Capítulo 38
— Jonas, seu pinto tá duro ainda.
Silêncio de três segundos. Depois as duas explodiram de novo, dessa vez batendo no sofá de tanto rir. A Cat berrou tão alto que acho que o vizinho de baixo ouviu:
— Quica, PELO AMOR DE DEUS, SE CONTROLA SÓ UM SEGUNDO NA VIDA!
Eu fiquei olhando pra cara de todo mundo sem entender nada. Tipo, sério, eu tinha falado aquilo? Em voz alta? De novo?
— Eu falei alguma coisa errada?
— FALOU, IRMÃ! VOCÊ TEM QUE PRESTAR ATENÇÃO QUANDO FOR ABRIR ESSA BOCA, GAROTA! — a Cat já tava com a mão na testa, respirando fundo.
O Jonas, vermelho que nem tomate, colocou a mão por cima do volume tentando disfarçar, como se isso adiantasse alguma coisa, e deu um risinho nervoso.
A Cat apontou pro corredor a falou igualzinha a minha mãe.
— Jonas, vai colocar uma cueca, pelo amor de Deus! Para de ser exibido, caralho!
Ele abriu a boca pra falar, não saiu nada, deu meia-volta e sumiu pro quarto. Quando ele tava quase virando o corredor, eu, toda solícita, gritei atrás:
— Depois que trocar a cueca, reseta o modem, tá? A internet tá uma merda!
As duas caíram no chão de tanto rir. A Cat só me olhou, derrotada, e murmurou:
— Eu juro que não sei de onde tu saiu, Quica. Juro por Deus.
E eu, sincera, só dei de ombros:
— Ué, é verdade. Tá quase duzentos e oitenta de ping, gente, não dá para jogar.
As duas que não tinham levado o computador delas se cansaram de conversar, se despediram e foram embora, finalmente. O Jonas tinha tinha sumido para o quarto, consertou a internet, mas só reapareceu uma hora depois, bem na hora de abrir a porta pras duas e dar tchau. A Cat viu aquilo e bufou baixinho, mas não falou nada na frente delas, eu nem sei o que ele fez de errado dessa vez.
Eu ouvi as duas no corredor dizendo que iam pra casa de um cara e que iam “dar juntas pra ele”. Eu não sei ao certo o que elas iam dar, mas pelo jeito que riam e pelo tom, eu chutei que era sexo.
Fiquei pensando: qual a graça de dividir um cara com outra pessoa? É muito melhor cada uma dar para o seu. Um moço normal só tem um pinto, e homem fica mole rapidinho depois que goza. Eu não achei aquilo um bom negócio, mas a dúvida ficou grudada na minha cabeça.
Quando a Cat fechou a porta, eu disparei:
— Cat, por que as duas vão transar com o mesmo cara?
Ela nem se alterou como sempre faz, puxou a cadeira e sentou do meu lado, bem perto do computador.
— Não sei, Quica. Essas duas aí são malucas.
— Burras, você quer dizer, né?
Ela me olhou, ajeitou meu cabelo que tava caindo no rosto, deu uma risada curta e falou
— Concordo plenamente com você — ela falou rindo, daquele jeito debochado, como se eu tivesse acabado de descobrir a roda.
Eu continuei encarando a tela, fingindo que tava concentrada no streaming, mas minha cabeça já tinha ido embora junto com as duas do corredor.
— Enquanto uma tá transando, a outra faz o quê? — soltei, do nada. — Fica só olhando? Tipo plateia?
Eu ouvi a pausa. Eu não vi a cara da Cat, porque eu realmente não queria tirar o olho do computador, mas senti a hesitação no silêncio.
— Quica… — ela começou, escolhendo as palavras, o que sempre é um péssimo sinal. — Elas são bissexuais. Não tem essa de ficar esperando. Entendeu?
Na mesma hora, meu cérebro deu aquele clique irritante.
“Como eu sou burra, caralho.” Foi exatamente isso que eu pensei. Era óbvio. Era tão óbvio que eu quase fiquei com vergonha de mim mesma. Eu virei pra ela, boquiaberta, como se ela tivesse me revelado um segredo de Estado, e aí um monte de cena começou a pipocar na minha cabeça ao mesmo tempo.
— Você já fez isso, Cat? — mandei, sem filtro nenhum, só curiosidade pura. Eu sabia que ela não ia responder a verdade, mas eu perguntei mesmo assim. Vai que.
Ela fechou o notebook com um estalo, bem na hora que o streamer estava prestes a matar o chefe do jogo. Eu reclamei na hora, óbvio, mas ela ignorou.
— Vamos conversar — ela virou o corpo na minha direção. Isso significava: contato visual. Ou tentativa. Odeio.
— Por que você tá me perguntando essas coisas? É só porque ouviu elas falando no corredor?
Era só por isso mesmo. Eu já tinha visto pornô com três, quatro, cinco pessoas fazendo coisas ao mesmo tempo, mas eu sempre achei que aquilo era coreografia de filme, tipo musical, não vida real. Parecia dar um trabalho logístico absurdo.
— Eu falei alguma coisa errada? — perguntei, porque eu já assumo que fiz merda.
— Não, Quica. — ela suspirou. — É uma pergunta normal. E você é minha irmã.
— Então responde, ué — apertei, porque se é normal e eu sou irmã, não tô vendo o problema na matemática.
Eu fiquei olhando pra ela com aquela cara de “não vou largar do seu pé nem fudendo” e me ajeitei na cadeira, toda pronta pra interrogatório versão irmã mais nova insuportável.
— Vamos fazer um trato — ela começou, toda cheia de banca. — Eu te conto, mas depois eu vou te perguntar uma coisa e você tem que responder. Certo?
Na mesma hora meu cérebro acendeu o alarme de golpe.
— Certo, espera… NÃO! — recuei. — Isso não é justo. Eu não sou burra. Você sempre fala que não fez nada, que não foi nada demais, isso não é resposta interessante que valha eu responder coisas. E eu já te conto tudo mesmo. O que mais você quer saber, afinal?

