Capítulo 29
Eu não sei direito o que aconteceu depois daquela bagunça toda, mas um cansaço enorme desabou sobre nós duas como uma onda quente. A gente simplesmente apagou ali, dormindo agarradinhas do jeitinho que fazíamos desde pequenas, pele contra pele, o cheiro dela misturado com o meu ainda no ar. O dia inteiro escapou sem que eu percebesse e o sol da tarde já se despedia devagar por trás da serra, pintando as montanhas de um laranja dourado que entrava pela janela e aquecia o quarto bagunçado.
Quem nos trouxe de volta pra realidade foi meu celular que não parava de tocar em cima da mesinha de forma insistente. Eu atendi ainda meio grogue, o corpo mole e preguiçoso.
— Nossa, filha! Eu estava preocupada com você, eu estou ligando tem meia hora e você não me atendia. Já ia chamar os vizinhos pra ver se tinha acontecido alguma coisa.
Eu terminei de bocejar, sentindo um gosto estranho ainda grudado na boca, mistura de sono e coisas. Respondi com a voz arrastada e cheia de preguiça.
— Nossa, que horas são, mãe? Eu apaguei, o telefone estava bem do meu lado aqui. —Eu me espreguicei devagar, puxando a cobertinha leve que tinha escorregado e cobri as pernas nuas. — Tá um friozinho tão bom aqui, mãe.
— Como tá aí? O que vocês duas aprontaram sozinhas esse tempo todo?
Eu jamais conseguiria contar tudo, claro. As imagens da Jana e o garoto ainda piscavam quentes na minha cabeça. Minha mãe sempre foi minha confidente, a pessoa que ouvia quase tudo sem julgar de verdade. Eu ainda precisava decidir quanto da história eu ia soltar agora, mas decidi adiantar pelo menos uma parte pra acalmar ela e ganhar tempo.
— Eu bem conheci um menino...
— Hummm... — Ela soltou aquele som questionador, aquele tom de mãe que já fareja coisa errada no ar. — Lá na praça, mãe!
— Sei... E quem é esse menino?
— Ah, ele veio pra uma convenção, congresso, um troço assim, coisa de educação física!
— Então a senhora beijou muito na boca na nossa ausência? — Perguntou fingindo seriedade, mas eu sabia que no fundo ela estava rindo do outro lado da linha.
— Beijei demais, mãe! Ele é muito gostoso, lindo e cheirosooooo!
Eu realmente estava empolgada contando, o coração leve e acelerado de um jeito que fazia as palavras saírem fáceis, quase dançando. Minha mãe era minha confidente de verdade, eu compartilhava cada detalhe da minha vida com ela, inclusive as dificuldades, e meu pai também pra várias coisas. Só que com ele a parte da sexualidade eu sempre travava, ficava com vergonha de expor aquele lado que ainda me confundia tanto.
— E quando a senhora vem pra casa? Hoje não né? Tá tarde... — quis ela saber.
— Não mãe, eu amanhã à tarde. Hoje a gente queria dar uma voltinha pela cidade ainda.
Minha mãe fez uma pausa do lado da linha. Eu conseguia ouvir ela respirando fundo, preparando a pergunta mais importante de todas, aquela que sempre vinha.
— E ele sabe, filha?
Ela queria saber se ele sabia que eu tinha um pau. Era difícil as pessoas perceberem, eu teria que usar roupa muito justa, coisa que eu quase nunca vestia, pelo menos não em público.
— Sim...
Agora eu ia ter que explicar como ele descobriu e essa parte da conversa era sempre a mais complicada, cheia de detalhes que eu não queria dar pelo telefone.
— E como ele ficou sabendo disso?
— A conversa foi pra esse lado e eu contei. — Menti pra não ter que entrar em detalhes pelo telefone. Eu te dou todos os detalhes pessoalmente, pode ser?
— Sim, meu amor. Se você está bem, pra mim tá bom. Quando chegar em casa você me conta tudinho que eu quero saber cada detalhe, tá?
Isso vindo de qualquer outra mãe soaria como ameaça. Da minha, não. Mas eu acho que eu não ia ter coragem de contar tudo que rolou nessa viagem pra ela. A Lunna, como eu fiquei com a Jana, como eu transei com um cara... tudo praticamente em menos de um final de semana.
Que loucura como as coisas estavam andando rápido pra mim. Meu corpo ainda formigava com as lembranças quentes da noite e da manhã, o Cláudio descansando quietinho entre as pernas, pesado e satisfeito, mas pronto pra acordar de novo no segundo em que um pensamento mais safado cruzasse a minha cabeça. Eu olhei pra Jana dormindo ao meu lado, o cabelo todo bagunçado espalhado no travesseiro, a boca entreaberta, e sorri sozinha. O peito ficou cheio daquele misto estranho de vergonha, tesão e uma felicidade quieta que não cabia em palavras.
Antes que minha mãe desligasse, eu lembrei de uma coisa que estava me incomodando desde o dia anterior.
— Mãe, a senhora conhece uma mulher chamada Lunna?
— Lunna… — ela fez uma pausa do outro lado da linha, como se estivesse puxando a memória — Sim, conheço. Você falou com ela?
— Sim. A gente viu ela aqui na cidade. Ela falou que era conhecida da senhora, que inclusive conheceu minha irmã… parecia que era bem íntima da família.
Minha mãe gargalhou me deixando sem entender nada.
— Sim, filha, ela é um amor de pessoa. Mas não chega a ser uma pessoa íntima da família, não. Então toma cuidado, tá?
— Mas a senhora conheceu ela de onde?
— Amor, eu conheço ela desde antes… usando as palavras dela, desde antes de ela “nascer de novo”. A gente perdeu um pouco o contato quando ela foi ganhar o mundo e eu desci pra cidade pra casar com seu pai.
— Ahn… então vocês se conhecem desde jovens. Ela falou que a senhora foi levar bolo pra ela uma vez, e que ela ensinou matemática pra minha irmã. Eu achei que era só coisa de vizinha.
— Sim, coitada. A prefeitura deixou ela sem luz uma semana inteira, é mole?
— Ela contou… mas… por que a senhora falou que eu tenho que tomar cuidado?
— Ahn, filha… Eu não tenho contato direito com ela há anos. As pessoas mudam, e ela nunca foi muito boa da cabeça.
