Gente, eu me tranquei no quarto, fechei a porta devagar pra ninguém escutar o que eu ia falar, porque parecia que toda vez que eu tocava no assunto de sexo com mais de uma pessoa todo mundo ficava irritado. A Cat tinha surtado, minha mãe ia surtar se soubesse, e eu tava com medo que até a Amanda fosse surtar também. Mas eu precisava falar com alguém, e ela era a única que eu conseguia imaginar ouvindo sem me chamar de doente na hora. Sentei na cama, o celular na mão, o coração batendo forte só de pensar em dizer as coisas em voz alta. Eu vinha treinando na terapia, respirava fundo, contava até três, esperava a pessoa falar alguma coisa antes de eu jogar tudo de uma vez. Era muito difícil controlar a ansiedade e esperar, mas eu tava tentando.
Ela atendeu de cara, nem deixou tocar duas vezes. Primeiro veio aquela conversa inicial chata, ela falando dos pais dela que tinham brigado porque ela queria sair com um menino da sala. Eu ouvia de um jeito, mas minha cabeça já tava em outro lugar, pulando de ideia em ideia, como sempre faz quando eu fico nervosa. Eu queria ir direto pro ponto, mas segurei. Respirei. Esperei ela terminar de reclamar.
Aí eu soltei, sem conseguir segurar mais e interrompendo a ladainha desinteressante dela:
— Eu quero falar sobre um assunto que está martelando a minha cabeça, Amanda.
Ela ficou quieta um segundo e respondeu com aquela voz dela, meio seca:
— E o que eu disse você não tá nem aí né, Quica?
Eu nem percebi que tinha sido grossa. Saiu assim, direto, sem filtro nenhum. Eu respondi na lata:
— Honestamente eu não me importo muito não, mas posso ouvir se você quiser falar mais.
— Caramba, eu não sei por que eu sou sua amiga — ela soltou, e eu senti que tinha machucado um pouco, mas ao mesmo tempo não conseguia mentir.
E eu, sem pensar, como sempre, respondi:
— Por que eu sou sua única opção?
Na hora que as palavras saíram eu percebi que tinha sido maldosa. Mas as coisas na minha cabeça são melhores quando são diretas. Deixa tudo mais simples pra mim. Eu odeio quando a conversa faz curva, dá voltas, fica enrolando em cima de sentimento. Eu prefiro ir logo pro que interessa, senão eu perco o fio e fico ansiosa. Geralmente eu preferia nem conversar quando o assunto fazia curvas assim.
Eu tava ali sentada na cama, o celular grudado na orelha, e quando a Amanda soltou aquele “vai, foda-se, fala logo o que você quer”, eu respirei fundo e comecei:
— Então, eu tou meio que saindo com um menino do meu prédio...
Ela interrompeu na primeira frase e isso me irritou:
— O Bruno?
Eu fiquei puta na mesma hora.
— Fica quieta, eu não te interrompi quando você tava falando — soltei seca.
— Interrompeu sim e não deixou nem eu terminar de falar, Quica. E eu só queria saber quem é — ela rebateu, meio rindo, meio irritada.
— Você não conhece esse que eu tou falando. Deixa eu continuar? — pedi, já sentindo que a conversa ia virar bagunça.
Finalmente ela calou a boca. Eu esperei um segundo pra ter certeza que ela não ia cortar de novo e continuei:
— Então, só que minha irmã perguntou dos porta-retratos e ela descobriu que ele é gay e tem um boy e ela foi lá tirar satisfação com ele.
Do outro lado veio um silêncio curtinho, depois ela explodiu:
— Caralho, eu não entendi nada. Respira, Quica, e conta do início.
Eu prendi a respiração. Na minha cabeça as coisas andavam muito mais rápido do que na boca. Eu pensava um monte de coisa ao mesmo tempo, mas quando ia falar parecia que tudo travava. Eu achava que as pessoas, sei lá, estariam lendo os meus pensamentos, que eu não precisava explicar tudo do zero toda vez. Mas não era assim. Eu tinha que contar de novo, devagar, como se a pessoa fosse burra ou eu fosse ruim de explicar. Isso me cansava. Eu sempre achava as pessoas lentas por isso.
Eu expliquei tudo pra ela. Comecei do começo, desde o momento que eu percebi que tava no cio e saí procurando alguém pra esfregar minha coisinha. Contei que desci até o Bruno, mas que ele era idiota e que depois eu vi o Glauco. Pulei os detalhes do sexo, porque eu não fico falando essas coisas por aí, e a Amanda é sapatão, né? Eu não achava que ela ia curtir ouvir detalhe de gente hetera. Se ela pedisse eu contava, mas ela não pediu.
Aí eu falei que contei tudo pra Cat, que pescou alguma coisa e foi lá brigar com ele. Depois que eu terminei, a Amanda ficou num silêncio tão longo que eu comecei a achar que ela nem tinha escutado nada do que eu disse.
— Amanda?! Você ouviu o que eu falei? — chamei, já impaciente.
— Ouvi, Quica, calma. Eu tô processando — ela respondeu, devagar.
Eu fiz cara feia pro celular, como se ela pudesse ver.
— Eu não tô vendo sua cara, garota. Tem como você se expressar melhor?
— Ei, calma, Quica. Você tá agitada demais. Por que você tá assim? Tá nervosa por causa da sua irmã?
Eu fiquei quieta um segundo. Talvez eu estivesse nervosa, mas as coisas são diferentes pra mim. Eu tava no hiper foco total da curiosidade sobre ménage. Quando eu entro nesse estado, parece que o resto do mundo some. Eu só conseguia pensar em como seria, em como as pessoas se encaixavam, em como era a sensação de ter duas pessoas ao mesmo tempo mexendo em você, te olhando, te tocando. Não era tesão no sentido de “eu quero fazer isso agora”. Era mais uma curiosidade forte, quase uma fome de entender. Eu queria saber os detalhes, as regras, se era gostoso de verdade ou se era só coisa de pornô.
