Capítulo 20
— Quer fazer alguma coisa? — perguntei, já me jogando na chance.
— Sei lá… preguiça. — murmurou, bocejando.
Na hora me bateu um desânimo do caralho. “Porra, o imbecil não percebia que eu tava exalando feromônios? Que eu tava ali pronta, querendo pica?”
— Ahnn… tá. — falei sem graça, meio decepcionada.
Ele coçou a cabeça e abriu espaço.
— Entra aí, pô. Vamos lá pro quarto.
— Teu pai não vai achar ruim? — perguntei, tentando medir os riscos.
— Duvido que ele volte cedo. Saiu com mulher. — respondeu sem cerimônia.
— Eita… — soltei, surpresa, mas fingindo naturalidade.
Fui entrando. O corredor tinha aquele cheiro misturado de mofo e perfume barato de ambiente, coisa de apartamento de homem. Quando chegamos no quarto dele, senti um déjà-vu. Eu já tinha ido ali algumas vezes, quando éramos mais novos. A gente era amigo de infância, passava tardes jogando videogame, dividindo lanche, rindo de bobagem.
Mas as coisas mudaram quando os pais dele se separaram. Ele saiu da minha escola, foi morar com a mãe, e a gente perdeu contato. Só mais tarde, depois que o pai voltou a morar no prédio, que começamos a nos falar de novo.
Agora, estar ali de novo, mas com esse fogo queimando por dentro, parecia outra realidade. Eu não estava indo ver meu “amiguinho de infância”. Eu estava entrando no quarto de um cara que, se não fosse imbecil, ia acabar comendo minha buceta naquela noite.
E só de pensar isso, minhas pernas amoleceram.
Blá blá blá, papo sem importância que eu vou cortar porque não é disso que a gente lembra. O que importa mesmo foi quando ele virou pra mim e soltou:
— Pô, Quica… tu tá toda arrumada assim por quê?
— Arrumada, eu? — ri debochada. — Tô com roupa de ficar em casa, só passei um batonzinho. — Fiz um biquinho exagerado, só pra ele notar.
Ele riu, mas o olhar demorou.
— Tá gata, pô… — falou, meio sem jeito.
O coração bateu forte, e eu não perdi tempo:
— Você também é um gato. — respondi, apertando a bochecha dele como quem brinca, mas já deixando a deixa clara.
Por dentro eu gritava: Me beija, idiota! Eu tô de saia! O destino escolheu você!
É… não ia rolar. Eu já tava vendo a cena: eu ia ficar com o cabelo seboso, com cãibra na boca de tanto rir das piadas dele, e com torcicolo de tanto balançar a cabeça fingindo interesse. E ele, burro que só, nunca ia perceber que eu estava dando mole escancarado pra ele.
Foi aí que me bateu uma ideia muito filha da puta.
A gente tava sentados na cama dele, conversando fiado, e eu mudei de posição. Juntei os joelhos devagar, ajeitei a saia de um jeito que meus fundilhos ficassem mais à mostra. Não escancarado, não na cara dele — mas calculado. Se eu desse uma de desavisada, virasse o corpo ou me inclinasse, ele teria um ângulo perfeito.
"Vai que assim ele se anima pelo menos…" pensei, sentindo o coração acelerar só de imaginar o olhar dele descendo sem querer pro que eu estava mostrando. Fingi distração, mexendo no celular, rindo de qualquer bobagem, mas cada músculo meu estava atento, esperando a reação dele.
Ele olhou, mas eu não podia dar a entender que eu vi.
E …
Nada…
Quase duas horas depois de falar sobre um monte de coisa, eu me dei por vencida.
— Eu preciso ir, tou meio com sono…
— Beleza, to cheio de sono também, vou dormir nessa porra…
Eu sai da casa de com um ódio, mas com um ódio que você não pode imaginar.
No corredor, assim que o Bruno fechou a porta atrás de mim, eu vi algo que mudaria a minha vida pra sempre. Amigas, eu juro: Deus sempre dá uma mãozinha pras jovens indefesas que estão no cio. Isso é verdade.
Pensa num cara de uns vinte e cinco anos, bem mais velho que o Jonas, com pinta de garoto de praia. Todo lindinho, cabelo bagunçado de sol, pele bronzeada, sorriso fácil. Daquele tipo que você bate o olho e já sabe: tem namorada padrão, capa de Instagram, provavelmente até carro top.
Então. Era esse daí mesmo que você pensou.
Eu ia pegar as escadas, mas quando o vi ali, encostado no corrimão, até chamei o elevador só pra poder ter a desculpa de olhar mais um pouco pra ele. O peito largo marcado por uma camiseta simples, as mãos grandes segurando o celular, o jeito tranquilo de quem não tem pressa nenhuma.
E pra minha felicidade, ele não só percebeu como veio falar comigo.
— Oi, tudo bem? Você mora aqui? — perguntou, com aquele sorriso leve, educado, mas com os olhos cravados em mim.
Meu coração disparou, e por dentro só pensei:
"Pronto. É agora. O universo me entregou esse homem no corredor."
— Oiiiii! — soltei, com aquele tom de mulher desesperada que até me fez rir por dentro. — Moro sim.
Ele sorriu. Tinha um jeito calmo, educado.
— Então, me mudei pra cá ontem, e queria saber… aqui tem dia do lixo?
E eu, como a idiota aplicada que sou, dei uma aula completa sobre coleta seletiva, dias de coleta, importância da reciclagem. Tudo num tom formal e sério, como se estivesse num seminário da escola. Ele me ouvia com atenção, o que só me deixava mais nervosa.
— Ahn, obrigado. — ele riu. — Tô batendo cabeça com o apartamento ainda. Não achei o registro da pia, e precisava trocar a torneira urgente.
— Quer que eu mostre? — falei sem pensar. — Eu não sei trocar uma torneira, mas se o seu apartamento for igual ao meu, deve ser no mesmo lugar.
— Sério? Você se importa?
— Claro que não. — respondi, sorrindo.
E fomos pro apartamento dele.

