Capítulo 27
No quarto, comecei a fuçar as gavetas. Eu precisava de roupa limpa. Principalmente de calcinha. Urgente. Só a ideia de deitar com aquela molhada já me dava agonia. Fui até o espelho e, aí sim, entendi o que minha mãe tinha visto. Um sorriso idiota, pregado no meu rosto. Eu podia até tentar disfarçar, mas não tinha como. Era sorriso de menina que aprontou. De menina que tinha dado.
“De menina fudequeira!”
No dia seguinte, sábado, eu já tinha trocado umas mensagens com o Glauco dizendo que ia tentar dar um pulo na casa dele. Nem que fosse só passar rápido. Mas eu precisava primeiro de um milagre: convencer minha mãe a me deixar sair. Não podia simplesmente falar que ia passar quatro horas andando no condomínio. Eu não tinha esse hábito, ela ia sacar na hora. E se eu dissesse que ia pro shopping, pronto: minha mãe ia querer ir comigo.
Pensei em ligar pra Amanda, pedir cobertura. Mas, pô, a Amanda era minha “amiga pra coisas erradas” recém-inaugurada… e eu meio que tinha ficado com ela. Seria sacanagem usar a coitada como desculpa pra encontrar outro cara. “Muita vacilação, né véi!”
As meninas do colégio também não eram opção, porque a gente quase nunca saía juntas. Se eu inventasse que ia pra casa de alguma delas e minha mãe resolvesse ligar pra confirmar, eu tava fodida. Pior ainda: nossas mães todas eram amiguinhas de grupo de WhatsApp.
Sobrou uma alternativa: minha irmã. O problema é que ela sempre fazia interrogatório.
Saí do meu quarto e fui até o dela. Estava jogada na cama, ainda dormindo, um fiapo de gente no meio do edredom. Me enfiei debaixo da coberta do lado dela, cutucando.
— Irmã… acorda.
— Caralho, Quica, me deixa dormir — resmungou, enterrando o rosto no travesseiro. — Te odeio. Bom dia.
— Bom diaaaa! — respondi cantarolando, dando um beijo estalado na bochecha dela.
Com raiva no coração, mas amor de irmã, ela me agarrou e me espremia como se quisesse me sufocar.
— Que foi, inferno de garota?
— Ai! Você tá com bafo, garota! Boca de boeiro. Chupou quantos paus ontem?
— Infelizmente só um… um bem grandão e gostoso. — ela riu e ainda mostrou o tamanho com as mãos, exagerando.
Sem pensar, escorregou da minha boca:
— Não é desse tamanho.
— O quê, garota? — ela arregalou os olhos, me encarando.
— O quê o quê? — perguntei. Eu nem tinha percebido que tinha falado alto.
— Eu falei do tamanho do pau e você disse que não é desse tamanho… — ela arqueou a sobrancelha, sacando que tinha coisa ali.
— TDAAAAAAAH!!! — respondi de bate-pronto. — Tenho laudo médico, eu falo as coisas sem querer, esquece, eu sou maluca.
Ela riu, mas não tirou os olhos de mim.
— Sei… sei… fala logo, o que você quer?
Eu me ajeitei na cama, disputando a coberta e puxando até o meu queixo sob protestos. Tava quentinho ali, e por um segundo até pensei em desistir do meu plano e tirar um cochilo. Mas não dava, eu tinha que pedir logo.
— Eu vou sair com um menino aqui do condomínio, mas eu não quero falar com a mãe.
— Quem é esse? — ela perguntou ainda com a voz amassada de sono.
— Você não conhece, ele é novo aqui no prédio.
— E você vai pra onde com ele?
— Vou ficar no condomínio mesmo, é aqui no prédio. Eu não vou passar da portaria.
Ela respirou fundo, limpou as remelas, bocejou, e me olhou com cara de quem já sabia a resposta.
— Erika, Erika… você disse que ele é novo aqui… e já vai dar pra ele?
— Eu não falei que eu vou dar pra ele! Você que tá dizendo… — respondi rápido, com a voz fina de defesa.
— Claro que vai! — ela riu, apertando forte a minha bunda. — Eu não sou idiota, Quica!
— Digamos que talvez haja a possibilidade de eu dar.
— Vai perder a virgindade com ele?
Na hora eu enfiei a cara no travesseiro, abafando a voz pra não ser traída pela minha própria maluquice. Eu não podia, de jeito nenhum, dizer que o primeiro tinha sido o namorado dela.
— Já perdi. — falei rápido, escondendo a cara.
— Sério? Quando isso? — ela já estava mais desperta, arregalando os olhos.
— Ontem. — saiu abafado, quase um sussurro.
— Quica! — ela se levantou meio de lado na cama, incrédula. — Tu usou camisinha?
— Uhum… — respondi sem levantar a cabeça.
Ela riu, surpresa, sem acreditar.
— Você é muito piranha, garota!
— Para… — resmunguei, ainda afundada no travesseiro.
— Quantos anos ele tem?
Aí fudeu. Se eu falasse que tinha a idade dela, ou mais, ela ia me matar.
— Não sei… para de fazer pergunta.
— Quando você conheceu ele?
— Ontem? — tentei responder, mas saiu estranho, como se fosse pergunta e afirmação ao mesmo tempo.
Ela arregalou os olhos, incrédula.
— Espera… você conheceu o garoto e deu pra ele assim… do nada?
— Mais ou menos… a coisa esquentou e foi.
Minha irmã me olhava com a boca aberta, sem acreditar. O rosto dela misturava choque, surpresa e uma ponta de preocupação.
— Quica, não pode ser assim, amor… — balançou a cabeça, colocando a mão na testa. — Eu… eu não tenho palavras.
— Vai me ajudar ou não? — perguntei, já meio impaciente.
Ela parou. Pensou. O semblante mudou um pouco.
— Erika… você tem que conversar com a mamãe sobre isso, tá bem? Você tem que ir na ginecologista e fazer as coisas direitinhas. Ouviu bem?
— Eu vou falar, juro. Mas me ajuda, por favor. — falei séria… mas aí o riso explodiu na minha cara. — Eu quero dar gostosinho hoje!
Antes que ela respondesse, virei de quatro na cama e comecei a rebolar, dramatizando como se tivesse uma pica enfiada no meu rabo. Fazia caras e bocas, gemendo exagerado, quase teatral.

