Capítulo 24
Quando descemos do carro, a mansão estava escura, sem luzes acesas nas janelas, sem empregados circulando como de costume. Parecia uma tumba. Ele se virou para mim na entrada, o rosto iluminado só pela luz fraca do poste da garagem, os olhos indecifráveis.
— Me aguarde pronta. Eu não vou demorar.
A ordem saiu seca, sem emoção, como sempre. Eu caminhei até o quarto amplo do segundo andar, o coração martelando tão forte que eu sentia na garganta. O corredor ecoava meus passos, o ar frio batendo na pele fria de nervosa. Entrei no quarto escuro, os quadros das "antigas" me encarando das paredes como fantasmas silenciosos — todas parecidas demais comigo, todas com o mesmo olhar vazio e obediente. Tirei a roupa de má vontade, reclamando baixinho, os dedos tremendo nas alças da blusa.
"Eu poderia ter ido pra casa, caralho. Agora vou ser espancada, ou pior. Burra, Luana, burra pra cacete. Que inferno de mulher burra você virou?", o pensamento queimava, misturado a um pavor que subia pela espinha e fazia meus joelhos fraquejarem. Eu ainda estava de calcinha, dobrando as roupas com cuidado obsessivo e pendurando na arara, quando a porta se abriu.
Ele entrou. Falante. Quebrando o protocolo. Meu corpo congelou. Ele não havia me dado tempo suficiente nem pra tirar tudo. Eu estava ali, seminua, vulnerável, o coração na boca.
— Fique tranquila, Luana. Eu sei que me antecipei.
Ele se sentou no pequeno sofá de couro, uma bebida na mão, o líquido âmbar refletindo a luz baixa do abajur. Ficou olhando para o minipalco — o espaço vazio onde eu costumava me despir, me ajoelhar, me expor. O silêncio dele era pior que qualquer comando. Eu sentia o cheiro do meu próprio sexo ainda grudado na pele, misturado ao perfume de baunilha do finalizador, e aquilo me deixava enjoada de vergonha e medo.
Meu Deus, como eu queria falar. Sugerir: podemos fazer algo diferente? A ideia ganhou força devagar, enquanto eu avaliava as circunstâncias. Hoje era algo fora do contrato — não tinha começado de verdade, ele ainda não havia mandado eu começar.
— Senhor? — perguntei com medo de punição, a voz saindo fina, trêmula.
— Oi, Luana. Diga.
— Nós já começamos?
— Não. Começaremos quando você estiver pronta.
— Então eu posso falar uma coisa agora?
— Sim. O que desejar.
Eu parei. "Caralho, mulher, escolhe um chicote e pede pra ele te bater com ele porque você tá curiosa. Ele vai gostar e você não precisa dizer a merda que tá pensando." Mas a coragem — ou a loucura — era demais. Meu corpo inteiro tremia, o frio do quarto arrepiando a pele nua, os mamilos duros de medo e de algo pior.
— O senhor quer fazer algo diferente hoje?
A pergunta saiu perigosa. No instante em que falei, percebi que era burra. Diferente pra ele? O que seria diferente pra um homem que já tinha tudo? Ele me olhou meio por cima do ombro, pensando, parecendo se divertir com algo que eu não entendia.
— O que você tem em mente?
— Eu não sei… normalmente eu só sigo as ordens…
Ele inclinou a cabeça, o copo parado no ar.
— Mas você que pediu algo diferente. Agora eu quem estou curioso. Diga, Luana…
O "diga, Luana" veio com um tom diferente do resto da frase — mais baixo, mais lento, carregado de expectativa. Eu estava nua, sentindo o cheiro do meu sexo, o ar gelado batendo na pele arrepiada, e gelei inteira. Tinha que dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Mas as palavras que saíram foram as piores.
— Eu… pensei… em sexo mesmo. Oral… penetração…
Agora minha dignidade foi embora de vez. Eu pedindo pra um homem me comer. Como se eu fosse uma vadia qualquer implorando. O silêncio que veio depois foi ensurdecedor. Meu coração batia tão forte que eu achava que ele ia ouvir. O medo subiu como bile na garganta — medo de que ele risse, de que ele me punisse por ousar pedir, de que ele aceitasse e me fizesse desejar nunca ter aberto a boca. "Meu Deus… e se ele disser sim? E se ele me pegar agora, sem comando, sem humilhação, só porque eu pedi? Ou e se ele disser não e me fizer pagar caro por ter ousado querer algo 'normal'?", o pavor me deixou imóvel, as pernas tremendo, o ar preso nos pulmões.
Ele tomou um gole lento da bebida, os olhos fixos nos meus — sem piscar.
— Vou levar em consideração. — a voz baixa apontando para o pequeno palco em sua frente, — quando estiver pronta...
E eu não soube se aquilo era convite ou ameaça.
Eu estava cheia do lanche e da pipoca, tive tempo para me envergonhar da minha barriguinha mais estufada, baixei a cabeça, coloquei as mãos para trás e caminhei até a minha posição, a coisa tinha acabado de começar.
Tão logo me posicionei — joelhos firmes no tapete macio, coxas ligeiramente afastadas, mãos pousadas sobre as coxas com os dedos estendidos, coluna ereta até arder entre as escápulas, queixo baixo, olhos fixos num ponto morto do chão —, ele se levantou sem uma palavra. O couro do sofá rangeu de leve quando o peso dele saiu. Ouvi o tilintar sutil do gelo no copo que ainda segurava, o som dos passos lentos contornando meu corpo por trás. Ele passou perto o bastante para que eu sentisse o deslocamento do ar, o calor residual da presença dele roçando minha pele nua como uma ameaça invisível.
Abriu uma gaveta. Depois outra. O metal dos puxadores tilintou, objetos pesados sendo mexidos com calma deliberada. Chicotes, correntes, talvez algo que eu ainda não conhecia. Meu estômago se contraiu, um frio rastejante subindo pelas costas. “Vai começar agora, Luana. Vai doer. Vai marcar. E você vai agradecer, sua vadia burra”, pensei, mordendo o interior da bochecha para não deixar o tremor chegar aos lábios.
Então ele falou.
— Luana… eu devo dizer, odeio confessar esse tipo de coisa, mas eu gostei de estar com você.
A voz saiu baixa, quase pensativa, sem o tom seco de comando. Parecia conversa de gente normal. Meu coração deu um tranco violento, quente, espalhando um formigamento gostoso pelo peito. A pele dos braços se arrepiou inteira. Quis virar o rosto, quis sorrir, quis dizer “eu também, meu Deus, eu também”, mas a sessão já tinha começado — ou pelo menos era o que eu repetia para mim mesma. Fiquei quieta. Engoli o sorriso antes que ele escapasse. Graças a Deus ele estava atrás de mim; se visse minha cara agora, eu estaria perdida.
Entre para comentar
Para participar dos comentários, faça login com a sua conta! É rapidinho!