". O pensamento veio quente, úmido, fazendo minha buceta pulsar de leve, um latejar sutil que eu tentei ignorar apertando as coxas. O rosto queimou, o coração disparou, e eu virei o rosto devagar, olhando para ele de lado.

Ele estava olhando para a tela, mas eu sabia que sentia meu olhar. Os lábios dele se curvaram num sorriso mínimo, quase imperceptível. Não disse nada. Não precisava. O braço dele deslizou devagar, caindo sobre meus ombros, me puxando um pouco mais perto. Não era ordem, não era posse — era só… abraço. Eu me aninhei, a cabeça no ombro dele, o frio esquecido, o filme virando ruído de fundo.

"Que porra eu tô fazendo? Que porra eu tô sentindo?", o pensamento rodava, lento, doloroso, mas eu não me mexi. Fiquei ali, encostada nele, torcendo em silêncio para que ele virasse o rosto, para que os lábios dele encontrassem os meus, para que aquela noite estranha e confusa virasse algo que eu pudesse entender — ou pelo menos algo que eu pudesse sentir sem culpa. Mas ele não se mexeu. Só continuou assistindo o filme ruim, o braço firme ao meu redor, e eu, pela primeira vez, não soube se queria que aquilo acabasse ou que durasse para sempre.