Capítulo 25

“Quando foi que você deu pro Jonas?”

A frase entrou no meu ouvido e ficou presa lá dentro, girando igual ventilador quebrado: tum-tum-tum, sempre a mesma coisa. Eu tentava entender o sentido, mas parecia que as palavras estavam desmontadas, tipo legenda errada. Acho que eu já tava me balançando, porque a Cat apareceu do nada e me puxou num abraço forte, daquele jeito que aperta mais o mundo pra ver se eu volto pro corpo.
Não dói, tá? O problema não é fora, é dentro; é minha cabeça que dá tilt e começa a fritar, e aí tudo vira uma sensação de “vou explodir em três, dois, um”.

— Eu não vou brigar com você — ela disse, e a voz dela tava tão calma que parecia que dublava ela mesma — Eu só fico chateada quando você mente. Pode falar a verdade, eu sou sua irmã.

Tentei olhar pra cara dela, mas ela não parava quieta. Tava tremendo, flutuando, escorregando, e eu já tava ficando enjoada, com o estômago subindo pra garganta, e pensar era tipo tentar resolver equação enquanto a luz pisca.

— Irmã…

— Oi, meu amor…

— Foi rapidinho… ele é fraquinho…

Eu nem sei o que aconteceu depois, porque quando a crise vem eu perco o resto do cenário. O mundo vira fundo borrado, e só sobra o barulho do meu próprio cérebro tropeçando.

— Tá, eu sei que é, Quica — ela murmurou, e senti quando ela me mudou de lugar, como se eu fosse uma caixa leve. Quando pisquei, o computador tava ali na minha frente, então devia ser o sofá. — Ele te forçou a alguma coisa?

— Não… eu que… sou safada.

Ela riu, aliviada de um jeito que eu só fui entender bem depois.

— Sim, irmã. Isso é de família. Tudo bem ser safada, eu sou muito safada também.

A mão dela veio pro meu cabelo, fazendo aquele carinho ritmado que sempre me puxa de volta devagar, como se ela estivesse diminuindo o volume da tempestade dentro da minha cabeça.

Quica do futuro aqui.

Deixa eu contar a real: a Cat queria me matar. Não de verdade, claro — no máximo dar uma esfregada básica na minha cara no asfalto quente por eu ter sentado no namorado dela. Ela entrou em pânico quando percebeu que eu tinha caído numa crise, porque quando isso acontece eu simplesmente desligo, igual lâmpada queimada. E às vezes, se demora muito pra eu voltar, vira caso de hospital. Então sim, ela ficou branca.

A Cat sempre cuidou de mim, mas, honestamente, ser irmã não transforma ninguém em santa. Se fosse em qualquer outro dia, ela já teria ligado pra nossa mãe aos berros. Só que ali ela tava tentando religar minha cabeça do jeito mais rápido possível, porque se a mamãe aparecesse na casa do Jonas… pronto. Era o fim. Ela estaria ferrada e eu também, mais ela que eu, na verdade por que eu ainda posso mostrar o crachá de doida.

— Eu não sabia que você tava namorando ele — eu disse, finalmente respirando. — Ele me chamou pra jogar LoL.

— Ele te chamou pra jogar LoL e comeu você? — o tom dela subiu meio oitava, do tipo “eu vou te enterrar no quintal”.

— Sim, mas eu mandei o cardápio antes.

A cara de indignação dela travou no meio do caminho e virou risada, igual bug de expressão do The Sims.

O cardápio, no caso, era uma piada interna. Ela tinha contado uma história de um cara que ia pegar ela e ela mandou uns nudes antes pro homem escolher, tipo “olha o menu, querido, escolhe bem o prato do dia”. Eu só… adaptei. Péssimo timing, mas funcionou.

E aí eu desabei a falar. Contei tudo sobre o Jonas, tudo mesmo, com todos os detalhes que meu cérebro armazena sem pedir permissão. Eu lembro de cores, cheiros, horários, micro expressões que eu traduzo na minha mente como sentimentos, e eu derramei tudo aquilo em cima da Cat por, literalmente, uma hora e meia. Sem parar. Sem respirar direito.

E ela ouviu. Sem me interromper uma vez sequer, o que por si só já era estranho vindo da Cat. Quando eu finalmente parei, com a garganta seca, ela só disse:

— Guarda suas coisas, vamos embora, tá?

Eu não entendi direito a mudança de planos, e eu odeio quando as coisas mudam de repente, mas ir pra casa ainda era melhor do que ficar ali, então não reclamei. Ela se levantou e foi pro quarto pegar as coisas dela. Eu só não entendi os gritos que ela soltou com o Jonas; na minha cabeça devia ser ciúmes, porque ela sempre fica puta quando ele larga ela pra ficar jogando.

Meia hora depois ela voltou me puxando pela mão, com a cara vermelha de choro.

— Ihhhh… vocês brigaram?

— Sim, mas não quero falar disso, tá? — quando a Cat entra no modo fechado, conversar com ela é praticamente impossível.

O caminho até em casa foi em silêncio, e aí minha cabeça fez o que sempre faz quando tem silêncio demais: pegou um assunto e começou a roer até o osso. Eu não conseguia pensar em outra coisa além de sexo com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Fiquei lembrando das coisas que vi na internet e nada parecia fazer sentido. Eu imaginava alguém me vendo fazendo careta, ou com a bunda pro alto, e já me dava vergonha antecipada. A ideia de ficar esperando a minha vez então, parada, pelada, sem saber onde pôr a mão, parecia tortura. Em algum momento eu percebi que aquilo tinha virado uma obsessão, porque eu comecei a tentar resolver a situação como se fosse um problema de lógica.

Talvez, se eu escolhesse as pessoas certas, pudesse funcionar. Eu pensei: e se forem quatro? Aí cada um fica com um, ninguém precisa dividir, ninguém briga. Parecia uma solução boa por uns cinco segundos, até eu perceber que, se cada um tem o seu, era mais lógico cada um ir pro próprio quarto e acabar logo com a história. Aí já não era mais ménage, era só um par de casais fazendo a mesma coisa em cômodos separados. Totalmente sem graça.

No carro, eu até tentei falar disso com a Cat, porque eu realmente queria uma resposta objetiva sobre o assunto, mas não dava pra perguntar essas coisas na frente do motorista. Fiquei quieta, olhando a rua pela janela, enquanto minha cabeça continuava rodando simulações de situações que eu nunca vivi como se eu precisasse entender tudo antes de sequer pensar em fazer alguma coisa.

Em casa, minha mãe não ficou muito interessada em saber por que não ficamos lá. A Cat foi pro quarto dela, e eu fiquei meio parada, olhando pra cara da minha mãe, me perguntando se devia falar com ela sobre ménage. Alguma coisa me dizia que era melhor não. Fui pro meu quarto, larguei as coisas, mandei mensagem pro Glauco, procurando alguém pra conversar, mas ele parecia ocupado.

Mais tarde, fui no quarto da Cat. Ela estava separando uma bolsa com as coisas do Jonas.

— Irmã, qual é a graça de fazer com duas pessoas? Eu não entendi isso ainda.

— De novo isso, Quica? Sério?

Ela continuou jogando coisas dentro da bolsa e, quando percebeu que eu não ia desistir, fechou a porta.

— Olha, você já transou, né? — estranho, dessa vez ela pareceu não querer me tratar como a irmãzinha mais nova dela.

— Sim…

— Imagina uma pessoa chupando seu peito e a outra sua pepeca — ela disse como se isso, por si só, explicasse tudo. — Entendeu?

— Mas uma pessoa só pode fazer os dois.

— Ao mesmo tempo, Quica?

— Ao mesmo tempo não, né — tive que concordar com ela.

— Então. As pessoas têm essas maluquices na cabeça. É fetiche. Elas gostam de ter mais gente no jogo. É mais intenso porque tem mais coisa acontecendo ao mesmo tempo. Não sei explicar direito.

Fiquei sentada na cama da Cat enquanto ela terminava de arrumar as coisas. Minha cabeça rodava tentando entender qual era a melhor configuração possível entre homens e mulheres, dois homens e uma mulher ou duas mulheres e um homem? E se fosse tudo homem ou tudo mulher? E as pessoas sem gênero? Nada fechava. Só me dava dor de cabeça. E, pra piorar, a calcinha já estava claramente além do ponto por que pensar nisso meio que me excitava levemente.

— Quica, e esse seu namorado? Me conta dele — ela perguntou, dobrando uma camisa masculina de banda.

— Ele não é meu namorado.

— Você vai me apresentar ele? — a voz veio com um sorriso torto que eu não decodifiquei direito.

Na minha cabeça, decodifiquei assim: perigo.

— Não. Você ia dar em cima. E ia acabar transando com ele.

Cat riu, como se eu tivesse contado uma piada. E eu pensei, sem muito drama, que ele provavelmente acharia ela bem mais interessante do que eu. Nunca fui muito possessiva. Tirando com meu computador. E, sendo honesta, talvez eu nem ligasse tanto se ela transasse com ele uma vez.

— E quem é melhor de cama? Ele ou o Jonas?

Demorei pra responder. Comparação meio injusta. Transei mais com o Glauco do que com o Jonas. Mas, falando de primeira vez… o Glauco me virou do avesso. E ainda me deu pizza.