Capítulo 9

— Travesti amor, travesti. Mulher e drag e muitas coisitas a mais — ela falava enquanto fazia movimentos mágicos imaginários com a mão e um rebolado elegante com o corpo, como se estivesse se apresentando num palco invisível.

Estranhamente eu me senti mais acolhida, se é que isso era possível. O ar pareceu mais leve, o cheiro de camomila mais doce. Lunna não tinha pena nos olhos, nem curiosidade doentia. Só reconhecimento.

— É, tá sendo sim, meio complicado. Eu não sei nem explicar. É tudo meio fora de lugar...

E sem perceber, sem ninguém perguntar, eu fui falando. Vomitando as palavras como se uma cachoeira tivesse se rompido dentro de mim. Coisas que nem a Jana sabia direito, coisas que eu demorei dias com a psicóloga pra conseguir botar pra fora.

— Por exemplo? Eu saio com um cara, eu fodo ele ou ele me fode? E com mulher? Eu ajo como homem?

Tudo que a internet falava sobre os papéis de gênero, conversinha de youtubers, psicanalistas, eu conhecia. Eu ouvi gay, lésbicas, trans, inter, gente que não sente atração sexual, assexual, tudo. Mas pra mim era teoria e não resposta. Não resolvia a confusão que batia toda vez que eu imaginava alguém me tocando de verdade. Eu queria ser desejada como menina, delicada, frágil, mas ao mesmo tempo sentia o pau pulsar e pensava se eu não devia ser a que penetrava, a que dominava. E quando pensava em mulher, ficava pior ainda: eu queria beijar, chupar, lamber, mas e se ela quisesse que eu fosse o "homem" da história? E se eu quisesse que ela fosse? Eu travava inteira só de imaginar.

Eu parei de falar de repente, rosto quente, xícara tremendo na mão. Lunna me olhava quieta, sem interromper, só escutando. Jana tava parada na porta, toalha apertada no peito, olhos grandes, sem saber o que dizer.

Lunna largou a própria xícara na pia, veio até mim devagar e sentou na cadeira do lado. Colocou a mão no meu braço, toque leve, quente.

— Florzinha, quando você se vê nua no espelho o que você vê?

— Uma coisa que eu não gosto... — falei olhando pro breu do chão sujo de lama dos nossos pés.

— Florzinha, quando você se vê nua no espelho o que você vê? — ela perguntou de novo, dessa vez me buscando com os olhos, como se quisesse entrar dentro da minha cabeça.

Eu olhei pra ela em dúvida, sem saber o que ela queria ouvir.

— Uma garota linda com um pinto grande?

— Não. Você deve se olhar, meu bem, e reconhecer em você algo que nenhuma outra mulher tem.

— Um pinto? Sim, eu falei.

— Não!

Ela mudou de postura na hora, ergueu o queixo, abriu os braços devagar como se o lampião de emergência fosse holofote e a cozinha velha um palco. A luz pálida batia no rosto dela, destacando as linhas borradas de maquiagem, os cabelos longos ainda úmidos, e de repente parecia que o mundo inteiro parou pra ouvir.

— O poder!

— Poder de quê, Lunna? — perguntei desanimada, voz baixa, cansada de tanto pensar nisso.

Ela se aproximou um passo, voz baixa mas firme, como se contasse um segredo que ninguém mais merecia saber.

— Quando você entender que seu corpo é arma de desejo, de curiosidade que confunde, que faz homens e mulheres pararem, engolirem seco, questionarem tudo que achavam que sabiam sobre si mesmos... quando você souber usar isso ao seu favor, florzinha, você vai ter tudo. Amores que imploram pra ficar, dinheiro que aparece sem você pedir, favores que ninguém mais consegue. Porque você não é só uma garota. Você é o mistério que ninguém espera, a tentação que ninguém consegue ignorar, a força que ninguém consegue domar.

Eu fiquei quieta, ouvindo cada palavra cair pesada. Ela falava como se ter um pau fosse a maior vantagem do universo, como se eu tivesse nascido com uma coroa invisível que o resto do mundo não via. Mas ela não parou aí. Continuou, voz ganhando força, quase cantando.

— Eu quero que você experimente isso. Sabe como? — fez uma pausa dramática, olhos brilhando na penumbra, mão estendida como se me entregasse algo invisível. — Deixar o bichinho do tesão dentro de você sair. Experimente. Faça o que você quiser, como você quiser, sem pedir permissão, sem se desculpar, sem se preocupar com o que os outros vão achar. Toque, chupe, foda, seja fodida, mande, obedeça, mude de ideia no meio, pare se quiser, continue se quiser. Não existe certo ou errado no seu corpo. Existe só o que te faz sentir viva.

Ela se inclinou mais perto, voz caindo pra um sussurro rouco que arrepiou minha nuca.

— Pare de se esconder atrás de rótulos que não cabem. Pare de perguntar se você é homem ou mulher na cama. Você é Rebeca. E Rebeca tem um pau que pulsa quando ela quer, faça seu cu de boceta se precisar, você tem um corpo que decide o que sente. Quando você aceitar que o poder não tá no que entra ou sai, mas no que você manda acontecer... aí sim, florzinha, você vai ser livre. E quando for livre, ninguém mais vai te colocar em caixinha nenhuma.

Eu senti um nó na garganta se desfazer devagar. As lágrimas que estavam presas desde o começo da noite escorreram quentes, mas não de tristeza. Era outra coisa. Alívio misturado com fogo. Jana apertou minha mão por baixo da mesa, olhos molhados também, mas sem falar nada. Lunna só ficou ali, sorrindo suave, como se soubesse que tinha plantado uma semente que ia crescer sozinha.

O chá esfriou nas xícaras.

E o mundo começou a girar.