Capítulo 26
E o pior: entre as pernas, uma corrente elétrica miúda, traiçoeira, começou a latejar. Molhada de novo. “Não, Luana, não agora. Você tá de coleira, caralho. Como uma cachorra de luxo. Aquela menina que sonhava com terninho e júri popular. E agora? Agora você tá nua, de joelhos, com couro no pescoço e molhada porque ele te marcou como propriedade. Que vadia doente você virou?”, o pensamento veio como bile, amargo, mas não parou o calor que subia, não parou o tremor fino nas coxas, não parou a vontade idiota de arquear o pescoço um pouquinho mais, só para sentir o couro apertar.
Ele não tirou a mão. Os dedos roçaram a borda da coleira, traçando o contorno devagar, como quem admira uma obra de arte.
— Vou confessar algo pessoal — murmurou, a voz tão perto do meu ouvido que senti o hálito quente roçar a a minha orelha. — Você não tem noção como eu gostaria de fazer isso com metade das pessoas que trabalham para mim, colocar uma coleira.
O silêncio caiu de novo, denso, pegajoso, grudando na pele como umidade quente. Ele não moveu a mão. Os dedos ainda roçavam a borda da coleira, traçando o couro devagar, como quem mede o pulso de um animal recém-marcado. Eu não me mexi. Mantive a postura: joelhos firmes, coxas ligeiramente afastadas, mãos sobre as coxas, coluna ereta até o ponto em que os músculos entre as escápulas começavam a queimar. A coleira pesava no meu pescoço como uma sentença — não sabia mais se de prisão ou de posse. Pela primeira vez, o medo não era só medo. Era medo misturado com algo quente, escuro, viscoso, que subia pelo peito e latejava baixo entre as pernas. Algo que eu não queria nomear, porque nomear tornava real.
Então ele se afastou. O calor do corpo dele sumiu de repente, deixando minha pele arrepiada, exposta ao ar frio do quarto. O couro da coleira pareceu apertar mais sem o toque dele, como se reclamasse a ausência.
— Vamos conhecer o seu local de trabalho. Eu vou deixar você falar. Se tiver dúvidas, pode fazer. Fique de pé.
A ordem saiu seca, sem emoção, mas com aquela pausa sutil que sempre me fazia engolir em seco. Levantei devagar. Os joelhos doíam — uma dor surda, latejante, que subia pelas coxas como agulhas finas. Passei a mão rapidamente neles, esfregando para espantar o formigamento, mas o gesto foi instintivo, quase proibido. “Não se cubra, Luana. Nunca se cubra”, a voz de Madame Lulu ecoou na cabeça, e eu tirei a mão como se tivesse queimado. Fiquei parada, nua, de coleira, esperando a próxima palavra.
De repente o ar tremeu. Um sibilo cortante rasgou o silêncio.
Zap.
Uma mordida quente explodiu na nádega direita. O chicote acertou em cheio, uma linha de fogo que se espalhou como tinta derramada, ardendo na pele, subindo pelas costas em ondas quentes e frias ao mesmo tempo. O corpo quis se contrair, quis pular para frente, quis gritar — um grito que subiu pela garganta e morreu nos dentes apertados. Engoli o som. Engoli o ar. Engoli a raiva que veio logo depois, quente como o golpe. “Filho da puta. Ele não avisou. Ele só bateu. E eu aqui, de coleira, aceitando como uma cadela treinada”, pensei, o rosto queimando de humilhação, os olhos ardendo sem que uma lágrima caísse.
Não sabia, mas além da coleira ele tinha voltado com o chicote na mão. Claro que tinha. Ele nunca deixava pontas soltas.
— Luana, você precisa ficar mais atenta. Eu disse “vamos conhecer o seu local de trabalho”.
A voz saiu calma, quase didática, como se explicasse uma regra óbvia para uma criança lenta. Na hora o sangue subiu para a cara. Enfurecida. “Ele não mandou eu andar, caralho. Não disse pra onde. Como eu ia saber? Como eu ia adivinhar? Queria pegar esse chicote e enfiar na cara dele, ver se ele ria ainda”, o pensamento veio violento, cru, mas eu engoli tudo. Engoli a raiva junto com o latejar na bunda, junto com o formigamento que ainda corria pela pele. Respirei fundo, o ar entrando rasgado.
— Perdão, senhor, por ser desatenta. Se quiser me punir, eu aceitarei. E, por favor, senhor, me diga onde eu irei trabalhar.
As palavras saíram baixas, obedientes, mas tremiam no final. A fórmula treinada. A rendição perfeita. Ele riu — um riso curto, satisfeito, que ecoou no quarto como um tapa a mais.
— Você não me desaponta. Você tem uma mente ágil. Me siga.
Ele cortou a porta sem esperar. Passos firmes no corredor de madeira nobre, o chicote balançando frouxo na mão direita como um acessório casual. Eu fui atrás, nua, pés descalços no piso frio, o couro da coleira roçando a pele a cada passo, lembrando que eu não era mais só Luana. Era Luana de coleira. Luana marcada. Luana que corria atrás de um homem com chicote na mão, o coração na boca, o corpo tremendo de vergonha e de um tesão que eu odiava sentir.
“Meu Deus… e se algum funcionário me vir? A empregada que arruma o quarto, o segurança na porta, o motorista… vão me ver assim: pelada, de coleira, bunda vermelha de chicotada, seguindo ele como uma puta de luxo. Que humilhação. Que delícia doentia de humilhação”, pensei, o estômago revirando, o rosto queimando tanto que eu sentia o calor subir até as orelhas. Mas não parei. Não me cobri. Não pedi para vestir nada. Segui. Passos curtos, rápidos, tentando não fazer barulho, tentando não existir.
Não andamos muito. Sabia que lá embaixo ficava o escritório público — aquele de reuniões, vidro fumê, mesa de mogno comprida, onde ele recebia gente importante e fingia ser só um empresário normal. Mas aqui em cima… aqui em cima era outra coisa. Mais privado. O corredor terminou numa porta dupla de madeira escura, entalhada com detalhes discretos que pareciam custar mais que meu apartamento inteiro. Ele parou. Virou a maçaneta sem pressa.
A porta se abriu devagar.
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