Capítulo 28

— Ahhh, meu Deus, como eu preciso! — falei fingindo desespero, rebolando sem parar.

Minha irmã arregalou os olhos, depois caiu na gargalhada, batendo travesseiro em mim.

— Você não presta, garota! — gritava, rindo e tentando me acertar. — Ô MÃÃEEE OLHA A PIRANHA DA Quica AQUI ME PERTUBANDO!

E eu, de propósito, rebolava mais ainda, só pra provocar. E não demorou depois do que a Catarina berrou para a minha mãe aparecer para brigar com a gente, ela abriu a porta do quarto meio rindo e meio séria.

— Olha como você fala da sua irmã Catarina! — minha mãe me olhou de quatro empinada na cama — O que é isso Erika?

— Eu tô mostrando pra Cat como se transa, mãe! — soltei de sacanagem, rindo.

Minha mãe respirou fundo, fechou os olhos um segundo, tentando não rir.

— Sim… certamente a senhora é a melhor pessoa pra ensinar isso a ela.

Catarina, sempre ágil nas ideias, aproveitou a deixa, se sentou na cama e largou:

— Mãe, vou sair de tarde, vou pro Jonas, e vou levar a Quica. Eu tenho que estudar e ela vai ficar jogando DoTA com o Jonas.

— É LoL, sua burra! — corrigi na hora.

— Tudo jogo de retardado… — ela retrucou sem nem pensar.

— Catarinaaa! — a voz da minha mãe veio seca, cortando o ar. — Você sabe que eu não gosto dessa brincadeira aqui em casa.

Minha mãe ficava possessa quando alguém me chamava de demente, retardada, mongoloide… sério, virava um bicho. Podia ser brincadeira, apelido, qualquer coisa. Ela não deixava passar.

E eu, de dentro da coberta, falei:

Eu já falei, né? Eu tenho TDAH, e tô no espectro. Pra quem não me conhece, eu pareço normal. Só que as pessoas me veem como a garota desconcentrada que fala pelos cotovelos e tem umas ideias meio excêntricas, digamos assim.

Falei isso rindo, sem drama, sem culpa. Era o jeito que eu era, e se não fosse isso, jamais teria feito a pergunta que saiu logo em seguida:

— Mãe, se eu quiser dar… tipo hoje, pra um menino… a senhora deixa?

Cat arregalou os olhos como se eu tivesse acabado de invocar o demônio no meio do quarto. Minha mãe engasgou, perdeu o ar, quase tropeçou mesmo parada.

— Dar o quê, Quica?

— Ah mãe, transar. — falei como quem pergunta se pode ir ao cinema.

Sabe no verão quando o dia tá lindo, quente e azul, aí você repara no horizonte as nuvens chegando, os passarinhos voando desesperados, ventos que ficam forte, a temperatura mudando e de repente vem aquela tempestade que engole o céu inteiro e você acha que vai alagar sua casa?

Então. Essa foi a expressão da minha mãe.

— Você não vai dar nada pra ninguém, tá me ouvindo? Não quero ser avó e criar neto de filha adolescente, não!

— Tá, mãe, e se eu usar camisinha e tomar remédio? — insisti, inocente.

— Quica, vai ver se eu tô na esquina! — e saiu andando, nervosa. Não sei se foi pra não se aborrecer mais ou só pra fugir da conversa mesmo.

— Ooooo mãeeeeee!!!! — gritei, mas ela já tava indo embora.

Assim que a porta fechou, Cat desabou na gargalhada.

— Ô sua maluca, esqueceu o remédio hoje, foi?

— Ué, tô preparando o terreno… — falei, como se fosse lógica pura.

— Preparando o terreno desse jeito, Quica? — ela começou a me socar de leve na cabeça. — Ela vai te prender mais ainda, sua burra! Você é burra, muito burra, burra, burra, burra!

— Aiiii, paraaaa! — eu ria, tentando me proteger dos socos, mas no fundo já sabia: tinha feito merda de novo.

— Tu sabe o que vai acontecer hoje à noite, né? — Cat falou, séria de repente.

— O quê? — perguntei, já desconfiada.

— Ela vai falar com o pai. Vai dizer: "A Quica tá pensando em sexo." O pai vai ficar mais ciumento ainda, vão te vigiar dobrado. E você vai ser levada ao ginecologista à força.

— Mas eu já vou no ginecologista de qualquer jeito. — retruquei. — Tenho que ir, vou duas vezes ao ano.

— É… mas dessa vez ela vai entrar junto e contar pra ginecologista que você quer dar.

— Eu não deixo minha mãe entrar comigo mais, não, garota. Eu não sou criança.

Ela me olhou de um jeito diferente, como se aquilo fosse informação nova. O rosto dela mudou, ficou sério de verdade.

— Olha, eu não vou te segurar e não vou dizer pra você não fazer. Mas você precisa se proteger. E não é só de filho e doença, não.

Eu fiquei quieta, ouvindo.

— Tem a sua reputação, tem o seu coração. Às vezes, Quica, ficar sofrendo por amor ou ser apontada na rua de puta é pior que pegar uma DST, sabia? Doença você trata, esconde. Mas isso… isso pode acabar com a sua vida.

Fiquei em silêncio, engolindo seco. Pela primeira vez, a zoeira tinha virado sermão sério. Mas minha cabeça… quando eu não curtia o assunto, voava longe.

Enquanto ela falava de reputação, coração e doenças, eu reparei no drapeado da cortina: tinha uma dobra solta, porque o acabamento do carrilhão do varão tinha quebrado. Vi também que os livros da faculdade dela não estavam todos ali — devia ter emprestado alguns. E o ar-condicionado piscava no controle: vinte e três graus.

— Por que você coloca o ar-condicionado no vinte e três? Tá certo isso? — soltei, do nada.

— Quica, você ouviu o que eu falei? — ela me encarou, sem acreditar.

— Sim! — respondi rápido. — É que tá mais frio que vinte e três graus.

Ela soltou um sorriso seco, balançou a cabeça como quem diz “não tem jeito mesmo”. E me puxou num abraço apertado. Beijou minha testa e me segurou firme.