Capítulo 26
Quando fui ver as outras mensagens… era o Jonas. Querendo jogar.
Eu não queria dar muita trela pra ele. Quer dizer… queria sim. Claro que queria. Mas naquela hora, satisfeita sexualmente falando, só respondi:
“Hoje não posso, tô estudando.”
Mas aí pensei: “Ué… se ele tá me procurando, significa que não tá com a minha irmã...”
Peguei o telefone na hora e liguei pra ela.
— Rapidinho, só um minuto, deixa eu ligar pra minha irmã e saber onde ela tá? — falei pro cara, que só assentiu e foi pegar uma vassoura com um pano, como se nada fosse.
Ela atendeu já meio rindo, meio alterada:
— Oi Quica, o que foi?
— Nada não, só queria saber de tu. Tá aonde?
— Tô com a Joana, amor. A gente tá bebendo na casa da Clara, só nós três. — fez uma pausa, aquela pausa desconfiada de irmã. — Por que você quer saber?
— Não é nada não, é que o seu namoradinho tava me chamando pra jogar LoL. Achei que você tava com ele, só isso.
— Ah, eu te empresto ele pra ser seu duo hoje, tá, amor? — respondeu com ironia.
— Beijo, cheirosaaa! — falei de sacanagem, mas ela desligou na minha cara.
O rapaz, encostado na vassoura, arqueou a sobrancelha.
— Cheirosa? Que forma incomum de chamar alguém.
Eu dei risada, encostei na pia.
— É que quando eu era pequenininha, eu achava ela muito cheirosa. Ela vivia roubando os perfumes da minha mãe e ficava experimentando, sabe? Ficava aquele cheiro forte no quarto, quase enjoativo. Eu devia querer dizer “fedorenta”, mas a única palavra que eu conhecia era “cheirosa”. Aí pegou.
Ele riu, balançando a cabeça.
— Você é uma figura, viu?
E eu, por dentro, pensava: “Se tu soubesse a confusão que eu arrumo sozinha, não dizia isso rindo, não.”
A gente ficou ali, conversando sobre um monte de coisas. Eu falava a mil, como sempre, e ele só ouvia, rindo de vez em quando. Devia estar me achando chata pra cacete, mas era meu jeito: falava pelos cotovelos sem filtro nenhum.
Do nada, ele jogou:
— E você, Quica?
— Eu o que? — respondi, sem entender.
— Tem namorado?
Revirei os olhos.
— Tu acha que se eu tivesse namorado eu estaria aqui? Sério mesmo?
— Não sei… — ele deu de ombros, me olhando com calma, como se tentasse me decifrar. Depois respirou fundo. — Posso te fazer uma pergunta mais íntima?
— Pode ué… — falei sem pensar.
— Você era virgem?
Foi como um soco.
— Caralho, foi tão ruim assim? — soltei na lata, quase ofendida. — O que eu fiz de errado?
— Nada, querida. Não é isso. — Ele ergueu as mãos, tentando se defender. — Eu perguntei porque você é bem mais nova que eu… só isso.
“Eu falo pra ele que eu dei uma vez só?”
Mas minha boca, a desgraçada, não esperou meu cérebro decidir.
— Eu dei semana passada!
Ele parou.
Me olhou como se tivesse lido uma charada complicada. A cara dele era um ponto de interrogação gigante, a sobrancelha arqueada, os olhos meio arregalados, a boca aberta sem palavras.
E eu só pensava: “Pronto, Quica, parabéns. Você acaba de confessar que é uma puta mirim! ”
— Desculpa Quica não entendi, sua primeira vez foi semana passada ou você só transou semana passada?
Minha cara era de nervoso, eu odiava quando eu fazia isso, e fazia direto, parecia que sempre que tinha uma informação sensível a coisa pulava da minha boca, era como se eu pensasse com a língua.
— Eu sou doida, esquece. TDAH, sabe? Tenho até crachá e tudo!
Ele me olhou sério, mas com aquele sorriso de canto, parecia mais interessado na minha condição mental do que no fato de eu ter dado ou não. E ele estava certo.
— Me fala mais… você faz terapia?
— Sim. Eu tenho fuga de ideias, eu acho que tou falando e às vezes tou só pensando, e vice-versa. Acontece muito! Principalmente quando eu fico nervosa. Eu sou ansiosa, não consigo ficar muito parada, mas o remédio dá conta disso.
— Entendi… — ele coçou o queixo. — E o que você queria dizer quando falou que transou semana passada?
Eu era péssima em mentir, mas tentei.
— É… é que eu quis dizer que não era virgem. Pode ficar despreocupado, tá?
Ele riu.
— Mas isso não é um problema, tá?
— Uhum… que susto. Eu pensei que você tinha me achado ruim.
— Não. Eu achei ótimo. Sexo é o casal que faz ser bom… e eu tô doido pra fazer de novo com você.
Ele veio chegando perto, colando em mim, e me beijou. Meu farol acendeu na hora, eu queria, claro que queria. Mas não dava. Minha mãe ia me sumonar de casa se eu atrasasse mais, e ela nem sabia que eu estava ali.
— Olha, eu quero muito… mas minha mãe não sabe que eu tô aqui. E pra ser sincera, se ela souber que você existe, não me deixa por os pés aqui nunca mais.
Ele ficou quieto, me olhando, como se calculasse as probabilidades na cabeça.
— Então tem que ser escondido?
Eu ri, baixinho.
“Sim.”
Achei que tinha falado, mas só pensei.
A conversa terminou num beijo de despedida, longo, quente, e no fim trocamos os números de telefone. Na minha agenda, salvei com um coraçãozinho do lado, como se fosse segredo só meu.
E, a propósito… o nome dele é Glauco.
Voltei pra casa correndo. Entrei, dei boa noite pros meus pais como se nada tivesse acontecido. Minha mãe, claro, farejou o ar. Ela sempre farejava. Me olhou de cima a baixo, demorando um segundo a mais do que devia. Eu senti. Ela sabia. Sempre sabia quando eu tinha feito merda. Inferno de radar materno. Mas, dessa vez, ela preferiu ficar quieta. Só me acompanhou com os olhos até eu sumir no corredor.
