Capítulo 24

As duas que não tinham levado o computador delas se cansaram de conversar, se despediram e foram embora, finalmente. O Jonas tinha tinha sumido para o quarto, consertou a internet, mas só reapareceu uma hora depois, bem na hora de abrir a porta pras duas e dar tchau. A Cat viu aquilo e bufou baixinho, mas não falou nada na frente delas, eu nem sei o que ele fez de errado dessa vez.

Eu ouvi as duas no corredor dizendo que iam pra casa de um cara e que iam “dar juntas pra ele”. Eu não sei ao certo o que elas iam dar, mas pelo jeito que riam e pelo tom, eu chutei que era sexo.

Fiquei pensando: qual a graça de dividir um cara com outra pessoa? É muito melhor cada uma dar para o seu. Um moço normal só tem um pinto, e homem fica mole rapidinho depois que goza. Eu não achei aquilo um bom negócio, mas a dúvida ficou grudada na minha cabeça.

Quando a Cat fechou a porta, eu disparei:

— Cat, por que as duas vão transar com o mesmo cara?

Ela nem se alterou como sempre faz, puxou a cadeira e sentou do meu lado, bem perto do computador.

— Não sei, Quica. Essas duas aí são malucas.

— Burras, você quer dizer, né?

Ela me olhou, ajeitou meu cabelo que tava caindo no rosto, deu uma risada curta e falou

— Concordo plenamente com você — ela falou rindo, daquele jeito debochado, como se eu tivesse acabado de descobrir a roda.

Eu continuei encarando a tela, fingindo que tava concentrada no streaming, mas minha cabeça já tinha ido embora junto com as duas do corredor.

— Enquanto uma tá transando, a outra faz o quê? — soltei, do nada. — Fica só olhando? Tipo plateia?

Eu ouvi a pausa. Eu não vi a cara da Cat, porque eu realmente não queria tirar o olho do computador, mas senti a hesitação no silêncio.

— Quica… — ela começou, escolhendo as palavras, o que sempre é um péssimo sinal. — Elas são bissexuais. Não tem essa de ficar esperando. Entendeu?

Na mesma hora, meu cérebro deu aquele clique irritante.

“Como eu sou burra, caralho.” Foi exatamente isso que eu pensei. Era óbvio. Era tão óbvio que eu quase fiquei com vergonha de mim mesma. Eu virei pra ela, boquiaberta, como se ela tivesse me revelado um segredo de Estado, e aí um monte de cena começou a pipocar na minha cabeça ao mesmo tempo.

— Você já fez isso, Cat? — mandei, sem filtro nenhum, só curiosidade pura. Eu sabia que ela não ia responder a verdade, mas eu perguntei mesmo assim. Vai que.

Ela fechou o notebook com um estalo, bem na hora que o streamer estava prestes a matar o chefe do jogo. Eu reclamei na hora, óbvio, mas ela ignorou.

— Vamos conversar — ela virou o corpo na minha direção. Isso significava: contato visual. Ou tentativa. Odeio.

— Por que você tá me perguntando essas coisas? É só porque ouviu elas falando no corredor?

Era só por isso mesmo. Eu já tinha visto pornô com três, quatro, cinco pessoas fazendo coisas ao mesmo tempo, mas eu sempre achei que aquilo era coreografia de filme, tipo musical, não vida real. Parecia dar um trabalho logístico absurdo.

— Eu falei alguma coisa errada? — perguntei, porque eu já assumo que fiz merda.

— Não, Quica. — ela suspirou. — É uma pergunta normal. E você é minha irmã.

— Então responde, ué — apertei, porque se é normal e eu sou irmã, não tô vendo o problema na matemática.

Eu fiquei olhando pra ela com aquela cara de “não vou largar do seu pé nem fudendo” e me ajeitei na cadeira, toda pronta pra interrogatório versão irmã mais nova insuportável.

— Vamos fazer um trato — ela começou, toda cheia de banca. — Eu te conto, mas depois eu vou te perguntar uma coisa e você tem que responder. Certo?

Na mesma hora meu cérebro acendeu o alarme de golpe.

— Certo, espera… NÃO! — recuei. — Isso não é justo. Eu não sou burra. Você sempre fala que não fez nada, que não foi nada demais, isso não é resposta interessante que valha eu responder coisas. E eu já te conto tudo mesmo. O que mais você quer saber, afinal?

Fiquei até ofendida. Eu abro o diário inteiro, ela quer fazer escambo.

Ela cruzou os braços com aquela cara de desaforada profissional. Tava sem sutiã, com uma blusa fininha, e dava pra ver cada detalhe do tecido marcando em cima do peito. E aí já fodeu minha concentração, porque textura é meu ponto fraco. Ainda mais quando é peito no meu campo de visão.

— Para de olhar pro meu peito, Quica, isso é esquisito, já te falei sobre isso — ela reclamou na hora, puxando a blusa pra baixo e cruzando ainda mais os braços por cima, se fechando toda.

Eu pisquei, meio sem graça.

— Eu não tô olhando porque eu quero, é que tá na minha frente, porra — pensei ou falei, nunca sei direito.

— Eu vou falar a verdade — ela avisou, séria. — E você me fala depois, tá?

— Depende, Cat — apertei os olhos, desconfiada. — Eu quero saber se o que você vai me perguntar tem o mesmo peso de você ter feito uma suruba.

Ela riu na hora, deu aquela mordidinha no lábio que é a cara dela quando vai falar merda, e ficou com uma expressão tão maliciosa que até eu entendi o subtexto.

— Eu já fiz — soltou, vitoriosa.

Meu coração bateu um milhão de vezes mais rápido.

— Com quem? — disparei, sem nem respirar entre as palavras.

— Você não conhece — ela respondeu rápido demais. Sempre suspeito.

Revirei os olhos.

— Se eu não conheço, não existe. E se não existe, você não fez — eu bati o martelo, toda lógica.

— Juro que eu fiz — ela insistiu, muito convincente pro meu gosto.

Eu estreitei os olhos, modo investigação ativado.

— E foi bom? — perguntei, porque informação técnica é importante.

— É… foi bom na hora — ela fez uma careta de quem lembra e sente ao mesmo tempo, mas depois eu me senti meio esquisita.

— Mas você é esquisita — respondi automático.

Ela já levantou meio de impulso, irritada.

— Tá vendo por que não dá pra conversar com você?

— Não, não, senta aí! — eu segurei o braço dela. — Deixa eu perguntar.

Eu, inocente, achando que tava no controle. Quica do futuro aqui: eu obviamente já tava caindo nas tramóias dela. Era a cara da Cat inventar metade da história só pra arrancar minhas coisas e, no final, virar e falar “tava mentindo” só pra me ver surtando por ter falado demais.

— Foi com mais uma mulher? — insisti.

— Sim. Uma menina e um menino — ela respondeu, calma demais.

Eu soltei antes do filtro entrar em ação:

— Eu já beijei meninas.

Ela arregalou os olhos na hora, quase deu pra ouvir o “plim” da surpresa.

— A senhora está muito moderninha — ela disse, gozando da minha cara com aquele deboche irritante.

Por dentro eu só pensei que tinha falado demais e agora não tinha mais volta.

— Pergunta logo, pelo amor de Deus — falei, sentindo a ansiedade subindo igual febre.

A Cat me conhecia como ninguém. Puxou a cadeira devagar e aproximou até invadir meu espaço, daquele jeito dela que me deixa toda desconcertada.

— Para quem você deu?

Não era sobre quantos, era sobre nomes. Jonas e Glauco. E ela claramente estava pensando no Glauco, que ela não sabia o nome e bem mais velho que eu, o que faria ela perder a cabeça comigo.

E eu, como sempre, falando antes de pensar.

— Jonas… Glauco.

A Cat empalideceu na hora. A boca abriu, os olhos piscavam sem parar, parecia até que ia desmontar. Eu continuei ali, com a maior cara lavada possível, sem notar o desastre que tinha feito.

Na tentativa desesperada de me salvar, sem perceber ao certo que deu errado, mandei a mentira mais idiota do planeta.

— O Bruno. Você conhece ele, dos pais separados.

Ela levou as duas mãos ao rosto e esfregou com força, como quem tenta acordar de um pesadelo. A expressão dela parecia de dor, quase uma cólica emocional.

— Qual a idade desse Glauco, Quica?

Eu respondi toda metida, achando que tava por cima.

— Ah não, você quer saber demais. Agora que você já sabe com quem eu transei, acabou. Chega de perguntas. Vai ter que me contar uma coisa muito mais sinistra pra compensar.

Ela se inclinou pra frente de um jeito tão rápido que eu até travei. Agarrou meu braço com força, os dedos afundando na minha pele, e me sacolejou como se eu fosse um saco de roupa suja.

— Olha aqui, dona Quica. Eu vou te arrebentar inteira. Acabou a brincadeira. Me fala quem é esse Glauco e qual a idade dele. Agora.

Pra não apanhar, soltei a verdade mais rápido que cuspe.

— Vinte e cinco.

— Ele tem vinte e cinco anos de idade — ela repetiu, espantada. Olhou pra cima como quem vai abrir reclamação diretamente com Deus. — Meu Deus, Quica, você não tem juízo. A mamãe vai te matar se souber disso…

— Eu tô aqui, fala comigo — chamei, porque ela parecia ter ido pra outro plano.

Ela puxou o maior ar que podia, como se estivesse roubando o oxigênio da sala inteira.

— E quando foi que você deu pro Jonas?