Capítulo 39

Fiquei até ofendida. Eu abro o diário inteiro, ela quer fazer escambo.

Ela cruzou os braços com aquela cara de desaforada profissional. Tava sem sutiã, com uma blusa fininha, e dava pra ver cada detalhe do tecido marcando em cima do peito. E aí já fodeu minha concentração, porque textura é meu ponto fraco. Ainda mais quando é peito no meu campo de visão.

— Para de olhar pro meu peito, Quica, isso é esquisito, já te falei sobre isso — ela reclamou na hora, puxando a blusa pra baixo e cruzando ainda mais os braços por cima, se fechando toda.

Eu pisquei, meio sem graça.

— Eu não tô olhando porque eu quero, é que tá na minha frente, porra — pensei ou falei, nunca sei direito.

— Eu vou falar a verdade — ela avisou, séria. — E você me fala depois, tá?

— Depende, Cat — apertei os olhos, desconfiada. — Eu quero saber se o que você vai me perguntar tem o mesmo peso de você ter feito uma suruba.

Ela riu na hora, deu aquela mordidinha no lábio que é a cara dela quando vai falar merda, e ficou com uma expressão tão maliciosa que até eu entendi o subtexto.

— Eu já fiz — soltou, vitoriosa.

Meu coração bateu um milhão de vezes mais rápido.

— Com quem? — disparei, sem nem respirar entre as palavras.

— Você não conhece — ela respondeu rápido demais. Sempre suspeito.

Revirei os olhos.

— Se eu não conheço, não existe. E se não existe, você não fez — eu bati o martelo, toda lógica.

— Juro que eu fiz — ela insistiu, muito convincente pro meu gosto.

Eu estreitei os olhos, modo investigação ativado.

— E foi bom? — perguntei, porque informação técnica é importante.

— É… foi bom na hora — ela fez uma careta de quem lembra e sente ao mesmo tempo, mas depois eu me senti meio esquisita.

— Mas você é esquisita — respondi automático.

Ela já levantou meio de impulso, irritada.

— Tá vendo por que não dá pra conversar com você?

— Não, não, senta aí! — eu segurei o braço dela. — Deixa eu perguntar.

Eu, inocente, achando que tava no controle. Quica do futuro aqui: eu obviamente já tava caindo nas tramóias dela. Era a cara da Cat inventar metade da história só pra arrancar minhas coisas e, no final, virar e falar “tava mentindo” só pra me ver surtando por ter falado demais.

— Foi com mais uma mulher? — insisti.

— Sim. Uma menina e um menino — ela respondeu, calma demais.

Eu soltei antes do filtro entrar em ação:

— Eu já beijei meninas.

Ela arregalou os olhos na hora, quase deu pra ouvir o “plim” da surpresa.

— A senhora está muito moderninha — ela disse, gozando da minha cara com aquele deboche irritante.

Por dentro eu só pensei que tinha falado demais e agora não tinha mais volta.

— Pergunta logo, pelo amor de Deus — falei, sentindo a ansiedade subindo igual febre.

A Cat me conhecia como ninguém. Puxou a cadeira devagar e aproximou até invadir meu espaço, daquele jeito dela que me deixa toda desconcertada.

— Para quem você deu?

Não era sobre quantos, era sobre nomes. Jonas e Glauco. E ela claramente estava pensando no Glauco, que ela não sabia o nome e bem mais velho que eu, o que faria ela perder a cabeça comigo.

E eu, como sempre, falando antes de pensar.

— Jonas... Glauco.

A Cat empalideceu na hora. A boca abriu, os olhos piscavam sem parar, parecia até que ia desmontar. Eu continuei ali, com a maior cara lavada possível, sem notar o desastre que tinha feito.

Na tentativa desesperada de me salvar, sem perceber ao certo que deu errado, mandei a mentira mais idiota do planeta.

— O Bruno. Você conhece ele, dos pais separados.

Ela levou as duas mãos ao rosto e esfregou com força, como quem tenta acordar de um pesadelo. A expressão dela parecia de dor, quase uma cólica emocional.

— Qual a idade desse Glauco, Quica?

Eu respondi toda metida, achando que tava por cima.

— Ah não, você quer saber demais. Agora que você já sabe com quem eu transei, acabou. Chega de perguntas. Vai ter que me contar uma coisa muito mais sinistra pra compensar.

Ela se inclinou pra frente de um jeito tão rápido que eu até travei. Agarrou meu braço com força, os dedos afundando na minha pele, e me sacolejou como se eu fosse um saco de roupa suja.

— Olha aqui, dona Quica. Eu vou te arrebentar inteira. Acabou a brincadeira. Me fala quem é esse Glauco e qual a idade dele. Agora.

Pra não apanhar, soltei a verdade mais rápido que cuspe.

— Vinte e cinco.

— Ele tem vinte e cinco anos de idade — ela repetiu, espantada. Olhou pra cima como quem vai abrir reclamação diretamente com Deus. — Meu Deus, Quica, você não tem juízo. A mamãe vai te matar se souber disso…

— Eu tô aqui, fala comigo — chamei, porque ela parecia ter ido pra outro plano.

Ela puxou o maior ar que podia, como se estivesse roubando o oxigênio da sala inteira.

— E quando foi que você deu pro Jonas?

“Quando foi que você deu pro Jonas?”

A frase entrou no meu ouvido e ficou presa lá dentro, girando igual ventilador quebrado: tum-tum-tum, sempre a mesma coisa. Eu tentava entender o sentido, mas parecia que as palavras estavam desmontadas, tipo legenda errada. Acho que eu já tava me balançando, porque a Cat apareceu do nada e me puxou num abraço forte, daquele jeito que aperta mais o mundo pra ver se eu volto pro corpo.
Não dói, tá? O problema não é fora, é dentro; é minha cabeça que dá tilt e começa a fritar, e aí tudo vira uma sensação de “vou explodir em três, dois, um”.