Capítulo 6

Desci os degraus de concreto do metrô com o som mecânico das catracas ecoando na minha cabeça, mas nada abafava o que eu tinha acabado de viver. Cada passo era acompanhado por aquela pulsação estranha no dedo, uma vibração que parecia ter encontrado um caminho direto para o meu esqueleto. O anel, antes frouxo e ridículo, agora se apertava contra a minha pele com uma autoridade que eu não sabia explicar. Ele estava menor, mais justo, fundindo-se a mim como se estivesse se alimentando do meu calor.

A aventura no fundo do café se repetia em looping na minha mente. Era tudo inusitado demais. Como aquela mulher, que dias antes me descartou com um deboche, se transformou em alguém tão voraz e submissa em questão de segundos? O meu tesão tinha escalado de zero a cem com uma violência que me assustava e, ao mesmo tempo, me embriagava. Eu não sou um cara agressivo, nunca fui de tratar ninguém com grosseria gratuita, mas ali, entre o cheiro de café e da buceta dela, eu me senti o dono do mundo.

Remontei a conversa na cabeça, cada palavra, cada pensamento. O pedido de desculpas, a urgência dela... tudo parecia ter seguido o roteiro exato do que eu tinha desejado no silêncio da minha mente. "Me chupa", eu tinha pensado como um insulto, e ela obedeceu como se fosse um pedido. No calor do ato, eu a mandei se virar, se empinar, e ela o fez sem questionar, com aquela expressão estranha, oca, como se a alma dela tivesse dado um passo para trás para que o desejo tomasse conta.

Parei por um segundo no meio da plataforma, ignorando o fluxo de pessoas que passava por mim como vultos. Olhei para a pedra amarela. O zumbido subiu pelo meu braço novamente, uma vibração suave que fazia meus ossos tremerem. Eu só podia estar ficando maluco, uma loucura de quem herdou mais do que devia. Achar que uma peça de metal pode comandar a mente de alguém soava como coisa de manicômio, mas o peso no meu dedo dizia exatamente o contrário.

O trem do metrô surgiu do túnel com aquele vento quente e barulhento, e eu me deixei levar pelo fluxo da multidão. Consegui um lugar vago, bem de frente para uma jovem que parecia flutuar em um mundo à parte, hipnotizada pela tela do celular. Ela usava um uniforme de normalista: saia plissada azul, meias brancas impecáveis subindo até quase os joelhos e uma blusa alva que parecia recém-passada. O cabelo, preso em um rabo de cavalo alto, dava a ela um ar de inocência que destoava do caos cinzento do vagão.

Meus olhos pousaram nela, não por um desejo consciente, mas porque minha mente estava em outro lugar, vagando por labirintos que eu mal começava a entender.

"Se tu acha que o anel domina a mente das pessoas, seu idiota, você deve estar maluco ou é o maior trouxa que já caiu em um truque do seu avô", martelava o meu subconsciente. Fazia sentido racionalizar: podia ser uma droga dérmica no metal, uma reação alérgica, ou quem sabe a maldita pedra era radioativa e estava fritando meus neurônios.

Mas o zumbido nos meus ossos não parava. Era uma vibração sutil, quase uma música que só o meu esqueleto conseguia ouvir. "Quer saber? Testa!", a voz na minha cabeça desafiou.

Respirei fundo, sentindo o cheiro de metal e suor das pessoas ao redor. Olhei para a menina, sentindo o peso do meu próprio ridículo. Mentalizei com força, como se estivesse tentando projetar um feixe de luz da minha testa até a dela, lembrando de todos os clichês de filmes paranormais que já tinha assistido:

"Encosta o dedo no nariz."

Nada. Ela continuou com o polegar deslizando freneticamente pela tela, os olhos fixos na luz azul do aparelho.

"Encosta a porra do dedo no nariz!", repeti, dessa vez com uma urgência mental que quase me fez suar.

O resultado foi o mesmo absoluto zero. A garota nem sequer piscou. Senti uma onda de vergonha me lavar. Eu era um palhaço sentado no metrô tentando fazer telepatia com uma estudante. "Cara, a mulher do café só quis te dar. Foi uma coincidência, um surto dela, ou talvez o seu 'charme' de herdeiro", pensei, querendo rir de mim mesmo. "Vai trabalhar e esquece essa porra. Você não é o Professor X, você é só o neto de um bicheiro caloteiro."

Ajeitei o anel, que agora parecia apenas um pedaço de metal pesado e incômodo, e me preparei para descer na próxima estação. A magia, se é que existiu, parecia ter ficado para trás.

A claridade do meio-dia ricocheteou no asfalto e nas fachadas de vidro, me fazendo apertar os olhos até que eles se acostumassem com o brilho agressivo da rua. O fluxo da multidão era como um rio de camisas suadas e pressa, empurrando todo mundo na mesma direção. A poucos passos à frente, o rabo de cavalo da normalista balançava ritmicamente.

De perto, e sob a luz real, a silhueta dela se destacava ainda mais. "Nossa, essa menina é gostosinha...", o pensamento veio cru, agora despido daquela dúvida metafísica de minutos atrás e focado na curva da saia plissada que subia e descia conforme ela apressava o passo.

Ela parou de repente, quase provocando um engavetamento de pedestres. Girou o corpo, segurando o celular com as duas mãos e franzindo a testa para a tela, perdida entre os prédios velhos e os becos que o GPS insistia em ignorar. Aquela região era um labirinto de lojas de eletrônicos baratos e quinquilharias chinesas, onde o cheiro de plástico novo e fritura de rua dominava o ar abafado. Quando nossos olhos se cruzaram, ela viu em mim uma âncora.

— Moço, você sabe onde fica esse endereço? — ela perguntou, esticando o aparelho.

A voz era doce, mas tinha aquela urgência de quem está atrasada. Olhei para o mapa, sentindo o calor do sol na nuca e, inevitavelmente, o peso do anel no dedo. A pedra amarela pareceu captar um reflexo do sol e devolvê-lo com uma pulsação interna. Foi automático. Olhei para o celular na mão dela e a imagem de arquivos ocultos e fotos proibidas brilhou na minha mente.

"Caralho, esse telefone deve ter um monte de nude dela. Você bem que podia me mandar uns se tiver, hein, meu amor?", projetei o pensamento, quase sentindo o gosto das palavras, enquanto mantinha o rosto de quem apenas prestava um favor.

— Olha, eu acho que o que você tá procurando fica naquela direção — apontei para um corredor estreito entre duas lojas de capas de celular. — Só me seguir, eu passo por ali.

Ela sorriu, aliviada, e começou a caminhar logo atrás de mim. O som dos sapatos dela no calçamento irregular era a única coisa que eu ouvia acima do barulho do trânsito. Eu já estava pronto para dar o assunto por encerrado e seguir para o meu escritório, quando ela soltou a frase que fez meu estômago dar um nó:

— Moço... eu não tenho seu telefone.

O mundo ao redor pareceu entrar em câmera lenta. O grito do vendedor de fones de ouvido, o ronco do ônibus, o calor do asfalto... tudo ficou em segundo plano. Aquilo não era coincidência. Não depois do "teste" fracassado no metrô. O anel não queria que ela tocasse no nariz; ele queria o que eu realmente desejava.

Parei, sentindo o zumbido nos ossos do braço se transformar em uma vibração de triunfo. Virei-me lentamente e ditei meu número, pausadamente, vendo os dedos dela digitarem cada dígito com uma obediência silenciosa. Ela nem sequer me deu tchau; apenas guardou o aparelho, deu as costas e sumiu entre os pedestres.

Caminhei mais dois quarteirões em transe. Quando pus o pé no hall do meu prédio, o celular no meu bolso vibrou.

Um alerta de mensagem.