Capítulo 10

Um gosto de guarda-chuva horrível estava na minha boca, daqueles que grudam na língua e não saem nem com enxágue. Foi difícil abrir os olhos, a claridade do sol entrava pela janela como se quisesse me furar o cérebro. Do meu lado a Jana dormia com a cara enfiada no travesseiro, um rio de baba escorrendo da boca aberta, a calcinha, coitada, entuchada no rabo que estava virado pro ar. Ela abriu um olho, tentou focar em mim, bocejou algo e virou pro outro lado. Eu tinha uma teta saltada pra fora do vestido. Lá embaixo o Cláudio não quis dormir na rede e armou um belo de um circo, duro, reto, latejando como se tivesse acordado antes de mim e já quisesse começar o dia.

Eu entrei em pânico puro.

Eu tava assim, quase pelada, na casa de um estranho? Tentei baixar ele a tapas, mas quanto mais eu batia mais ele pulsava, teimoso pra caralho. Meu coração disparou, a cabeça girou.

Mas quando eu me dei conta onde eu realmente estava ...

— Que caralho é esse? Eu tô maluca ?

Olhei em volta e eu estava na minha casa da serra. No quarto de hóspedes, na mesma cama bagunçada com um monte de latas jogadas no chão, o cheiro de mofo misturado com perfume doce que eu uso todo dia. O chão pareceu ir embora debaixo de mim. Na hora eu pensei caralho alguém deu alguma droga pra gente. Olhei meu pau, normal, mole agora, encolhido contra a coxa. Pisquei o cu e não tava doendo nem cremoso, minha boca era só bafo de cachaça e nada que uma escovada de dente não resolvesse. "Me enrabar, ninguém me enrabou...", pensei.

Olhei pra Jana de novo. Nossas roupas eram as mesmas de ontem, mas estavam limpas, secas, sem uma mancha de lama. Eu me levantei devagar, pernas moles, e corri pra fora.

O dia estava lindo. Nuvens brancas fofas contrastando com um céu azul que parecia pintado, sol querendo esquentar tudo. O quintal verdejante com o sereno da noite ainda brilhando nas folhas, grama alta balançando de leve. E as árvores inteiras, firmes no lugar, como se nunca tivessem tombado. O alpendre lá, telhado como se tivesse brilhando novo, sem uma telha quebrada.

Eu parei na porta com o vento morno batendo no rosto, cheiro de terra molhada misturado com café vindo da casa dos vizinhos. Jana apareceu atrás de mim, esfregando os olhos, cabelo todo embolado.

— Jana, a gente saiu ontem pra algum lugar?

— Só se você saiu sozinha, porque eu apaguei. Aquela vodka com suco de laranja bateu malzão amiga. — falou ela preguiçosa

Eu fui pro banheiro meio desconfiada da minha própria razão. Eu lembrava claramente do que tinha acontecido no dia anterior até tomar aquele chá. Entrei ainda tentando refazer os passos na cabeça, lembrar cada detalhe, cada palavra da Lunna, cada luz piscando na cozinha cheia de coisas. Eu estava apertada e precisava fazer xixi, e fui pensando no caminho do banheiro.

Fechei a porta ainda pensando. Segurei o vestido embolando na cintura, levantei a tampa do vaso, segurei ele displicente e soltei.

Shhhhhhh...

Terminei, balancei.

E pensei.

— Caralho, por que diabos eu tô mijando de pé?

Eu nunca mijava de pé. Nunca na vida. Me virei em pânico pro espelho para ver se como se por um feitiço eu tivesse virado outra coisa. Meu coração batia rápido demais, batucando no peito, eu não conseguia pensar direito, parecia estar tendo um ataque de ansiedade ali mesmo. As pernas tremiam, o rosto quente, suor frio escorrendo pela nuca.

Me encostei na pia gelada e comecei a respirar devagar, contando mentalmente, inspirando pelo nariz, soltando pela boca. Tinha que ter alguma razão pra aquilo ter acontecido. Tinha que ter.

— Vodka foi a vodka certamente, ela me deixou mal e eu não tô acostumada, não tinha comido nada. Foi isso...

Eu tentava respirar e ria ao mesmo tempo de nervoso, um riso curto e estranho que saía tremendo. Aquilo tudo parecia uma loucura sem fim. A tempestade, a casa cheia de coisas, Lunna com maquiagem borrada falando de poder, o chá quente, o discurso que ainda ecoava na minha cabeça... a coisa foi tão real. Tão real que eu sentia o cheiro de camomila misturado com mel na memória. Eu precisava decidir se ia contar aquilo pra Jana. Não... ela ia me zoar até dizer chega. Ia falar que eu sonhei safadeza, que foi sonho molhado com ela ou sei lá o quê.

E no meio desse pensamento ela entrou bocejando, arrumando os peitos no vestido que tinha subido torto durante a noite. Parou na porta, olhou pra mim com uma cara de irritada, depois olhou em volta, viu o vaso aberto, a tampa levantada, e apontou.

— Desde quando você deu pra mijar de pé? — falou apontando pro vaso — Pensei que isso fosse só problema de homem, baixa a tampa cacete.

Ela quase se jogou sentada no vaso, corpo mole, e eu ouvi o jato descer de dentro dela. Ela tinha feito xixi na minha frente um milhão de vezes, só que dessa vez algo estalou diferente dentro de mim.

Era o poder crescendo.

Eu soltei o vestido por trás, deixei as alças caírem dos ombros e ele escorregou reto pro chão. Jana, que olhava pra outro lado, fitou os olhos arregalados assustada comigo. Eu nunca tinha ficado nua completamente assim na frente dela sem me esconder, sem virar de costas, sem toalha, sem nada.

— Eita mulher, o que foi que te deu?

Eu olhei pra ela, ar cansado, e falei.

— Eu só cansei sabe? Cansei de me esconder.

Ela pareceu não entender, vi isso claro no rosto dela, mas gostou. Tentava disfarçar pra onde olhava e escondia um sorriso bobo.

Eu dei mais um passo na direção dela. Ela olhou pra cima rindo, eu invadi o espaço dela, ela ali sentada no vaso com a calcinha presa nos joelhos.

— O que você tá fazendo maluca? O que foi que te deu?