Capítulo 41
Em casa, minha mãe não ficou muito interessada em saber por que não ficamos lá. A Cat foi pro quarto dela, e eu fiquei meio parada, olhando pra cara da minha mãe, me perguntando se devia falar com ela sobre ménage. Alguma coisa me dizia que era melhor não. Fui pro meu quarto, larguei as coisas, mandei mensagem pro Glauco, procurando alguém pra conversar, mas ele parecia ocupado.
Mais tarde, fui no quarto da Cat. Ela estava separando uma bolsa com as coisas do Jonas.
— Irmã, qual é a graça de fazer com duas pessoas? Eu não entendi isso ainda.
— De novo isso, Quica? Sério?
Ela continuou jogando coisas dentro da bolsa e, quando percebeu que eu não ia desistir, fechou a porta.
— Olha, você já transou, né? — estranho, dessa vez ela pareceu não querer me tratar como a irmãzinha mais nova dela.
— Sim…
— Imagina uma pessoa chupando seu peito e a outra sua pepeca — ela disse como se isso, por si só, explicasse tudo. — Entendeu?
— Mas uma pessoa só pode fazer os dois.
— Ao mesmo tempo, Quica?
— Ao mesmo tempo não, né — tive que concordar com ela.
— Então. As pessoas têm essas maluquices na cabeça. É fetiche. Elas gostam de ter mais gente no jogo. É mais intenso porque tem mais coisa acontecendo ao mesmo tempo. Não sei explicar direito.
Fiquei sentada na cama da Cat enquanto ela terminava de arrumar as coisas. Minha cabeça rodava tentando entender qual era a melhor configuração possível entre homens e mulheres, dois homens e uma mulher ou duas mulheres e um homem? E se fosse tudo homem ou tudo mulher? E as pessoas sem gênero? Nada fechava. Só me dava dor de cabeça. E, pra piorar, a calcinha já estava claramente além do ponto por que pensar nisso meio que me excitava levemente.
— Quica, e esse seu namorado? Me conta dele — ela perguntou, dobrando uma camisa masculina de banda.
— Ele não é meu namorado.
— Você vai me apresentar ele? — a voz veio com um sorriso torto que eu não decodifiquei direito.
Na minha cabeça, decodifiquei assim: perigo.
— Não. Você ia dar em cima. E ia acabar transando com ele.
Cat riu, como se eu tivesse contado uma piada. E eu pensei, sem muito drama, que ele provavelmente acharia ela bem mais interessante do que eu. Nunca fui muito possessiva. Tirando com meu computador. E, sendo honesta, talvez eu nem ligasse tanto se ela transasse com ele uma vez.
— E quem é melhor de cama? Ele ou o Jonas?
Demorei pra responder. Comparação meio injusta. Transei mais com o Glauco do que com o Jonas. Mas, falando de primeira vez… o Glauco me virou do avesso. E ainda me deu pizza.
Eu detestava esse tipo de pergunta, sabe? Aquelas que a gente fica comparando homem A com homem B como se fosse ranking de herói no LoL, porque pra mim tinha que ter critérios claros, pontos sólidos de comparação, tipo dano por segundo ou sustain na lane. Mas eu já tinha sacado que não adiantava: a pessoa escolhe o lado dela e briga até o fim defendendo, nem que seja só pra não dar o braço a torcer. Eu que lute.
A Cat tava ali dobrando roupa pra jogar na bolsa, distraída, quando eu soltei:
— O Glauco, irmã!
Ela parou no meio do movimento, uma blusa pendurada na mão, me olhou de lado com aquela carinha de quem tá processando informação, deu uma risadinha baixa e continuou enfiando as coisas.
— E por que você achou ele melhor que o Jonas?
Nem precisei respirar fundo pra responder, porque fatos são fatos, e contra fatos não tem argumento que segure. Eu fui despejando tudo, detalhe por detalhe, como se estivesse narrando uma partida épica: o jeito que o Glauco me beijava devagar, a mão dele sabendo exatamente onde apertar, os dedos que finalmente entendiam o que era ritmo certo, a língua que explorava sem pressa e me deixava louca de um jeito que o Jonas nunca chegou perto. Falei do calor da boca dele descendo, do arrepio quando ele me abriu inteira, do jeito que ele me segurava firme mas carinhoso, como se eu fosse ao mesmo tempo frágil e poderosa. Contei até do lambidão no cu.
Enquanto eu falava, a Cat foi largando a bolsa no chão, veio se sentar do meu lado na cama, boca meio aberta, olhos arregalados tipo tela de loading eterno. Ela nem piscava, só absorvia, e eu via o rosto dela mudando de curiosidade pra choque, que ela tentava disfarçar. Minha história devia estar boa pra caramba, porque a mulher tava hipnotizada.
Quando eu terminei, ela ficou quieta um segundo, respirou fundo e soltou baixinho:
— Você sabe que a mamãe não pode nem sonhar com isso, né?
Eu ri por dentro, porque óbvio que eu sabia, mas respondi na hora, séria:
— Sei sim, o papai também não pode.
Aí depois daquela palestra toda que eu dei sobre o Glauco, tipo uma review completa, vieram as perguntas, óbvio. Eu tava esperando que a Cat fosse direto no que interessa, sabe, mas não. O que grudou na cabeça dela foram aqueles porta-retratos espalhados pela casa toda que eu falei, cheios de foto do Glauco com o amigo dele. Tipo, aos montes deles. A Cat é uma safada nível hard, eu sei, eu saquei na hora: ela tava interessada no tal amigo e tentando disfarçar achando que eu sou burra e não iria notar. Podia ter perguntado direto, ué, eu responderia numa boa, sem problema nenhum.
Ela largou a bolsa de vez no chão, se jogou na cama do meu lado de novo, e soltou toda casual:
— E esse amigo, Quica? Me fala dele.
Eu dei de ombros, porque na real eu não sei nada além do que o Glauco mencionou de passagem.

