Capítulo 18
Vocês acham que eu fui pro quarto chorar, né? Pois não. Eu não chorei. Eu não era dessas. Eu fiquei decepcionada com ele, claro, mas não tinha sentimento forte o bastante pra me derrubar. Jonas não era um amor da minha vida, era só o cara que eu quis pra minha primeira vez. Achei que ia ser uma boa ideia — e até foi. Mas, sendo sincera, ele foi meio… fraco. Não deixou saudade.
O dia tinha sido um turbilhão. Entre o Jonas, a Amanda, e a descoberta no jantar, eu estava esgotada. Tomei um banho demorado, esfreguei o corpo todo até sentir a pele quente, como se quisesse apagar os rastros dele. Depois troquei de roupa, pronta pra deitar.
E então caiu a ficha.
— Puta merda… esqueci a calcinha da minha irmã na Amanda. — falei em voz alta, encarando o teto.
Um frio me percorreu. “Minha irmã vai dar falta.Caceta.”
Mas logo relaxei. Tranquilo. Era só garantir que aquela calcinha nunca voltasse pra casa. Qualquer coisa, se ela estranhasse, ia achar que tinha voado do varal, sumido na lavanderia, ou sei lá.
No fundo, eu sabia: a calcinha era o menor dos meus problemas.
Minha irmã voltou tarde da noite. Escutei quando entrou, batendo a porta de leve, passos arrastados. Ela foi direto pra cozinha, e só pelo barulho já dava pra sacar: estava alterada. Aquele jeito mole de quem bebeu, fumou, riu demais e agora revirava os armários atrás de qualquer coisa pra matar a larica.
Hora perfeita pra sondar.
Fui até lá, me encostei na bancada e soltei:
— E aí… onde tu tava?
Ela meteu a mão no pacote de biscoito, já mastigando de boca cheia:
— Tava numa baladinha…
— Mentira. Tava nada… — retruquei, estreitando os olhos.
Ela riu, aquele riso solto demais, com a voz arrastada:
— Tá querendo saber demais, guria.
— Tu tá passando o trator naquele menino, né? Ele é bonitinho, né? — provoquei, só pra ver a reação.
— Tu para de tacar pedra nas minhas pombas, dona Quica! — falou rindo alto, quase engasgando.
— Ei… só tô comentando. Tu tá pegando ele?
Ela riu safada, meio vermelha, mordendo o biscoito como se fosse segurar a resposta, mas já tinha entregado no olhar:
— Mais que isso, um pouco…
Meu coração disparou, mas fingi descaso.
— Sério? Tu deu pra ele?
Catarina me encarou por um segundo, a pupila dilatada, rindo sem freio. E soltou sem pensar:
— Dei, claro! Tu acha o quê? Aquele gostosooooooo!
Quase tropecei no chão. Mas ela não parou, língua solta de tanto álcool e maconha:
— Ó… vou te dizer, ele é bom, mas é fraquinho, tá?
— Como assim fraquinho? — perguntei, fingindo inocência.
— Ah, Quica, não vou te explicar isso não… — ela riu, balançando a cabeça, mordendo mais um biscoito.
— Fala, cacete. Tô curiosa.
Ela me olhou de lado, semicerrando os olhos, e deixou escapar:
— Ah… irmã, borracha fraca. Não dá conta.
Sem pensar, soltei:
— É, concordo.
O silêncio caiu por dois segundos, e eu percebi a merda que tinha falado, era para ser só um pensamento.
— Como assim concorda? — ela me encarou, confusa.
— Esquece… só pensei alto. Eu sou retardada, Cat. Esquece. — me enrolei, tentando cortar o assunto.
— Eu, hein… esquisita. — disse ela, dando de ombros e voltando ao pacote. — Mas foi legal. Ele disse que tava cansado, mas a gente deu uns pegas. Só que não durou naaaaaaada. Primeira sentada, ele piou.
Ela gargalhou, e eu ri junto, mas por dentro o estômago embrulhava. “Comigo foi igualzinho. Todo inesquecível antes, cheio de atitude, mas na hora de meter não segurou dez minutos__.” Como eu queria dizer isso pra ela, rir junto de verdade. Mas se eu contasse, ela ia surtar. Ia contar pra minha mãe que eu dei, e pronto, eu tava morta.
A gente era meio cúmplice, mas se ele já era namorado dela… aí não tinha como. Melhor ficar quieta. Ele que arque com a fama de safado, uma hora a máscara cai.
— Irmã… mas esse menino presta? — perguntei, forçando a voz de desdém.
Ela riu com desprezo, jogando o pacote na mesa.
— Presta nada. Safado demais. Eu até gosto dele, mas não dá pra confiar.
E nesse ponto eu sabia: ela estava certa.
— Se quiser me emprestar, eu aceito, irmã. Você nunca me deu nada… — falei, provocando.
— Piranhazinha! — ela respondeu na hora, rindo, me agarrando pelo pescoço e me dando um beijo estalado na bochecha, fedendo a álcool.
— Quando você der essa tabaquinha aí… — ela cutucou, rindo mais ainda, e começou a me esbofetear de leve bem no meio da boceta, por cima do short.
— Para, porra! — protestei, tentando segurar a mão dela, mas rindo também.
— …a gente conversa. — completou, com aquele olhar malicioso.
Foi aí que eu soltei a bomba, sem pensar:
— E quem falou que eu já não dei?
— Kiiiiiikaaaa!!!!! — ela arregalou os olhos, a risada parou.
“Fudeu. Falei merda. Agora vinha sermão”.
— Você já deu, Quica? — ela se aproximou, o rosto sério agora, e olhou rápido pra porta, vigiando se minha mãe vinha.
— Não, né? Mas tô querendo… — menti, tentando aliviar. — Os garotos são tudo tapado.
Ela suspirou, apontando o dedo na minha cara:
— Tu bota camisinha, hein garota. Não confia em homem, não.
— Tá, eu sei… — respondi automático.
— Sabe porra nenhuma. — retrucou.
— Sei sim. — insisti, cruzando os braços.
— Tu nem tem namorado, garota. Vai dar pra quem? — perguntou, arqueando a sobrancelha.
Eu dei risada, soltei a provocação final:
— Pro seu. Me empresta. Ele é gostoso e você disse que não vale nada. — falei, rindo debochada.
Ela ficou me encarando, meio rindo, meio chocada, sem saber se me xingava ou se ria junto.

