Capítulo 6

Eu estava livre.

Fui pro banho e demorei. Lavei o cabelo, deixei a água cair bastante, me depilei rápido, passei sabonete cheiroso. Saí, me sequei com calma e fiquei um tempo parada na frente do espelho. Minha pele estava boa, o cabelo certinho, e eu me sentia pronta.

Passei creme, perfume leve, ajeitei o cabelo. Não podia exagerar porque ia dar na cara. Se eu aparecesse muito arrumada, iam comentar na escola, e eu precisava manter a pose de sempre: cabelo preso de qualquer jeito e cara de sono. As unhas estavam ruins, sem tempo de arrumar, mas eu não ia deixar de ir por causa disso. Eu sabia que meu corpo era bonito, eu confiava nisso.

Na gaveta, fiquei olhando as calcinhas. Tudo algodão de bichinho e calcinha de criança, eu não tinha nada de “mulher”, fui na gaveta da minha irmã, ela ia me matar se sentisse a falta de uma, e não, eu não usava as calcinhas dela, mas hoje eu precisava de algo que não fizesse o rapaz se sentir um pedófilo né? O sutiã eu coloquei um que deixava o peito firme, sem enfeite. Vesti um jeans normal, desses que eu usava na escola, e uma blusa comum, nada que chamasse atenção. Na mochila coloquei a blusa do uniforme, pra não levantar suspeita depois. Finalizei com um pouco de base, protetor, blush leve, sombra discreta e um batonzinho básico, é horrível se maquiar com óculos.

O coração acelerava cada vez que eu lembrava: eu ia encontrar ele. Não era mais conversa de zap. Ia ser de verdade. Minha mente doida estava em turbilhão, eu precisava de falar sobre aquilo com alguém, mas não tinha uma alma viva que eu pudesse falar sem que desse com a língua nos dentes para alguém.

Peguei o celular, olhei o endereço que ele tinha mandado pela última mensagem e chamei um Uber. Trinta minutos depois, ainda presa no trânsito, eu já estava agoniada. Olhava pela janela sem ver nada, só pensava no que ia acontecer. Chegava a suar de nervoso.

Em um momento comecei a rir sozinha. A cabeça só sabia inventar besteira: “Gente, eu podia estar dando agora, e tô aqui, presa dentro de um carro, olhando para-choque de caminhão.”

A risada passou rápido, e logo voltou o frio na barriga. O Uber andava a passos de tartaruga, e cada minuto parecia uma eternidade. Eu queria chegar logo, queria ver a cara dele, tava doida para saber o que ia acontecer quando ele abrisse a porta.

Troquei umas mensagens rápidas com ele, avisando que estava chegando e reclamando do trânsito. Jonas respondeu logo, dizendo pra eu pedir ao motorista pra pegar outra rua. O caminho deu uma volta, mas foi mais rápido.

Quando vi, já estava na frente do prédio dele. Desci do carro com as pernas bambas, quase tropeçando na calçada. Na portaria, falei meu nome e o porteiro liberou a subida. O jeito que ele me olhou me deixou desconfortável. Parecia saber exatamente o que eu estava indo fazer ali. Tinha uma cara de safado, como se dissesse sem palavras: “mais uma indo dar pra ele.” Ou talvez fosse só a minha paranoia. Mas o pensamento me cutucou: será que o Jonas levava muitas meninas ali? E de manhã cedo assim, será que era comum? Eu engoli em seco.

Apertei o botão do elevador e fiquei encarando meu reflexo na porta de aço, coração disparado. Me sentia exposta, esquisita. O cheiro do perfume que eu tinha passado parecia gritar no ar. A cada andar que subia, eu só pensava: "é agora."

Quando coloquei o pé no corredor, estava meio escuro, iluminado só pelos raios de sol que entravam pelas janelas altas. De repente, ouvi uma porta se abrir e meu coração quase saiu pela boca. Olhei rápido, sorrindo feito boba, achando que era ele. Mas era só um vizinho qualquer, que recebeu de presente o sorriso de uma menina doida pra dar logo cedo.

Sorri e soltei um “bom dia” nervoso. Ele respondeu e seguiu, enquanto eu procurava o número do apartamento no fundo do corredor.

Quando cheguei, Jonas já estava abrindo a porta. Estava sem camisa, peitoral exposto, músculos bem desenhados. Na hora, meu corpo só pensou em uma coisa: que ele me puxasse pra dentro e começasse a me pegar ali mesmo, sem tempo pra nada.

Mas ele sorriu, como sempre fazia, e me cumprimentou tranquilo. Me convidou pra entrar. O cheiro dele tomou conta do ar: sabonete, xampu, e o hálito fresco de quem tinha acabado de escovar os dentes. Tinha acabado de sair do banho.

— Quer café? — falou ele, se espreguiçando na minha frente.

Eu pisquei, surpresa. Na minha cabeça, eu esperava qualquer coisa: vinho, cerveja, até água. Menos café.

— Eu não tomo café. — respondi.

Ele riu, balançando a cabeça.

— Como assim? Uma pessoa que não toma café?!

Ri sem graça também, sem saber o que dizer. Se ele soubesse a quantidade de coisas que eu nunca tinha feito na vida, ia entender rapidinho.

O apartamento dele era a filial do nada. Alugado com mobília velha: estante cheia de rococó, cortina vinho surrada, televisão de tubo. Nada combinava com ele. Sentei no sofá sem graça, quieta, sem saber o que falar.

Ele sentou do meu lado, ficou me olhando um instante, e de repente soltou como se fosse um soco:

— Eu nem me toquei ontem… mas tu é virgem, né?

Levei as duas mãos pro rosto, morrendo de vergonha.

— Sim… sou… ainda.

Ele sorriu com aquela cara de safado.

— Sua irmã, se descobrir, vai me matar se eu ficar com você.

— Ahn… então você me chamou aqui pra ficar comigo? É isso? — falei testando a paciência dele, mesmo sabendo que a resposta era óbvia.

— Eu nem pensei nisso… — mentiu.

E sem esperar mais nada, me puxou e me beijou.