Capítulo 42
— Eu não sei dele direito, o Glauco se mudou pra cá primeiro e ele só deve chegar daqui há duas semanas no máximo.
A Cat olhou pro nada, tipo pro teto do meu quarto, e a cara dela mudou. Ficou com uma expressão esquisita, meio preocupada, meio raiva, meio dor de barriga. Eu odeio quando as pessoas fazem essas caras e não explicam, porque eu fico na dúvida eternamente sobre o que elas estão pensando.
— Tá com raiva? — perguntei na lata, pra não ficar martelando na cabeça.
Ela nem respondeu de primeira, só continuou olhando pro vazio, mordendo o canto da boca como faz quando tá puta com alguma coisa. Não acho que era dor, porque se fosse ela já tinha reclamado antes.
De repente ela virou pra mim e soltou do nada:
— Quica, você perguntou se ele tinha namorada?
Eu pisquei, assustada.
— Perguntei, ele falou que não.
Ela assentiu devagar, mas os olhos dela estavam brilhando de um jeito calculista, tipo jogadora de poker que acabou de sacar o blefe do outro.
— E namorado?
Eu travei um segundo, processando. Namorado? Tipo, homem?
— Namorado o quê? Tipo homem?
Eu pisquei, tentando processar. Sério, aquilo nem tinha passado pela minha cabeça. Pra mim não fazia diferença nenhuma. O Glauco me deixava louca na cama, ponto. Se ele curte homem ou mulher ou os dois, que diferença faz? Desde que continue me pegando daquele jeito...
— Sim, Quica, você perguntou se ele é bissexual?
— Não, isso nem passou pela minha cabeça.
A Cat me olhou longo, tipo me avaliando inteira, como se eu tivesse dito a maior bobagem do mundo.
— Quica, será que esse cara que tá com ele nas fotos é só amigo mesmo? — ela baixou a voz, quase conspirando. — Eu tô sendo maldosa, tá vendo a minha maldade, Quica?
Eu entendi na hora. Fatos são fatos.
— Sim. Você acha que ele transa comigo, mas tem um namorado homem, né?
E aí que tá... se eu fosse qualquer outra menina, devia ficar puta, frustrada, me sentir traída, chorar no banheiro, mandar mensagem dramática. Mas não. Minha cabeça foi direto pro outro lado. Ménage. Dois caras me pegando ao mesmo tempo. Eu já tinha fixado nisso antes, e agora a ideia bateu de novo e pelo visto não ia sair por nada.
— Irmã...
Ela se aproximou mais, vendo minha cara fechada, pensativa, achando que eu tava chateada, magoada.
— E como que eu vou dar pros dois agora? Eu não sei como fazer isso...
Ela travou um segundo. Depois se levantou num pulo, irritada, os olhos arregalados.
— Ahn, vai se foder, Quica! Eu tô falando sério com você! — ela quase gritou, completamente puta sem motivo aparente. — Você se toca que o cara tem outro e a sua ideia é como vai dar pros dois? É isso mesmo que eu tô ouvindo?
Eu fiquei olhando pra ela, sem entender direito o surto.
— Quica, passa a mão nesse telefone agora e liga pra ele! — a Cat mandou, já estendendo a mão como se fosse confiscar o celular se eu não obedecesse. — Pergunta se ele tem outro. Não tá certo você ser a marmita dele, ou sei lá, amante. E coloca no viva-voz!
Marmita? Amante? Eu não entendi nada. Nem sabia o que era ser marmita de alguém. Pra mim, se eu era alguma coisa, eu era tipo a sobremesa principal, não sei. Mas ela tava com a mesma cara de brava da minha mãe, então eu peguei o celular só pra matar a curiosidade mesmo. Liguei.
Ele atendeu no segundo toque.
— Oi, Quica, tudo bem? — voz calma, sorridente, aquela que me deixava derretida.
— Esse menino dos porta-retratos na sua casa é seu namorado? — Eu às vezes, sou meio direta.
Silêncio dos dois lados. A Cat ficou muda, olhos arregalados tipo anime, e do outro lado da linha só deu pra ouvir um "hã?" baixinho.
— Olha, Quica... a gente pode falar disso pessoalmente depois?
A Cat começou a acenar loucamente, balançando a cabeça que nem ventilador quebrado, fazendo sinal de "não" gigante.
— Não, responde agora, se não se importar.
Ela cruzou os braços na minha frente, mordendo a unha do polegar, tensa pra caramba. Aquilo era importante pra ela, sei lá por quê.
— Sim, Quica. A gente é namorado.
— Tá bom! — eu disse, toda animada, já indo desligar com um "boa noite" quando ele me cortou.
— Tá bom? — ele repetiu, voz confusa, como se esperasse um drama, um choro, um "como você pôde?".
— Tá bom é o cacete, Quica! Deixa eu falar com ele. — a Cat arrancou o telefone da minha mão num puxão.
— Mas eu queria perguntar se ele já fez menage, Cat... — choraminguei baixinho, porque né, era a parte que mais me interessava.
Ela ignorou total, tirou do viva-voz e encostou o celular no ouvido, voz firme que nem a da nossa mãe no modo briga:
— Oi, aqui é a Catarina, irmã da Quica. Qual o número do seu apartamento? A gente precisa conversar.
Eu fiquei nervosa na hora. Ela parecia puta da vida, andando de um lado pro outro no quarto. Do outro lado da linha, silêncio, depois um "sim, claro..." meio assustado.
Ela ouviu, assentiu sozinha e, antes de desligar, soltou a pérola:
— Sim, amigo. Você tá muito encrencado.
Devolveu o celular pra mim como se fosse uma batata quente.
— E a senhora fica aí quietinha e não fala com ninguém.
— Mas pra onde você vai? — perguntei, já imaginando ela descendo com um chinelo na mão ou coisa pior.
Ela nem respondeu. Só fechou a porta com força e saiu corredor afora, passos decididos, tipo missão de guerra.
Eu fiquei ali, sentada na cama, olhando pro celular. Puta merda...
— Vou ver se a Amanda sabe alguma coisa sobre sexo com mais de uma pessoa ao mesmo.
E liguei enquanto voltava para o meu quarto.

