Capítulo 23

Eu tirei meu computador da mochila, abri espaço na mesa, empurrei jarro vazio sem planta pro lado e estiquei o mouse pad como se eu fosse abrir uma sessão de jogatina de 24 horas. Me enfiei embaixo da mesa pra achar uma tomada e fiquei tateando o chão.

Elas começaram a rir, como se ver alguém plugando um PC fosse engraçado. Vai ver que é inveja, né? Porque quem não trouxe computador agora vai ter que conversar.

Eu gosto delas, juro que gosto. Só que… essas duas são más. Joana principalmente, com aquele cabelo escovado e a vozeirão de mulherão. Eu queria ser linda que nem ela, mas sem o veneno. Elas sempre tiraram sarro de mim e só meio que pararam de me zoar porque minha mãe deu um esporro federal nelas e minha irmã quase comeu o rabo das duas.

— Tá fazendo o quê aí embaixo, Quica? — perguntou a Clara, se esticando pra ver minha bunda enquanto eu procurava o plugue.

— Tentando achar a tomada, não tá vendo?

— Mas Quica… tu vai jogar? Vem conversar com a gente, amor — Joana falou com aquela voz dela.

Ela era legalzinha no começo. Foi ela que me ensinou a passar delineador sem borrar quando uso óculos. Ela também usa óculos, mas só aparece de lente agora, ela fica outra pessoa sem eles e fica bem melhor, por que usar óculos é ruim demais às vezes.

— Eu não, vocês só falam de transar, pau e homem… Parece que não tem outro assunto.

As duas riram. Daquele jeito debochado que dá vontade de levantar e enfiar o mouse pad na lata de uma delas.

— E suas amigas não falam disso? — a Clara, a insossa, me cutucou.

— A gente fala, claro. Mas na nossa idade é tudo mentira. Todo mundo “deu”, todo mundo “fez suruba”… conversa fiada. — espetei a tomada, puxei o cabo de volta por baixo da mesa, deixei tudo alinhadinho. — A gente fala é dos meninos.

— Ah, eu tenho tanta saudade dessa época — suspirou a Joana, quase me ganhando de novo.

— Saudade por quê? Bateu a cabeça ou tá doida? Só pode. — “Eu que lute pra por juízo nesse povo.”

— É, amiga, a Quica tem razão — a Clara concordou, mansinha. — As meninas eram bem más comigo naquela época.

— E tu vai e desconta em mim agora, né, Clara?

Não sei nem o que saiu da minha boca, mas as duas fizeram cara de cu. A Clara veio me abraçar, biquinho de choro, e eu odeio que encostem em mim de surpresa.

— Tá, meu amor, me desculpa? — ela sussurrou.

— Não faz diferença.

— Me perdoa, vai. Vamos ser besties?

— Não. Vocês são velhas demais e são amigas da minha irmã. A Catarina é ciumenta, não vai dividir vocês comigo.

— Meu Deus, como a Catarina te aguenta, Quica? Tu é uma metralhadora, hein! — a Joana riu do sofá.

Eu ri, eu sou insuportável e nem minha irmã me aguenta.

Eu vi que não ia rolar um lolzinho porque a internet tava um lixo e fiquei só na lojinha vendo skin, build, comparando número como se eu tivesse estudando física. “Respira, Quica. Mantém as mãos ocupadas e a língua quieta.”

Claro que não consegui.

— A Cat tá lá dentro há quanto tempo? — a Clara quis fiscalizar o tempo de foda alheia.

— Sei lá… quinze minutos. — clique, clique, wishlist cheia.

— Será que ela demora muito? É que…

— Não. O Jonas não aguenta tanto assim. — soltei sem tirar o olho da tela.

As duas caíram na gargalhada. Eu não ri.

“Fudeu. Falei alguma merda.”

— Como tu sabe disso, Quica? A Cat te contou? — a Clara tava com brilho de fofoca.

— Não.

— Meu Deus, até a Quica sabe que ele é fraquinho. Todo mundo sabe disso? — a Joana esticou o pescoço pro corredor, sussurrando.

— Como assim todo mundo sabe? — virei pra elas, curiosa demais pro meu próprio bem. — Vocês deram para ele também?

Silêncio torto. Uma encarou a outra, depois as duas me fitaram com cara fechada.

“Fudeu².”

— Quica, não entendi a associação — a Joana mediu cada palavra. — Tem que dar para ele pra saber disso, ninguém poderia ter contado só?

— Desculpa. — falei baixinho, quase no mudo.

Quando alguém fala meio brava, o melhor é pedir desculpa logo pra pessoa desistir de você. Manual de sobrevivência.

— Eu não entendi nada… — a Joana sussurrou pra Clara, meio rindo, meio mordida.

— Relaxa — deslizei a cadeira, voltei pro monitor e passei a limpar a lista de desejos, uma skin por vez. A ventoinha do PC fazia um barulhinho que sempre me deixava impaciente.

A real é que, de todas as mulheres naquela sala, eu era a única que já tinha dado pro Jonas. Eu não sabia que eles iam namorar ou qualquer coisa assim. O cara é safado, muito gostosinho e ainda me carregava no LoL. Foi bem legal, mas… sei lá, fiquei com a sensação de que acabou no meio. E ele tem um problema sério com a falta de uso dos dedos.

— Ele tem um problema de usar os dedos… — um pedaço do meu pensamento escapou da cabeça, passou pela boca e saiu voando pela sala.

— Como, Quica? — a Joana perguntou, as duas me encarando sem entender.

Eu nem tinha percebido que falei em voz alta como sempre.

— Eu falei alguma coisa? — me estiquei assustada sobre o monitor para ver as duas.

— Falou, sim. Alguma coisa de alguém que tem problema de usar os dedos.

— Desculpa, isso é eu autistando. Eu penso uma coisa e não percebo que tô falando o que era pra ficar só no pensamento, entende?

Uma coisa que eu aprendi: quando tudo mais der errado, tu mostra o crachá de autista. As pessoas automaticamente ficam com pena e param de perturbar você. O ruim é que depois te tratam como café com leite.

Elas voltaram pro assunto delas e, para variar um pouco, era peito. Sutiã pra cá, bojo pra lá, quais modelos combinam com quais roupas… eu fingi que tava focada no PC, mas fiquei ouvindo. Primeiro porque eu gosto de ver peito e elas se apertavam enquanto falavam. Segundo porque tava na hora de eu começar a comprar uns modelos mais adultos pra combinar com outras roupas. Toda vez que eu quero vestir algo diferente eu pego os da Cat e, como os peitos dela são maiores que os meus, eu compenso apertando tudo. E óbvio que nunca tirava os ajustes que eu fazia na hora de devolver… “sou um demônio, eu sei”.

Falando nela, a Cat passou vindo do quarto com cara de quem comeu e não gostou. As meninas olharam pra ela e parecia que começaram a conversar por telepatia. A Cat sentou no sofá e o tema seguiu sendo peito, até que o Jonas saiu todo feliz do quarto, para matar o assunto de peito.

— Quicaaaaa, bora umazinha? — Ele veio todo empolgado como se fosse eu que ia carregar ele.

Eu vi ele vindo sem camisa e travei.

— Jogar ou transar? Do que tu tá falando?

— Quica! — minha irmã berrou do sofá. — Porra!

— Desculpaaaa! — gritei, já me encolhendo toda na cadeira como se tivesse levado choque. — É jogar, é? LoL, né? Claro, óbvio.

As duas, Clara e Joana, desabaram na gargalhada, tipo aquelas risadas escandalosas que ecoam no prédio inteiro. A Cat, coitada, ficou roxa. Veio andando até mim com cara de quem ia me matar e esconder o corpo no armário.

Eu, tentando consertar, virei pro Jonas, que ainda tava ali parado, sorrindo sem graça, e comecei a falar qualquer coisa sobre ping, rotações, barão, sei lá. Só que, né… o short dele tava tipo uma barraca de camping. O volume era óbvio, gritante, impossível de ignorar. E eu, sendo eu, olho fixo naquilo e solto na lata:

— Jonas, seu pinto tá duro ainda.

Silêncio de três segundos. Depois as duas explodiram de novo, dessa vez batendo no sofá de tanto rir. A Cat berrou tão alto que acho que o vizinho de baixo ouviu:

— Quica, PELO AMOR DE DEUS, SE CONTROLA SÓ UM SEGUNDO NA VIDA!

Eu fiquei olhando pra cara de todo mundo sem entender nada. Tipo, sério, eu tinha falado aquilo? Em voz alta? De novo?

— Eu falei alguma coisa errada?

— FALOU, IRMÃ! VOCÊ TEM QUE PRESTAR ATENÇÃO QUANDO FOR ABRIR ESSA BOCA, GAROTA! — a Cat já tava com a mão na testa, respirando fundo.

O Jonas, vermelho que nem tomate, colocou a mão por cima do volume tentando disfarçar, como se isso adiantasse alguma coisa, e deu um risinho nervoso.

A Cat apontou pro corredor a falou igualzinha a minha mãe.

— Jonas, vai colocar uma cueca, pelo amor de Deus! Para de ser exibido, caralho!

Ele abriu a boca pra falar, não saiu nada, deu meia-volta e sumiu pro quarto. Quando ele tava quase virando o corredor, eu, toda solícita, gritei atrás:

— Depois que trocar a cueca, reseta o modem, tá? A internet tá uma merda!

As duas caíram no chão de tanto rir. A Cat só me olhou, derrotada, e murmurou:

— Eu juro que não sei de onde tu saiu, Quica. Juro por Deus.

E eu, sincera, só dei de ombros:

— Ué, é verdade. Tá quase duzentos e oitenta de ping, gente, não dá para jogar.