Capítulo 15

— Amanda, anota aí: quando você for dar, leva sempre uma calcinha extra. Porque, olha, por mais que você tome banho depois, não parar de sair troço de dentro. Eu tô molhada ainda, num ponto que já tá me incomodando. Daqui a pouco isso vai me deixar assada. — falei, rindo nervosa, mas sendo sincera.

Amanda me olhou, séria como sempre, e soltou:

— Quer uma emprestada?

— Que nojo! Não uso calcinha dos outros, não, cara! — respondi rápido.

Ela riu da minha reação, aquele riso curto, quase abafado.

— Vai no banheiro, lava a tua, coloca pra secar e fica sem. Eu te empresto um short. — disse, enquanto revirava uma gaveta, procurando algo. — Eu jurava que tinha umas calcinhas novas aqui, que comprei, lavei e nunca usei.

— Não precisa, me dá o short que já resolve. Onde é o banheiro?

— Ali. — respondeu, apontando com o queixo para uma porta dentro do quarto.

“Lógico”, pensei. Claro que era suíte.

E que suíte. O banheiro dela parecia coisa de hotel cinco estrelas: mármore em tudo, bancadas enormes, e uma banheira tão grande que parecia mais uma piscina particular. O espelho então… imenso, iluminado de todos os lados, daqueles que não perdoa nenhum detalhe.

“Caramba, eu nunca tinha vindo na casa dela… eu sabia que a Amanda era rica, mas desse tipo aqui, não imaginava.”

— Nunca entrei numa banheira, acredita? — falei, impressionada.

— Jura? Eu tenho aí, mas quase não uso. — ela respondeu, encostada no batente da porta, olhando pra mim com atenção.

Eu já estava acostumada com o jeito dela olhar. Sempre quieta, mas o olhar fixo, que às vezes parecia demorar demais na gente. As meninas viviam dizendo que ela era sapatão, e talvez fosse mesmo, não sei. Mas o olhar… era o mesmo tipo que os meninos lançavam quando viam a gente de roupa curta. Só que no caso dela, já era natural. Eu já nem ligava.

Tirei o tênis, depois puxei o jeans, e por fim baixei a calcinha pra ver o estado.

Lastimável.

Parecia um corrimento branco, meio grosso, começando a secar, com um cheiro esquisito, forte, quase de água sanitária. Eu franzi o nariz na hora, levando a peça mais perto e cheirando, torcendo a cara de nojo.

— Ai, que nojento! — reclamei, encolhendo os ombros.

— Cadê, deixa eu ver? — Amanda falou, séria, sem nem se mexer do batente.

— Pra que você quer ver meus fundilhos, garota? — retruquei rindo, mas já cobrindo a peça com a mão.

— Curiosidade, porra. Eu nunca vi porra. Deixa eu ver! — insistiu, com aquele tom seco que parecia mais ordem do que pedido.

Eu achei aquilo meio íntimo demais, mas, pô, eu já estava pelada no banheiro dela, calcinha na mão… acabei mostrando.

Amanda ficou olhando por um tempo, séria, analisando como se fosse um experimento de ciências. Depois levantou os olhos pra mim e falou, seca:

— Garota, você é nojenta. Isso tá fedendo…

— Vai à merda! — retruquei rindo, sem conseguir segurar.

— São os filhos do meu amor! — completei, segurando a calcinha no ar com cara de nojo, mas rindo da própria piada.

Amanda arregalou os olhos por um segundo, depois também riu, daquele jeito curto e abafado dela. O banheiro ecoou nossa risada, e por um instante eu esqueci da vergonha.

Ela abriu o armário e pegou um sabão de coco, meio já usado, mas guardado ali estrategicamente.

— Toma, usa isso. — disse, estendendo na minha direção.

Peguei, ainda rindo. A cumplicidade naquele momento era estranha e gostosa ao mesmo tempo, a Amanda era “amiga” das meninas por convivência, mas acho que ninguem era de chamar ela para fazer as coisas depois das aulas ou fim de semana, na verdade, tipo, era uma colega de todo mundo, mas amiga, não, isso ninguém era dela. O motivo era só preconceito com o jeito dela ser mesmo, mas ela era bem legal até, às vezes.

Peguei um short emprestado, daqueles esportivos leves. Sem calcinha por baixo, eu tinha que sentar direito ou qualquer descuido mostrava tudo. Fiquei meio incomodada no começo, mas logo esqueci.

Almoçamos no quarto mesmo, uns hambúrgueres que a empregada trouxe, e ficamos de conversa fiada. Não que a gente tivesse assunto infinito, mas o papo era a transa — óbvio. Eu aluguei os ouvidos dela, despejei cada detalhe, cada sensação, e Amanda me escutou pacientemente, como sempre. O jeito dela de não falar muito a transformava numa excelente ouvinte.

E ela gostava de detalhes. Pedia pra eu repetir certas partes, queria que eu descrevesse as sensações de novo. Relembrar tudo em voz alta me deixava mole, quase revivendo. Eu gemia por dentro só de lembrar.

No meio da conversa, tinha uma coisa que me coçava. Um segredo que todo mundo da turma carregava na língua, mas nenhuma tinha coragem de perguntar. Eu respirei fundo, tomei coragem, e soltei:

— Amanda, eu queria te fazer uma pergunta…

Ela levantou os olhos na hora, e eu senti o peso do silêncio entre nós.

— Pode perguntar, amiga. — disse, seca.

Amiga. Aquela palavra ecoou na minha cabeça: “amiga… calma aí, fera!”

Eu apertei o short contra a perna e fui.

— Eu reparo o jeito que você olha pra gente. — falei devagar, medindo as palavras. — Eu vejo que você fica olhando… sabe? De maldade.

Ela respirou fundo, desviou os olhos, como se tentasse fugir da armadilha.

— Já sei o que você vai perguntar. — respondeu rápido, tentando se esquivar.

— Então… você gosta de garotas? — mandei, sem enrolar.

Amanda não ficou vermelha, não desviou, não riu nervosa. Nada disso. Apenas soltou, séria, como se fosse a coisa mais simples do mundo:

— Na verdade? Não sei. Eu acho bonito, gosto de ver, mas nunca pensei em estar com uma. Já tive vontade de beijar… até beijei uma guria uma vez, mas foi meio traumatizante.