Capítulo 8

Quando ele falou, voz rouca e baixa, Jana deu um berro idiota e me puxou pra dentro pela cintura, tentando me arrastar pro escuro da sala. Eu não fui. Fiquei parada na porta, coração batendo na garganta, mas não recuei. Era assustador pra caralho, sim, mas também era só uma pessoa parada na chuva, com lampião na mão, olhando pra gente como se quisesse ajudar.

Gritei de volta, voz tremendo um pouco.

— Sim, mas o telhado da varanda caiu e a gente tá sem eletricidade!

Ele inclinou a cabeça, lampião balançando e jogando sombras dançantes na cara dele.

— Vocês tão sozinhas? Cadê seus pais e seus dois irmãos?

Na hora eu relaxei um pouquinho. Ou ele me conhecia de verdade, ou tinha acertado o maior blefe da face da terra. Ninguém ali na serra saberia dos meus irmãos sem conhecer a família.

— Eu tô com a minha amiga só.

Ele deu um passo mais perto, botas afundando na lama, mas parou respeitoso, sem invadir o espaço da varanda destruída.

— Florzinha, você vai ter que confiar em mim. Vocês não podem passar a noite aí que o telhado pode cair inteiro. Vem ver aqui de fora.

Eu hesitei, mas saí. Pisei na lama gelada que destruía a grama e o canteiro da frente, o vestido grudando nas pernas, pés descalços afundando no barro frio. Levantei a cabeça e olhei pra cima. De dentro da casa eu não tinha visto direito, mas agora dava pra enxergar: o telhado principal estava todo comprometido, telhas quebradas, vigas expostas. Deus sabe se a laje não tinha sido afetada também. Um calafrio subiu pela espinha.

— Pega suas coisas e vem comigo. Eu sou sua vizinha.

Vizinha.

A palavra ficou ecoando na minha cabeça. Vizinha? Com aquele visual todo? Mas a voz dele era calma, quase gentil, e ele não avançou mais.

— Você tem um telefone? Eu queria ligar pros meus pais e avisar.

— Ninguém tem sinal amor, melhor chance é com o fixo. Mas tem uma pessoa aqui perto que tem internet satelital. Vamos falar com ele depois, ver se consegue contato.

Ele estendeu o lampião um pouco mais alto, iluminando o caminho entre as árvores caídas, como se mostrasse que não era armadilha. Jana apareceu atrás de mim, ainda agarrada na minha blusa, olhos arregalados, mas sem gritar mais. Eu olhei pra ela, depois pra ele, depois pro telhado rachado que pingava água na nossa cabeça.

Peguei a mão dela e apertei forte.

— Tá bom. A gente vai. Mas só pra ligar pros nossos pais.

Ele assentiu, sorriso ainda ali, mas agora mais suave.

— Claro, florzinha. Agora pegas suas coisas e vamos logo.

A cidadezinha que não devia ter mais de cinquenta casas no que chamavam de centro parecia ter acabado de sair de um sonho ruim, mas ninguém tava apavorado. Os poucos carros nas ruas tavam cobertos por galhos e árvores caídas, tudo mergulhado num breu profundo, só que as pessoas não pareciam preocupadas. Pelo contrário: elas tavam sorridentes, como se aquilo fosse rotina, como se a tempestade fosse uma visita antiga que chega, bagunça tudo e vai embora deixando um cheiro de terra molhada e histórias pra contar. Lanternas balançavam nas mãos delas, luzes tremiam nas janelas, e tinha um ar de festa quieta no ar, como se a serra inteira tivesse acordado pra ver o espetáculo.

Chegamos na casa dela depois de caminhar com lama até as canelas, sujando a barra do vestido inteiro, pés pesados de barro frio. Quando a porta se abriu, eu fiquei maravilhada. Ali dentro tinha um pedacinho do mundo inteiro espalhado. Souvenirs de viagens pendurados em cada canto: conchinhas de praias distantes, bonecos de madeira entalhados à mão, vidros coloridos que pegavam a luz e jogavam arco-íris fracos nas paredes. Araras cheias de vestidos, roupas antigas e extravagantes, todas com algum detalhe minúsculo de vidro costurado — contas, pedrinhas, espelhinhos que piscavam quando a gente passava. Nas paredes, máscaras tribais, chapéus de palha trançada, echarpes de seda desbotada pelo tempo. No chão, sapatos e mais sapatos de todos os tipos, mas a maioria extravagante: saltos altíssimos com penas, botas de couro com bordados dourados, sandálias cravejadas que pareciam joias. Jana olhava tudo de boca aberta, olhos brilhando na penumbra.

A luz do ambiente era um branco pálido, fria, vinda de alguma lâmpada de emergência que piscava de leve no teto.

— Meninas, vão pro banheiro lavar esses pés e trocar roupa se precisarem. Eu vou fazer um chazinho tá?

Eu entrei mais fundo na casa, pisando devagar pra não quebrar nada. Ela foi contando pedaços da vida dela enquanto mexia nas panelas na cozinha. Era uma vida longa, cheia de viagens, amores, perdas e reencontros. Eu caminhava usando a pouca bateria da lanterna do celular, iluminando dezenas de fotos nas paredes: ela jovem abraçada com gente que parecia famosa, posando em cidades que eu só via em filme, rindo com desconhecidos em festas antigas, sempre com aquele sorriso largo que agora tava ali na cozinha.

— Rebeca, olha o vacilo, a gente nem perguntou o nome da mulher!

— Verdade...

Eu fui em direção do barulho de cozinha, panela chiando, cheiro de erva-doce subindo.

— Oi, desculpa, você tá ajudando a gente e eu nem sei seu nome...

Ela riu como se isso não fosse importante, acendendo o fogão com isqueiro, chama azul dançando na escuridão.

— Senta aí menina, vocês jovens são assim mesmo. Meu nome é Lunna Liz, mas pode me chamar de Lunna ou só Lu se quiser. Eu até prefiro.

Eu sentei na cadeira de madeira velha da cozinha, pernas ainda sujas de lama. Tinha mil perguntas na cabeça sobre quem ela era, de onde vinha tanta coisa linda espalhada pela casa. Falei que tinha achado tudo o máximo, que parecia um museu vivo.

Ela sorriu, servindo água quente na chaleira.

— Amanhã a gente vê as roupas direitinho, florzinha. Hoje não dá pra ver nada direito, tá tudo bagunçado e vocês precisam dormir. A tempestade levou embora o dia, mas trouxe vocês aqui. Isso já valeu a noite.

Ela colocou xícaras na mesa, cheiro de camomila e mel enchendo o ar. Jana apareceu na porta do banheiro, pés limpos, enrolada numa toalha que Lunna tinha deixado pra gente, olhos ainda grandes de tudo que viu. Eu peguei a xícara quente, sentindo o vapor subir no rosto, e bebi um trago longo e reconfortante. Eu me sentia uma refugiada de um desastre, corpo pesado, mente girando, mas o chá desceu quente e acalmou um pouco o nó na garganta.

Em um momento depois que traçamos o plano pra quando o sol nascesse, ela se encostou na pia da pequena cozinha velha e não menos entulhada e falou pra mim.

— Olha, eu queria dizer que eu acho você muito corajosa.

— Corajosa? — eu olhei curiosa sem saber do que ela falava, porque até então eu só tinha me mijado de medo e tremido — Mas por quê corajosa?

— Eu vi o seu post, eu conheço sua família, sua mãe tem meus amigos no Instagram. — ela tomou um gole a mais e continuou — Agora você precisa ser forte, a vida é dura com a gente.

A gente...

Eu não me identificava com "a gente". Não daquele jeito. Mas foi a Jana que cortou, direta como sempre.

— A senhora é trans né?

Na hora eu arregalei os olhos com a intimidade que a Jana tinha acabado de forçar, mas Lunna só riu, um riso rouco e gostoso que encheu a cozinha.