Capítulo 15
Jana virou-se primeiro e ficou estática, o corpo inteiro travado como se tivesse levado choque. Eu mal tive coragem de me virar, de certa forma eu já sabia quem era, o coração estava batendo tão forte que parecia que ia pular pra fora da boca. Quando finalmente consegui girar o corpo devagar, eu vi. Ela era uma mulher alta, queixo quadrado forte, vestia uma camisa larga de tecido fino esvoaçante que balançava com o ventinho da serra, bermuda bege folgada nas pernas, e na cabeça, sobre os cabelos presos num coque bagunçado, um chapéu de palha daqueles de perua chique.
Era a travesti do meu sonho.
Era a Lunna.
E eu estava doida pra caralho.
Jana tentou disfarçar o primeiro impacto ao vê-la e riu sem graça, falando rápido demais.
— Oi, nada não, não tem nada de errado — gaguejou nervosa, voz saindo fina e tremida.
Não tinha nada de errado mesmo, a gente só queria camisinha e lubrificante para comer uns cus, mas a nossa atitude surpresa, os olhos arregalados e o jeito nervoso indicava que algo não estava muito certo. A gente tava ali plantada feito duas idiotas.
— Duas meninas bonitas sozinhas na cidade paradas em frente à farmácia só podem estar querendo uma coisa — ela tirou o chapéu de um jeito teatral, soltando os cabelos longos que caíram nos ombros em ondas pretas com fios grisalhos brilhando no sol. — Quantas camisinhas você precisa, Rebeca?
Quando ela falou o meu nome Jana e eu arregalamos os olhos e ficamos boquiabertas, mudas, olhando pra ela como se tivéssemos visto fantasma. Quando eu finalmente consegui abrir a boca comecei a falar gaguejando.
— Você me conhece?
— Claro amor, você não se lembra de mim, mas eu vi você desse tamanhinho aqui — ela fez um gesto com a mão indicando o quanto eu era pequena quando me conheceu, palma aberta na altura da cintura. — E eu tô te acompanhando agora pelas redes...
É então ela viu as postagens e sabe de tudo. Sabe da condição, do post no Instagram, dos laudos, das merdas que rolou na escola, de tudo.
— Eu preciso ir embora, meus bebês. Decidam-se!
A Jana, que era mais corajosa, estendeu o cartão pra ela e falou.
— Dois pacotes — a força das primeiras palavras foram enfraquecendo e ela continuou como se fosse um segredinho — e das grandes.
Lunna passou a mão no cartão sempre com movimentos extravagantes, dedos longos dançando no plástico como se fosse uma varinha mágica, e se virou pra farmácia. Quando eu finalmente criei coragem e soltei como um miado patético.
— E lubrificante... por favor...
Ela sorriu pra mim, um sorriso largo que mostrava os dentes brancos e fazia os olhos brilharem, e entrou conversando com a mulher do balcão como se fossem velhas amigas de farra. A gente ficou do lado de fora esperando, eu mordendo o lábio inferior e Jana apertando minha mão com força, as duas vermelhas de vergonha e tesão misturado.
Quando voltou caminhamos mais uns passos longe da farmácia, o saquinho plástico balançando na mão dela. Ela ia dando provas que conhecia minha família, falou o nome dos meus irmãos, lembrou como ensinou matemática pra minha irmã mais velha quando ela tava de férias aqui na serra, contou que minha mãe uma vez trouxe bolo de milho pra ela quando a casa dela tava sem luz por uma cagada da prefeitura. Tudo isso com voz rouca e risada baixa, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Quando chegamos na esquina ela entregou o pacote e o cartão da Jana e falou.
— Meus xuxus, preciso ir, se precisarem de alguma coisa é bater na minha casa.
— A gente não sabe onde a senhora mora, tia — falou Jana.
— Senhoraaaa? Tiaaaa?? Me respeita garota, Lunna! Somente Lunna.
Ela falou de um jeito que seus movimentos fizeram a calçada ficar pequena, rebolou exagerado, jogou os cabelos pra trás e apontou com o queixo.
— Eu moro ali.
Apontando pra uma casinha um pouco mais familiar pra mim. Eu não conseguia dizer se era a casa do meu sonho, pois estava tudo escuro, mas parecia, eu não consigo lembrar direito. Eu devo ter ficado muito tempo absorta tentando pensar, porque a Lunna tinha ido embora e eu nem tinha me dado conta. Foi a Jana que tirou do transe.
— Amiga, nosso caso é relacionamento aberto?
— Oi — falei voltando do transe sem saber do que ela falava.
— Se não for, vai ter que ser a partir de agora, porque olha ali pra praça.
E eu olhei. Na praça tinha acabado de chegar uns garotos que sentaram nos bancos de cimento fazendo presepada, coisas de menino, o maior deles tinha quase dois metros de altura, era forte demais, desse estilo fisiculturista. Todos pareciam ser novos, no máximo o mais velho devia ter vinte ou vinte e um anos. Na verdade todos eram saradinhos acima da média, e bonitos, estranhamente bonitos.
— Essa cidade é muito estranha Jana... — falei e ela pareceu não entender.
— E aí piranha, vamos piranhar um pouco?
— Não sei amiga, você sabe que não funciona assim pra mim... — soltei meio que com medo.
Uma das coisas que eu morria de medo era o cara descobrir que eu tenho um pau e querer me meter a porrada depois. Isso já tinha acontecido e eu jurei que nunca mais eu meteria nessa furada de novo. Quando a mina é trans é difícil não perceber, mas eu, quem olha vê uma menina nova, toda pequena e delicada, aí quando descobre a trolha enorme fica puto se sentindo enganado.
— Jana eu vou pra te fazer companhia amiga, mas olha, não quero nada pra mim.
Cruzamos a rua em direção à praça e sentamos nos bancos do outro lado, pra ficar dando sopa esperando as mosquinhas virem em cima da gente. Se fosse pela Jana, ela já teria ido lá neles dar mole, rebolar de leve, jogar o cabelo, soltar risadinha e deixar eles se aproximarem. Mas isso não fazia o meu tipo, aliás, eu não tinha um tipo pra fazer porque nunca tinha dado mole pra ninguém e nem sabia como fazer isso na real. Eu ficava só olhando, pernas cruzadas apertadas pra esconder o volume que já tava acordando só de imaginar o que podia rolar.
E não demorou. Tão logo nos sentamos eles olharam e começaram a cochichar entre si, deram gritos, gargalhadas altas, se zoaram e bateram um no outro, se comportando como animaizinhos decidindo quem ia se acasalar primeiro. O grandão de quase dois metros apontou na nossa direção com o queixo, os outros riram mais forte, um deles imitou um rebolado exagerado e o resto caiu na zoação. Eu só lembrei rapidamente de mandar a Jana enfiar as camisinhas na bolsa, imagina os rapazes vindo aqui e vendo que a gente tinha acabado de comprar camisinhas tamanho GG e lubrificante, eles iam achar que ganharam o dia na certa.
— Jana, enfia isso logo na bolsa, vai que eles vêm aqui e veem — falei baixo, coração acelerando.
Ela abriu a bolsa rápido, enfiou o saquinho da farmácia no fundo e fechou o zíper com força, olhando pros lados como se alguém já tivesse visto.
Entre para comentar
Para participar dos comentários, faça login com a sua conta! É rapidinho!