Capítulo 25
Ele continuou, como se eu tivesse respondido alguma coisa.
— Eu tenho um problema com vocês…
Fez uma pausa curta, o tipo de pausa que obriga o outro a preencher o silêncio. Não preenchi. Mantive os olhos no chão, a respiração curta, o peito subindo e descendo rápido demais.
— …mulheres tendem a ter muitas vontades. E eu preciso de alguém submissa a mim. Que cumpra minhas ordens sem questionar.
Ri por dentro — um riso mudo, amargo, quase histérico. “O sonho de todo macho, né? Esse pelo menos é bilionário e pode pagar pra ter o sonho de consumo: uma cadelinha obediente que abre as pernas e fecha a boca na hora certa. Parabéns, Luana, você virou o produto premium”, pensei, sentindo o rosto queimar de vergonha misturada com um orgulho doentio que eu odiava admitir.
Ele parou de mexer nas gavetas. O silêncio voltou, pesado, só quebrado pelo gelo tilintando de leve no copo. Senti o calor do corpo dele se aproximar de novo, parado exatamente atrás de mim. Não me tocou. Só ficou ali, respirando devagar, como se esperasse que eu falasse primeiro. Que eu quebrasse o protocolo. Que eu caísse na armadilha.
— Eu sei que você cursando direito precisa de um trabalho… — nova pausa, e pelo tom eu soube que ele sorria, aquele sorriso torto, quase gentil, que fazia meu estômago dar cambalhotas — …pelo menos um mais na sua área. Algo mais formal, quero dizer.
Meu coração parou por um segundo inteiro. Um emprego na área formal e pagando o mesmo — ou mais? — sem precisar me despir, sem precisar ajoelhar, sem precisar engolir humilhação junto com saliva. “Meu Deus… um estágio decente, uma mesa, um crachá, currículo limpo… eu poderia parar com isso tudo. Poderia ser só Luana, estudante. Sem cheiro de buceta grudado na pele, sem marcas roxas escondidas com maquiagem barata”, o pensamento veio rápido, luminoso, quase libertador.
Mas logo veio o outro, traiçoeiro, sussurrando no fundo da cabeça: “Você tá amando isso, sua doente. Tá amando o frio na barriga quando ele entra no quarto, tá amando o jeito que seu corpo obedece antes da mente, tá amando ser dele. Quer mesmo voltar pra vida cinza de faculdade e boletos atrasados?”.
Confusão. Uma confusão grossa, pegajosa, que me deixou tonta. Não sabia mais o que queria. Não sabia quem eu era ali, nua, de joelhos, ouvindo um bilionário falar de emprego como se fosse favor.
— Então que tal… você trabalhar comigo. Ser minha assistente de confiança?
A voz dele saiu calma, quase casual. Como se estivesse oferecendo um café. Meu peito explodiu. Eu quis gritar, quis chorar, quis rir na cara dele. “Não fala, Luana. Ele não mandou você falar. Isso é truque. Se você abrir a boca agora, vai sorrir como idiota e ele vai te enfiar a porrada com o que quer que esteja segurando. Vai te fazer engolir o sonho inteiro junto com o chicote”, repeti para mim mesma, os dentes apertados, as unhas cravando nas coxas.
O silêncio se esticou. Ele não se moveu. Eu sentia o calor dele atrás de mim, o cheiro amadeirado do perfume misturado ao uísque que ainda segurava. Meu corpo inteiro tremia — não de frio, mas de uma expectativa que queimava por dentro. Esperando o golpe. Esperando a risada. Esperando que ele dissesse “era brincadeira” e me mandasse de volta pro chão.
Nada veio.
Só o som lento dele tomando mais um gole. O gelo tilintando de novo, um tilintar preguiçoso que ecoava no quarto como se o tempo tivesse parado só para me torturar. Meu coração batia tão forte que eu sentia as pulsações na garganta, na têmpora, nos pulsos. A pele das coxas grudava no tapete, úmida de suor frio, e o ar condicionado sussurrava gelado nas minhas costas nuas, arrepiando cada centímetro exposto.
Então ele falou, a voz baixa, quase carinhosa — um tom que não combinava com o homem que eu conhecia.
— Perdão, Luana. Pode responder. Você gostaria?
O ar escapou dos meus pulmões num sopro curto, trêmulo. Meu corpo inteiro tremeu uma vez, como se tivesse levado um choque. “Responde direito, Luana. Não estraga tudo agora. Madame Lulu martelou isso na sua cabeça mil vezes: obediência primeiro, vontade depois — se sobrar vontade”, pensei, a voz interna saindo rouca até pra mim mesma.
— Sim, se isso agradar ao senhor, eu aceito.
As palavras saíram automáticas, treinadas, doces como mel envenenado. A fórmula exata que Madame Lulu me obrigara a repetir de joelhos, olhos baixos, até a língua doer. Eu não olhei pra ele. Mantive o queixo baixo, os olhos fixos no tapete, mas senti o calor subir pelo meu peito como uma onda lenta, traiçoeira. Aceitar um emprego. Aceitar ser dele de outro jeito. Aceitar que talvez — talvez — aquilo não acabasse nunca.
Atrás de mim veio o som de aplausos. Palmas leves, ritmadas, quase brincalhonas. Ele bateu palmas como quem comemora uma vitória pequena, mas genuína. O tom da voz quando falou era sorridente, realmente feliz — um som que eu nunca tinha ouvido dele antes.
— Que ótimo. Eu fico muito feliz que você tenha aceitado.
A sombra dele se moveu. Chegou mais perto. O calor do corpo dele me envolveu primeiro, antes mesmo do toque: uma aura morna, pesada, que fez minha pele se arrepiar inteira, dos ombros até a base da espinha. Senti os dedos dele nos meus cabelos — os mesmos cabelos que ele havia ordenado que eu soltasse mais cedo, longos, escuros, caindo pelas costas como uma cortina de obediência. Ele os juntou com calma, quase com reverência, e passou tudo para um dos lados, expondo meu pescoço inteiro ao ar frio do quarto.
Então veio.
Algo macio, mas firme, envolveu meu pescoço. Couro grosso, forrado por dentro com algo aveludado que não arranhava, mas apertava o suficiente para lembrar que estava ali. Uma fivela clicou atrás da nuca — um som seco, definitivo, como uma algema se fechando. A coleira. Meu Deus, era uma coleira.
O choque veio como um soco no estômago. Meu corpo inteiro se contraiu por instinto: os ombros subiram, as coxas se apertaram uma contra a outra, o ventre se encolheu como se quisesse se proteger. O couro pressionava levemente a traqueia, não o suficiente para sufocar, mas o suficiente para que eu sentisse cada respiração mais consciente, mais pesada. O veludo interno roçava a pele sensível da garganta, quente agora com o meu próprio sangue correndo acelerado. Senti o peso dela — não era leve, não era bijuteria; era feita para durar, para marcar território. Meu pescoço pareceu mais longo, mais exposto, mais vulnerável. O coração disparou tanto que eu jurei que a coleira pulsava junto, como se tivesse vida própria.
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