Capítulo 36

Com duas bolsas nas costas, fui até o quarto da minha mãe. Eu já tava mais mansa depois da ameaça do meu pai.

— Paaaaai! Me leva lá? — falei bem fofa.

Eu não queria que ele me levasse. E ele não ia. Era nosso teatrinho.

— Porra, sobrou pra mim — resmungou, deitado, braços cruzados. — Pega um Uber.

— Eu não gosto dela pegando Uber sozinha, amor — minha mãe.

Antes que azedasse, me enfiei:

— Ah, que má vontade, pai. — Virei pra minha mãe. — Eu não sou criança, tá? E eu vim de Uber e não morri.

Minha mãe riu sem graça. Ela sempre deixou a gente dormir na casa das amigas, as mães das nossas amigas se conhecem, e todo mundo mora pertinho uma da outra. Mas confesso que ela não gosta muito. A Cat começou a ter mais liberdade quando entrou pra faculdade, mas mesmo assim não era muito soltinha não. Mas enfim, ela sabia onde a gente tava. Era a poucas quadras ali de casa.

— Chama um Uber e avisa quando entrar e quando descer, tá?

— Tá, mãe.

Saí porta afora feito foguete pra cortar papo e fui pra rua, toda feliz com a minha esperteza.

Ela mandou o endereço sem precisar, eu já tinha ido lá. Ela que não sabia. Respondi “tô no carro”, protocolo. Sempre tem que avisar alguém senão minha mãe surta.

Cheguei no prédio dele carregando as duas bolsas, parecendo que tinha fugido de casa. Quem me visse devia pensar isso mesmo, e comecei a rir sozinha feito uma idiota. Só percebi quando o porteiro me olhou meio confuso. Acho que lembrou da última vez que eu estive ali, porque o portão abriu na hora.

— Boa tarde — falei, entrando e dando um tchauzinho rápido.

Quando o elevador parou, a Cat já vinha no corredor, apressada, com aquele jeito dela de quem fala antes de pensar.

— E aí, tudo certo?? — metralhou.

— Sim. Eu disse pra mãe que vocês estavam fazendo só coisas saudáveis! — respondi, toda orgulhosa.

— Ahn!? — ela fez uma cara de quem não entendeu nada.

— Ué, você mandou eu dizer isso, não mandou? Que vocês estavam fazendo coisas saudáveis. Eu disse.

— Ahn tá! — ela riu, mais aliviada. — Você entendeu literalmente, né? Não precisava ter falado assim.

— Ah, desculpa então.

— Não, amor, tudo bem — ela disse, pegando as mochilas das minhas mãos. — Obrigada, tá?

Andou uns passos em direção à porta, mas parou e virou pra mim de novo.

— Olha, tem gente mais velha aqui hoje, tá? Eu vou ficar com o Jonas. Se elas te encherem o saco, é só me chamar.

— Tá bom — respondi.

Entramos no apartamento dele, e eu dei aquela olhada em volta, jogadas no sofá quase uma em cima da outra estavam Clara e Joana, eu conhecia essas duas já. Clara era um tipinho sem sal, magricela que se achava, esnobe que só. A Joana era mais legal, pensa numa mulher bonita, ela é toda grandalhona e tem cabelo preto que nem índia. E quando ela ri, mostra até os dentes de trás.

As duas cagaram para mim. Deram um oi e pronto.

E eu fiquei ali sentada na mesa pensando no que fazer ou um jeito de entrar no assunto das duas, afinal estávamos no mesmo ambiente. As duas estavam falando em código, alguma coisa sobre armar para cima de um cara e tinha sexo no meio, mas eu não conseguia entender direito, eu sou péssima com códigos ou pessoas escondendo o que querem dizer.

Minha irmã já tinha se enfiado no quarto com o Jonas.

E eu? Fiquei ali sentada, feita uma planta de decoração no canto da sala.

Eu tirei meu computador da mochila, abri espaço na mesa, empurrei jarro vazio sem planta pro lado e estiquei o mouse pad como se eu fosse abrir uma sessão de jogatina de 24 horas. Me enfiei embaixo da mesa pra achar uma tomada e fiquei tateando o chão.

Elas começaram a rir, como se ver alguém plugando um PC fosse engraçado. Vai ver que é inveja, né? Porque quem não trouxe computador agora vai ter que conversar.

Eu gosto delas, juro que gosto. Só que... essas duas são más. Joana principalmente, com aquele cabelo escovado e a vozeirão de mulherão. Eu queria ser linda que nem ela, mas sem o veneno. Elas sempre tiraram sarro de mim e só meio que pararam de me zoar porque minha mãe deu um esporro federal nelas e minha irmã quase comeu o rabo das duas.

— Tá fazendo o quê aí embaixo, Quica? — perguntou a Clara, se esticando pra ver minha bunda enquanto eu procurava o plugue.

— Tentando achar a tomada, não tá vendo?

— Mas Quica... tu vai jogar? Vem conversar com a gente, amor — Joana falou com aquela voz dela.

Ela era legalzinha no começo. Foi ela que me ensinou a passar delineador sem borrar quando uso óculos. Ela também usa óculos, mas só aparece de lente agora, ela fica outra pessoa sem eles e fica bem melhor, por que usar óculos é ruim demais às vezes.

— Eu não, vocês só falam de transar, pau e homem... Parece que não tem outro assunto.

As duas riram. Daquele jeito debochado que dá vontade de levantar e enfiar o mouse pad na lata de uma delas.

— E suas amigas não falam disso? — a Clara, a insossa, me cutucou.

— A gente fala, claro. Mas na nossa idade é tudo mentira. Todo mundo “deu”, todo mundo “fez suruba”... conversa fiada. — espetei a tomada, puxei o cabo de volta por baixo da mesa, deixei tudo alinhadinho. — A gente fala é dos meninos.

— Ah, eu tenho tanta saudade dessa época — suspirou a Joana, quase me ganhando de novo.