Capítulo 23
O filme acabou, era uma droga como prometia — diálogos vazios, final previsível, aquelas cenas que fazem você questionar por que pagou ingresso. Mas ele parecia animado, ria baixo de alguma piada interna sobre o roteiro, falava de cinema em geral com uma empolgação que eu nunca tinha visto nele: diretores antigos, cenas cult, coisas que eu mal acompanhava. Eu olhava para ele curiosa, sem entender o que ele era. Quanto mais ele se revelava humano — rindo, gesticulando, comentando como se fosse um cara comum —, menos eu sabia quem ele era de verdade. "Meu Deus, Luana… esse homem que te manda ficar nua, olhos baixos, obedecendo comandos secos, agora tá aqui discutindo cinema como se fosse um date normal. Quem é você, caralho? E quem sou eu pra ficar gostando disso?", o pensamento veio como uma fisgada no peito, misturado a um calor que subia devagar.
— Vamos embora? — disse ele, se levantando e estendendo a mão.
Eu peguei, como se fosse natural. Saímos do cinema de mãos dadas, atravessando o corredor escuro e depois a multidão do shopping como se fôssemos namorados de verdade. Meu coração batia rápido, acelerado, como se eu estivesse ansiosa com algo que nem sabia nomear. "Não pode ser possível, Luana… tu tá começando a se apaixonar por ele? Pelo homem que te comprou? Que te faz obedecer como uma puta?", o pensamento vinha martelando, mas eu não soltei a mão dele. Pelo contrário: apertei um pouco mais, sentindo o calor da palma dele contra a minha, fria de nervoso.
Ele dava sinais claros que estava feliz ali comigo — o jeito que olhava de lado, o sorriso sutil que aparecia quando eu respondia algo bobo, o braço que roçava no meu de propósito. E eu que sou idiota…
— Pode ser, você quer esticar para algum lugar? — perguntei, tentando soar casual, mas a voz saiu tremida.
Na minha cabeça idiota, era um barzinho qualquer, ou ele me chamar pra casa dele, trocar uns beijinhos lentos, um sexo mais gostoso, daqueles que não envolvem ordens secas, só desejo puro. Mas eu tinha o mau hábito de esquecer a cada instante sobre tudo o que se tratava aquilo: contrato, obediência, dinheiro, humilhação. Esquecia que eu era dele porque ele pagava, não porque ele quisesse de verdade.
Ele parou de repente em frente a um espelho do corredor, ajeitou a camisa que tinha amassado um pouco no cinema, passou a mão no cabelo como quem se arruma pra algo importante. Depois me olhou — me olhou de verdade, como se não tivesse me visto antes naquela noite.
— Eu não disse, mas eu gostei de ver você vestida assim.
— É que normalmente você me vê bem menos vestida — respondi, tentando brincar, mas a voz saiu baixa, quase envergonhada.
Ele riu, um riso curto, rouco, e se aproximou um passo, sussurrando perto do meu ouvido:
— É o jeito que eu mais gosto, pra falar a verdade.
Que diabos. Tudo que ele dizia sempre tinha aquela sensação no final — aquela pausa, aquele olhar que descia pros meus lábios, o ar que ficava mais pesado, o corpo dele perto demais. Eu sentia que ele ia me beijar. Ali mesmo, no corredor iluminado do shopping, com gente passando ao nosso lado. Eu já imaginava o gosto da boca dele, a barba malfeita roçando meu queixo, as mãos firmes na minha cintura me puxando contra o peito. "Meu Deus… eu ia deixar. Eu ia abrir a boca pra ele, deixar a língua dele entrar, deixar ele me beijar como se eu fosse dele de verdade, não só de contrato. Eu ia deixar ele me levar pra qualquer lugar agora, cacete", o pensamento veio quente, molhado, fazendo minha buceta pulsar de leve, as coxas se apertando instintivamente.
Mas nada. Ele não se mexeu. Só me olhou mais um segundo, o sorriso sutil voltando, e começou a andar de novo, puxando minha mão com gentileza. Eu fui atrás, o coração martelando, a frustração misturada a um desejo que queimava baixo, insistente.
"Por que ele não me beija? Por que ele me deixa assim, no limite, querendo mais? Ele sabe o que faz comigo? Ou é só mais um jogo, mais uma forma de me corromper devagar?", o pensamento rodava, lento, doloroso, enquanto a gente descia as escadas rolantes, mãos ainda dadas, o shopping fervendo ao nosso redor como se nada tivesse acontecido. Mas dentro de mim, tudo tinha mudado um pouco mais. E eu odiava o quanto eu queria que mudasse ainda mais.
Mas ele fez um que patrão faz, mostrar seus funcionários qual é o lugar deles.
— Bom... — ele fez uma pausa olhando em volta, pensando com calma antes de dizer, quando os olhos dele me atingiram, não sei o que mais doeu, o olhar ou as palavras.
— Luana, bom que que você queira trabalhar um pouco hoje, eu não posso exigir isso de você, deve estar cansada.
Trabalhar...
Eu mastiguei aquela palavra na minha cabeça. Meus olhos se perderam do dele e foram ao chão, submissos, meu corpo agiu como se alguém tivesse apertado um gatilho em mim. Eu não queria trabalhar, mas estranhamente eu queria estar perto dele.
— Eu queria.
O olhar que ele me deu foi de pura satisfação. Não foi carinho ou afeto simples, foi de posse.
O caminho de volta todo eu fui quieta, o silêncio pesando como chumbo dentro do carro. Ele não falou mais nada além do básico — um “boa noite” seco quando paramos no sinal, um “cuidado” quando eu quase tropecei na calçada. Aquele clima agradável, quase romântico, evaporou como fumaça. O ar dentro do Mercedes ficou frio, denso, carregado de algo que eu não conseguia nomear, mas que me fazia apertar as coxas uma contra a outra pra conter o tremor. "Meu Deus, Luana… e se ele decidir me punir por ter sido 'namoradinha' demais no cinema? E se o filme foi só pra me deixar mole antes de me quebrar de vez?", o pensamento veio como uma facada, o estômago se contraindo de medo puro.
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